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Reportagem especial: ‘Grandes incêndios: as tragédias que mudaram as leis’

Série de matérias em vídeo conta a história de vítimas dos incêndios que marcaram o país e escancaram as falhas na segurança

Nesta sexta-feira (5), a Itatiaia estreia a série de reportagens “Grandes incêndios: as tragédias que mudaram as leis”. Serão três episódios, exibidos em vídeo, que mostram a evolução das leis e da cultura de prevenção, após grandes incêndios.

Em 2024, a tragédia no Edifício Joelma, em São Paulo, completa 50 anos. O caso serviu como alerta para as autoridades do país sobre a importância de elaborar normas mais rígidas para a segurança em prédios. As chamas mataram 187 pessoas e mais de 300 ficaram feridas, em 1974.

Apesar dos avanços, o Brasil ainda vivenciou outros grandes incêndios com centenas de mortos, como no Canecão Mineiro, em Belo Horizonte, e na Boate Kiss, em Santa Maria (RS). A sequência de tragédias escancarou a ineficiência de fiscalização, punição e previsão de riscos.

Hoje, só 25% dos imóveis comerciais têm seguro contra incêndio. Nas unidades residenciais, o percentual é ainda menor, 17%, segundo dados da Federação Nacional de Seguros Gerais. Um dos principais desafios do setor é desmitificar a ideia de que contratar uma seguradora é coisa para rico. O outro é despertar na população a importância de proteger os bens e vidas.

50 anos do Edifício Joelma

Instalações elétricas improvisadas, hidrantes sem água, ausência de escadas de emergência e portas corta-fogo. Por trás dessa lista enorme de irregularidades está a tragédia do Edifício Joelma, há 50 anos. O empresário Mario Ligere, hoje com 73 anos, trabalhava no 12° andar e ficou cercado pelas chamas.

“Nós percebemos o incêndio devido ao barulho dos vidros explodindo e o pessoal gritando. Meu diretor pegou um extintor e saiu correndo. A secretária foi atrás dele. Quando eu fui tentar sair, não havia escada de incêndio”, relembra Ligere.

A tragédia do dia 1 de fevereiro der 1974 matou 187 pessoas e deixou 300 feridas. “Quem estava subindo começou a descer, quem estava descendo começou a subir. Uma confusão danada. O ar ficou irrespirável. Aí eu decidi pular do prédio. Quando eu abri a janela, notei um pequeno parapeito para nos abrigar. Permanecemos ali por 7 horas”. Meio século depois, as imagens ainda estão na memória do empresário.

As investigações comprovaram que o incêndio no Edifício o Joelma foi provocado por um curto-circuito no ar-condicionado, no 12° andar. O prédio tinha sido inaugurado há três anos antes. O resultado da perícia concluiu que houve negligência em prevenção e segurança. “Eu e outro colega fomos até o local onde ficava o hidrante, colocamos a mangueira e abrimos o registro, mas não tinha água. Uma falha brutal”, conclui Ligere.

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Mudanças na legislação

O bombeiro aposentado João Simão participou do resgate às vítimas. Ao entrar no prédio para salvar um jovem foi atingido por uma parede. A vítima não sobreviveu, o militar foi levado para uma ala do hospital onde estavam os mortos da tragédia. “Despertei horas depois, quando uma pessoa bateu na minha maca”, conta Simão.

Poucos dias depois do incêndio no Joelma houve mudanças na lei. Os alvarás e licenças de funcionamento passaram a ser condicionados à fiscalização de segurança. Uma decisão para evitar novas tragédias.

O tenente-coronel Frederico Pascoal, chefe do Centro de Atividades Técnicas do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, responsável pela fiscalização de imóveis, explica que os grandes incêndios serviram de lição para o cuidado com detalhes até então ignorados. “Nós passamos a avaliar melhor as saídas de emergência para garantir que pessoas não se machucassem durante a evacuação. Os materiais de acabamento passaram a ter um tratamento específico anti-chamas”.

A cultura da prevenção

Nessa época, os seguros dos condomínios contra incêndios já eram obrigatórios. Na década de 1960, um dispositivo assinado pelo general Castello Branco determinou a contratação das apólices, sob pena de multa. Mas cultura da prevenção ainda era frágil, como destaca Magda Truvilhano, da Federação Nacional de Seguros Gerais. “A lei obrigada que os condomínios a terem seguro nas áreas comuns e na parte estrutural. Era uma obrigação do síndico no prazo de 120 dias após a criação do condomínio. Mas, a parte interna das residências não ficava coberta”.

A parte do Edifício Joelma que compreendia os escritórios da Crefisul foi totalmente destruída, mas tinha seguro. Já as indenizações às vítimas foram alvo de batalhas judiciais e muitas só foram pagas décadas depois.

“Além das vidas perdidas, que para gente é o principal motivo de prevenção, existem também as perdas patrimoniais que impactam bastante na vida das famílias, dos proprietários dos Imóveis. Foi a partir desse momento, que a demanda por seguros de imóveis contra incêndio cresceu bastante, o que também foi um fator importante para a prevenção”, explica o tenente-coronel Pascoal.


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