Fim do 'café fake'? Nova tecnologia identifica pureza e origem do grão em segundos
Desenvolvida pela Embrapa e Unicamp, técnica de baixo custo usa luz infravermelha para garantir a pureza do grão e valorizar o terroir de regiões produtoras

Uma tecnologia que funciona como um "scanner de autenticidade" promete revolucionar a fiscalização e a valorização do café brasileiro. Pesquisadores da Embrapa Rondônia e da Unicamp validaram o uso da espectroscopia no infravermelho próximo (NIR), uma técnica capaz de identificar a origem geográfica exata de um lote e detectar, de forma quase instantânea, se o produto foi adulterado com milho, soja, cascas ou até sementes de açaí.
Diferente das análises laboratoriais convencionais, que podem levar dias e utilizam reagentes químicos, a tecnologia NIR é limpa, não destrói a amostra e apresenta resultados em poucos segundos.
Como funciona a 'impressão digital' química
A técnica baseia-se na interação da luz com os compostos químicos do café. Ao incidir sobre o grão ou o pó, a luz gera um sinal chamado "espectro".
"Esse espectro funciona como uma impressão digital única", explicou Enrique Alves, pesquisador da Embrapa Rondônia. "Com algoritmos treinados, conseguimos identificar o terroir do café, separando, por exemplo, os Robustas Amazônicos dos Conilons do Espírito Santo".
Barreira contra fraudes e sementes de açaí
O avanço do preço do café no mercado interno intensificou as tentativas de fraude. Além dos tradicionais misturadores como milho e palha, o estudo identificou uma "fraude emergente": o uso de sementes de açaí.
Segundo Michel Baqueta, que desenvolveu a pesquisa durante seu doutorado na Unicamp, o sistema detecta qualquer variação na curva espectral. "Se houver contaminante, resíduo ou mistura de grãos inferiores em um lote premium, o sistema acusa a irregularidade imediatamente", afirmou.
Tecnologia democrática e portátil
Uma das maiores vantagens da inovação é a acessibilidade. O equipamento pode ser utilizado em versões de bancada (em laboratórios e cooperativas) ou em dispositivos portáteis, que permitem a fiscalização diretamente no campo ou em unidades móveis.
- Rapidez: Resultado em segundos.
- Baixo custo: Não utiliza gases ou reagentes caros.
- Sustentabilidade: Método "verde", sem geração de resíduos químicos.
- Facilidade: Exige treinamento simples para os operadores.
Valorização dos cafés indígenas e especiais
Além de combater o crime de adulteração, a tecnologia tem um papel social e econômico fundamental: a certificação de origem. A validação científica facilita o reconhecimento de cafés produzidos por comunidades indígenas na Amazônia, agregando valor simbólico e financeiro ao garantir ao comprador internacional que aquele produto possui características geográficas e culturais únicas.
A expectativa agora é que a tecnologia seja integrada a aplicativos conectados à nuvem, permitindo que o controle de qualidade acompanhe o café desde a colheita até a exportação, consolidando a confiança do mercado global no produto brasileiro.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde



