Paixão de gerações e dedicação impulsionam campeões do cavalo Campolina
Histórias de herança familiar, amor pelos animais e bastidores da pista dão vida à celebração de 75 anos da raça em Belo Horizonte

Por trás dos troféus e das imponentes pistas de julgamento da 46ª Exposição Nacional do Cavalo Campolina, no Parque da Gameleira, bate o coração de famílias e profissionais que dedicam a vida à equinocultura. O evento em Belo Horizonte, que celebra os 75 anos da raça, evidencia como o meio equestre transcende o agronegócio e se consolida como estilo de vida e herança familiar.
Um exemplo dessa dedicação é o médico Henrique Moraes Salvador, proprietário do Haras JHR, em Inhaúma (MG). Criador da raça há 56 anos por incentivo do pai, ele hoje compartilha o manejo e a paixão com o filho, José Henrique, e com os netos. Acumulando cinco anos consecutivos como melhor criador e expositor nacional, Henrique destaca que o valor da atividade vai muito além dos títulos conquistados por suas matrizes, como a égua pampa 'Nina JHR'.

"Eu digo que ganhar ou perder depende muito da época. Isso pode acontecer e faz parte de uma série de fatores. O importante é que esse contato com o campo, com o cavalo, com a natureza e com o gado é uma maneira muito gratificante que encontrei na minha vida de relaxar nos fins de semana com a família, criando os netos hoje e os filhos." revelou Henrique Salvador à Itatiaia.
Além do convívio familiar, a equinocultura proporciona uma rede diversificada de relacionamentos que vai além da rotina da medicina: "Acaba sendo uma boa oportunidade também de ter muitos amigos de diversas áreas. Eu sou médico, por exemplo. Quando a gente tem um círculo de amizades mais voltado para a atividade profissional, normalmente seriam mais médicos mesmo. Mas num ambiente como esse, acaba que você tem empresários, fazendeiros, comerciantes e industriais. Pessoas de várias áreas, o que enriquece muito também o networking".

A afetuosidade e o temperamento manso do animal também são o ponto central para quem convive diariamente com a raça. Para a criadora Jacqueline Almeida, do Haras ABA, a relação com o Campolina é baseada no carinho constante: "Os animais são muito dóceis, são animais para a família mesmo e para as crianças. O animal se chama, ele vem. Você faz carinho e ele quer mais. A Mulan já está aqui porque fica pedindo carinho para a gente. Nossos animais são tratados com muito carinho, então eles gostam e querem ficar com a gente".

Jacqueline reforça que a raça foi feita para a atividade prática e o convívio diário: "Eu recomendo demais a raça. Acho o cavalo Campolina o mais bonito que tem. É um cavalo dócil, para a família mesmo. Se você der uma voltinha no parque, vai ver que tem criança puxando cavalo e brincando com ele. É um cavalo para a gente usar, não para ficar na cocheira" ressaltou Jacqueline, que mantem a tradição ao lado do marido Aylton Bernardino de Almeida, também vice-presidente da Associação Brasileira do Cavalo Campolina (ABCC).
A 'Copa do Mundo' dos peões
Se na ponta do investimento estão os criadores, no chão da pista e no manejo diário brilham os peões e adestradores. Com 74 anos de idade e 45 dedicados à carreira, Romildo Miranda Barbosa, o "Nil", representa a memória viva do trabalho de pista. Hoje atuando como consultor, ele analisa o compromisso com a profissão: "Trabalhar com cavalo é tudo o que a gente precisa. Você tem que se dedicar com perfeição àquilo que faz para deixar um legado à altura do seu trabalho. Não é só chegar e falar 'eu sou peão'. O profissional tem que ter dedicação e competência, sem ter hora ou noite para estar presente", contou à reportagem.

Hoje focado em transmitir sua experiência para a nova geração, Nil destaca a importância da Exposição Nacional no calendário anual: "Não monto mais devido à idade, mas passo o conhecimento para quem está iniciando. [A Nacional] é o troféu máximo, é a nossa Copa do Mundo. Chegou aqui, você tem que dar o máximo. Subir naquele pódio ali não é qualquer um que sobe, não".
Por fim, o consultor ressalta que o sucesso nas pistas depende da sintonia entre toda a equipe. "O cavalo não ganha sozinho. Você tem que aliar três coisas: o peão, o cavalo e o patrão. Não adianta ter um bom peão se o patrão não contribui com uma boa ração, medicamento e pasto. Tudo isso influencia para a gente desenvolver um bom trabalho".
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.



