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Sílvio Santos foi um grande pecuarista no Mato Grosso? Conheça a história ‘escondida’

Aproveitando incentivos fiscais e a localização da fazenda inserida área da Sudam, o apresentador chegou a ter 10 mil cabeças de gado Nelore

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Apresentador tinha boa interlocução com os presidentes da era militar. Na foto, em reunião no Palácio da Alvorada com João Figueiredo • Divulgação SBT

Que Silvio Santos - morto no último sábado (17) - construiu um império com 33 empresas que incluindo o Baú da Felicidade, a Jequiti Cosméticos, o banco PanAmericano, o hotel Jequitimar, a Liderança Capitalização (Tele-Sena) e o Sistema Brasileiro de Televisão, a gente já sabia. Mas que ele foi produtor rural é novidade.

Pouca gente sabe, mas o apresentador mais querido do Brasil, falecido no último sábado (17), também teve seus dias de empresário do campo. E dos grandes, diga-se de passagem. Sua fazenda no Mato Grosso não era a segunda maior do país, como chegou a ser noticiado. Mas era enorme, com pelo menos, 70 mil hectares.

Segundo o Portal De Olho nos Ruralistas, Silvio comprou a Fazenda Tamakavy, onde hoje ficam os municípios de Alto Boa Vista e São Félix do Araguaia, há 50 anos. Empreendedor nato, ele chegou a ser dono de 10 mil cabeças de gado Nelore, atraído pelos incentivos fiscais concedidos para quem desenvolvesse atividades agropecuárias aprovadas pela Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia). Uma parte do rebanho era exportado e outra vendida para o mercado interno.

Apresentador usou disfarce para visitar a própria fazenda

Claro que ele nunca foi um pecuarista de fato, a ponto de colocar a mão na massa e entender do assunto. Reza a lenda que ele teria visitado a propriedade uma única vez de óculos escuros e barba postiça. Sílvio tinha, então, 42 anos. Descoberto, ele negou à época e disse que jamais tinha ido ao local.

A aquisição da fazenda ocorreu em julho de 1972 durante a gestão do governador mato-grossense José Fragelli, do partido Arena, que gostava de facilitar a aquisição de ‘terras devolutas’ para empresas que apoiassem a ditadura militar. Na época, o presidente era o general Emílio Garrastazu Médici. Para quem não sabe, terras devolutas são terras públicas sem destinação definida, mas que estão irregularmente em posse de algum particular.

Apresentador confirmou versão em depoimento a Arlindo Silva

A história é complexa e tem muitas nuances. Fato é que o empresário vendeu a propriedade Tamakavy em 1989, mesmo ano em que tentou ser candidato a presidente da República, para pagar dívidas do SBT. No livro “A Fantástica História de Silvio Santos”, de Arlindo Silva, o próprio Silvio explica que, com o crescimento dos negócios, era preciso investir o dinheiro:

— Como nossas empresas se ampliavam cada vez mais, estávamos recolhendo muito imposto para o governo. Por isso, partimos para a agropecuária e compramos uma fazenda de 70 mil hectares em Mato Grosso, município de Barra do Garças, onde criamos bois para exportar pelo porto de Santarém e para o mercado interno. 

O negócio era vantajoso porque havia isenção de impostos para criar gado, naquela região que integrava a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). As empresas com sede no Brasil tinham direito à redução de 50% na declaração do Imposto de Renda, caso desenvolvessem projetos agropecuários aprovados por esse órgão que (pasmem!) ainda financiava 75% dos projetos.

Professor da USP criticou dinâmica política da época

O geógrafo e pesquisador Ariovaldo Umbelino de Oliveira - hoje professor titular aposentado da Universidade de São Paulo (USP) - foi um dos mais críticos desse mecanismo, existente à época. Afinal, as terras improdutivas e ociosas em vez de irem parar nas mãos dos camponeses, quilombolas e indígenas que precisavam trabalhar e de ter incentivos para continuar no campo, iam para as mãos de grandes empresários com pouca ou nenhuma afinidade com a produção rural, como parecia ser o caso do querido Sílvio.

Entenda o que é Sudam

As superintendências de desenvolvimento do Nordeste, da Amazônia e o Centro-Oeste - Sudam, Sudene e Sudeco - foram criadas com o objetivo de planejar, coordenar e fomentar o desenvolvimento das regiões menos favorecidas do país.

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Maria Teresa Leal é jornalista, pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação pela PUC Minas. Trabalhou nos jornais 'Hoje em Dia' e 'O Tempo' e foi analista de comunicação na Federação da Agricultura e Pecuária de MG.