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Vale do Jequitinhonha investe no resgate de cultura dizimada por praga; saiba qual

Entre 2011 e 2013, cotonicultores mineiros tiveram grandes prejuízos devido ao ataque da praga “Helicoverpa armigera”, que dizimou as lavouras; resgate também é comemorado pelas famosas artesãs do Vale

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Grupo Fiadeiras do Jequitinhonha resgatam a cultura do fiar, passada de geração para geração e comemoram regaste do algodão • Nalva Martins Reprodução Instagram

Minas está longe de ser um grande produtor. Mato Grosso lidera a produção nacional entregando cerca de 70% do volume total. Os outros 30% se dividem entre Bahia com 21% e, na sequência, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Maranhão, Piauí, São Paulo, Tocantins, Ceará, Paraíba, Alagoas, Rio Grande do Norte, Paraná e Pernambuco.

Estamos falando do algodão. Vocação e vontade de aumentar a produtividade não faltam, uma vez que a planta se desenvolve bem em regiões secas, como é o caso do Vale do Jequitinhonha e a topografia plana facilita a mecanização. Em 2002, o governo do Estado criou o Proalminas com o objetivo de fomentar o retorno do plantio do algodão no Estado, interrompido após a crise enfrentada pelo setor na década de 90. Entre 2011 e 2013, os cotonicultores mineiros tiveram, novamente, grandes prejuízos devido a intensos ataques da praga “Helicoverpa armigera”, que dizimou as lavouras”, relatou Feliciano.

De lá pra cá, com recursos do Fundo de Desenvolvimento da Cotonicultura, foram intensificadas as ações e projetos como os de combate às pragas, apoio ao pequeno produtor, sustentabilidade, boas práticas na produção, pesquisa, certificação, biotecnologia e análise da qualidade da pluma.

Unidades Demonstrativas ajudam a testar as novas tecnologias

Três unidades técnicas demonstrativas de 0,5 hectare cada uma foram implantadas em Berilo, Jenipapo de Minas e Francisco Badaró, com o objetivo de adequar e validar as novas tecnologias para o cultivo do algodão no Vale.

Uma delas fica na propriedade do produtor João Paulo Esteves, em Jenipapo de Minas. “Está sendo uma experiência nova pra mim e tenho aprendido muito. Plantamos em janeiro, colhemos em julho e a produtividade ficou em torno de 320 arrobas por hectare. Quero plantar de novo”, afirma.

O produtor José João Lopes de Almeida, de Berilo, também ficou satisfeito com o resultado. “Foi uma coisa ótima. Tivemos o apoio de todos os técnicos e a produtividade foi muito boa”.

Cultura se adapta bem em regiões secas, como o Vale

Programa oferece insumos e componentes para irrigação

Além de levar tecnologias para o trato cultural das lavouras, o Proalminas, em parceria com a Amipa, tem viabilizado os insumos e os componentes para a instalação da chamada irrigação ‘de salvamento’. Com baixo volume de chuvas, a estrutura de irrigação é fundamental para garantir a oferta de água nos períodos críticos de seca, evitando o comprometimento da produtividade.

Artesãs estão animadas com a perspectiva de terem mais matéria- prima

O resgate do cultivo do algodão também vai impactar positivamente no artesanato, outra importante atividade econômica e social do Vale. É que as artesãs poderão pegar a matéria-prima para fazer tapetes, forros de mesa, panos de prato e roupa de cama, no quintal da casa dos amigos e vizinhos.

Filha de produtora de algodão e fiadeira, Ivone Machado da Silva lida com o artesanato desde os 8 anos, quando ainda morava na comunidade quilombola de Roça Grande no município de Chapada do Norte. Atualmente, morando em Berilo, ela vê com otimismo as ações para ampliar o cultivo. “A produção ainda está ‘descalçada’. Essa iniciativa vai facilitar nosso trabalho, não só em nossa comunidade, mas em todo o município”, avalia.

“A gente encontrou a felicidade de novo, a gente vai seguir essa felicidade se Deus quiser. Já novelei hoje uns novelinhos, e tô amando o grupo de fiata aqui na comunidade. Nossa… é bom demais fiar, gostoso demais fiar, descaroçar, bater algodão, é uma bênção esse algodão.”

Depoimento de Maria Pereira Moreira, conhecida carinhosamente por Mariinha, que é a agricultora e fiandeira da comunidade do Curtume. O grupo Fiandeidas do Jequitinhonha é uma ação realizada com recursos do Projeto Fiandeiras do Vale do Jequitinhonha aprovado no Edital 08 da Lei Paulo Gustavo no âmbito do Estado de Minas Gerais.

Bordadeiras querem buscar a matéria-prima no quintal dos vizinhos

Produção se aproxima das grandes regiões produtoras

Atualmente, os agricultores familiares da região produzem, em média, 318 arrobas de algodão por hectare. O superintendente de Inovação e Economia Agropecuária da Secretaria de Agricultura (Seapa) e coordenador do Proalminas, Feliciano Nogueira de Oliveira, não sabe dizer quanto o Vale produzia antes do programa, mas garante que esse é um volume próximo do alcançado pelo cultivo empresarial nas maiores regiões produtoras do estado. “É natural a ocorrência de avanços e retrocessos em se tratando de atividade a céu aberto, sujeita a adversidades climáticas, pragas e doenças nas lavouras”.

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Maria Teresa Leal é jornalista, pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação pela PUC Minas. Trabalhou nos jornais 'Hoje em Dia' e 'O Tempo' e foi analista de comunicação na Federação da Agricultura e Pecuária de MG.