Preservação das sementes crioulas é tema do Dia do Milho
Variedades locais foram cultivadas e preservadas por agricultores familiares, comunidades tradicionais e indígenas ao longo de gerações

Nesta quinta-feira (24), celebra-se o Dia do Milho, um dos principais cereais cultivados mundialmente que desempenha um papel importante na agricultura familiar. Nesta data, o destaque será para a preservação das sementes crioulas, que são um patrimônio genético vital para a agricultura familiar e a preservação da biodiversidade.
De acordo com o extensionista rural da Emater/RS-Ascar, Adriano Jeferson Dreher, o resgate das sementes crioulas vai além da simples preservação de uma tradição. "As sementes crioulas representam um vasto repositório genético vivo e dinâmico, essencial para a segurança alimentar global. Essas sementes, adaptadas às condições locais, garantem a autonomia dos agricultores e a continuidade da produção, mesmo diante de desafios, como mudanças climáticas e déficit hídrico", avalia.
Dreher conta que a Associação dos Guardiões das Sementes Crioulas de Ibarama tem desempenhado um papel fundamental no resgate e multiplicação dessas sementes. "Desde 2008, a Associação trabalha para conservar as variedades tradicionais que, de outra forma, poderiam ser perdidas".
Essas sementes têm grande importância, pois são mais adaptadas às condições locais, garantindo uma produção resiliente e nutritiva. A troca de sementes não é apenas uma oportunidade de acesso a variedades tradicionais de plantas, mas também uma forma de preservar um conhecimento ancestral e fortalecer a soberania alimentar.
Em Ibarama, no Rio Grande do Sul, o Dia da Troca de Sementes Crioulas, que ocorre em agosto, permite que agricultores, famílias e comunidades se conectem, compartilhem e aprendam sobre o valor das sementes crioulas. O evento busca promover o uso dessas sementes e estimular a multiplicação das variedades tradicionais, garantindo que as futuras gerações possam continuar a se beneficiar desse recurso.
Preservação em banco mundial
A conservação da agrobiodiversidade também se dá com o envio das sementes crioulas da Associação de Agricultores Guardiões de Ibarama ao Banco Mundial de Sementes de Svalbard, na Noruega. A iniciativa, fruto de uma parceria entre a Embrapa Clima Temperado, de Pelotas, e agricultores familiares da região, reforça a preservação de variedades tradicionais.
Diante do potencial genético e cultural dessas sementes, surgiu a proposta de integrá-las ao cofre de sementes de Svalbard, conhecido como "Cofre do Fim do Mundo". Após consulta aos agricultores, a Associação de Ibarama concordou em contribuir com a iniciativa global.
A partir daí, com orientação da Embrapa, iniciou-se o processo de multiplicação das sementes, garantindo qualidade e poder germinativo adequados. Em seguida, as amostras foram enviadas à sede da Embrapa Clima Temperado e, posteriormente, a Brasília, de onde seguiram para a Noruega.
Além da segurança alimentar, a valorização das sementes crioulas também representa uma nova possibilidade de renda para os agricultores familiares. "Essas variedades apresentam diferenças nutricionais importantes e, ao serem reconhecidas, podem abrir novos mercados e oportunidades, inclusive para o consumidor urbano", afirma.
O envio de sementes é voluntário e depende da iniciativa dos próprios agricultores guardiões. O processo, que leva cerca de dois anos entre a decisão e o envio efetivo, requer o apoio técnico da Embrapa, que mantém acordo de cooperação com o banco norueguês.
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



