O Rio Grande do Sul, maior produtor de uvas do Brasil, projeta uma safra 2025/2026 acima da média histórica, tanto em volume quanto em regularidade produtiva. O número pode chegar a 905.291 toneladas, segundo avaliação do extensionista rural da Emater/RS-Ascar, Thompsson Didone, que acompanha o desenvolvimento da cultura no estado, especialmente na Serra Gaúcha, principal região produtora. O crescimento esperado varia entre 5% e 10% em relação a uma safra normal, consolidando um ciclo de alta produtividade e qualidade.
A viticultura gaúcha tem forte impacto social e econômico. São cerca de 15 mil famílias, em sua maioria agricultores familiares, envolvidas diretamente no cultivo da uva. Atualmente, o estado possui aproximadamente de 42,4 mil hectares cultivados com uva, sendo que 36,6 mil hectares estão concentrados na Serra Gaúcha, o que consolida a região como o maior polo de produção e processamento de uvas do país.
“A maior parte dessa área é destinada à uva para processamento industrial, utilizada na elaboração de vinhos, sucos e espumantes. No entanto, o estado também conta com uma área expressiva de mais de 3 mil hectares de uva de mesa, voltada ao consumo in natura”, detalhou Didone.
Segundo o extensionista rural, a expectativa para a safra atual é positiva. “Em termos de quantidade, a safra deve ser superior a uma safra considerada normal. Tivemos um inverno com frio adequado e de boa qualidade, o que é fundamental para o bom desenvolvimento das videiras”, explicou.
Inverno determinante
As condições climáticas do inverno de 2025 foram determinantes para o bom desempenho da safra. De acordo com o extensionista rural, as videiras necessitam de um número mínimo de horas de frio abaixo de 7,2 °C para uma brotação uniforme e boa formação dos cachos. Enquanto variedades americanas demandam entre 150 e 250 horas, algumas uvas viníferas exigem até 400 horas de frio.
“Nesse ano, em várias regiões do Estado, superamos as 400 horas de frio, com temperaturas estáveis, sem oscilações bruscas. Isso permitiu uma excelente emissão de brotos e cachos, refletindo diretamente no potencial produtivo da safra”, afirmou Didone.
Atraso no ciclo, ganho na qualidade
Embora o potencial produtivo seja alto, o produtor precisou exercitar a paciência. A colheita iniciou com um atraso de 10 a 15 dias, reflexo de um mês de setembro menos ensolarado e com temperaturas mais baixas, o que retardou o desenvolvimento vegetativo.
Contudo, Didone assegura que o alongamento do ciclo não prejudicou o fruto. Pelo contrário, as primeiras cargas recebidas pelas vinícolas apresentam boa sanidade.
“Esse atraso não interferiu na qualidade da uva. Apenas alongou o ciclo”, ressaltou o extensionista rural. As primeiras vinícolas já iniciaram o processo de industrialização, que deve se intensificar nas próximas semanas.
O foco agora se volta para as variedades de destaque:
- Americanas e Híbridas: Compõem 85% da produção e mostram rendimento superior à média.
- Viníferas: Representam cerca de 15% da área, com destaque para a Chardonnay, fundamental para a produção dos premiados espumantes gaúchos.
Expectativas para as próximas semanas
Com a intensificação da industrialização para vinhos, sucos e espumantes, o setor monitora agora as condições climáticas de curto prazo. A qualidade final da uva de mesa (que ocupa 3 mil hectares) e das uvas de processamento dependerá da incidência de sol e do regime de chuvas durante a colheita, prevista para durar até dois meses.
Se as previsões da Emater/RS-Ascar se confirmarem, o acréscimo de 5% sobre a safra anterior — que já havia sido positiva — reafirmará a resiliência e a força tecnológica da fruticultura gaúcha frente aos desafios climáticos.