Caminhoneiros temem nova escala de trabalho e pedem regras para garantir descanso em casa
Setor de transporte alerta para impacto bilionário com possível fim da escala 6x1 e pede regras específicas para caminhoneiros

A discussão sobre o fim da escala 6x1, que prevê seis dias de trabalho e um de descanso, ganhou força nos últimos dois anos e chegou ao Congresso Nacional. A possível adoção de uma jornada no modelo 5x2, com dois dias de folga por semana, mobiliza diferentes setores da economia — mas no transporte de cargas o debate ganhou contornos específicos.
Representantes do setor afirmam que uma mudança sem regras próprias para a categoria pode gerar impactos bilionários, aumentar custos operacionais e refletir no preço final dos produtos transportados pelo país.
O vice-presidente da Federação das Empresas de Transporte de Cargas e Logística de Minas Gerais (Fetcemg), Cleiton César, estima que a alteração na jornada pode representar um custo adicional entre R$ 12 bilhões e R$ 28 bilhões por ano para o setor. “Não existe milagre em matemática e economia. Se você tem um custo mais alto, ele é repassado para o consumidor final”, afirmou.
Segundo ele, o transporte rodoviário de cargas precisa ser analisado de forma diferente por causa da importância estratégica para o abastecimento nacional. Atualmente, o modal responde pela maior parte da movimentação de mercadorias no Brasil.
Caminhoneiros pedem descanso em casa
A preocupação com a mudança não parte apenas dos empresários. Caminhoneiros também defendem que qualquer alteração considere a realidade da profissão, marcada por longos períodos fora de casa.
O motorista Juliano Vieira da Silva, acompanhado pela reportagem durante um trajeto entre Betim e Paracatu, afirma que o descanso previsto na nova escala precisa ocorrer, sempre que possível, junto à família. “Tem que ter um diálogo com o empresário para ver como faz. Porque dois dias da pessoa pernoitando em um posto de combustível é complicado. A gente quer o descanso em casa, com a família”, disse.
O também vice-presidente da Fetcemg, Osvaldo Salgado, defende a criação de regras de exceção para motoristas que passam dias viajando. Segundo ele, a aplicação da escala 5x2 sem ajustes poderia prolongar o período em que o profissional fica parado longe de casa. “Você imagina um motorista que fez uma viagem por centenas de quilômetros e chegou sexta-feira à tarde. Ele vai ficar de sexta a segunda para fazer a descarga do caminhão. Nós tiramos ele do convívio familiar”, argumentou.
Transporte pede política de Estado
A Confederação Nacional do Transporte (CNT) acompanha as discussões e defende que a categoria seja tratada dentro de uma política pública de longo prazo. A diretora-executiva nacional do SEST SENAT, Nicole Goulart, afirma que os motoristas profissionais têm papel fundamental no funcionamento da economia brasileira.
“São eles que garantem o abastecimento das cidades, o escoamento da produção e a integração de diversas regiões do país. Quando o motorista profissional enfrenta dificuldades, os impactos são sentidos por toda a economia e pela sociedade”, afirmou.
Para representantes do setor, a discussão precisa considerar as características específicas do transporte rodoviário antes de qualquer mudança na legislação trabalhista. Enquanto o debate no Congresso permanece sem avanço, empresários e trabalhadores tentam sensibilizar parlamentares para que uma eventual alteração na jornada seja feita com planejamento.
“Pela importância que tem, o transporte rodoviário de cargas deveria ser tratado com mais cautela e planejamento pelos legisladores. Caminhão jamais deixará de existir, por isso precisamos enxergar de uma forma diferente”, afirmou Cleiton César.
Jornalista formado pela UFMG, com passagens pela Rádio UFMG Educativa, R7/Record e Portal Inset/Banco Inter. Colecionador de discos de vinil, apaixonado por livros e muito curioso.



