Drones e IA indicam o momento exato para o abate do gado; entenda
Tecnologia desenvolvida pela Embrapa e parceiros elimina o estresse da pesagem tradicional e identifica o 'ponto de virada' econômico para o pecuarista

O "olho do dono", tradicionalmente usado para avaliar o gado, acaba de ganhar um reforço tecnológico de alta precisão. Pesquisadores do projeto Semear Digital, sediado na Embrapa Agricultura Digital, desenvolveram um sistema que utiliza drones e inteligência artificial (IA) para monitorar o crescimento de bovinos em confinamento, permitindo identificar com exatidão o momento em que o animal atinge seu pico de eficiência produtiva.
A inovação, detalhada na revista científica Computers and Electronics in Agriculture, promete resolver um dos maiores gargalos da pecuária: a necessidade de pesagem constante. No método tradicional, o gado precisa ser deslocado até a balança, o que gera estresse, risco de ferimentos e perda de peso. Com a nova tecnologia, o monitoramento é feito de forma remota e silenciosa.
Fim do estresse no curral
Para coletar os dados, drones sobrevoam o confinamento a cerca de 15 metros de altitude. As imagens capturadas são processadas por modelos de IA que identificam cada animal, segmentam o corpo do boi e extraem medidas automáticas de comprimento e largura.
"Métodos tradicionais de pesagem exigem manejo intensivo e podem causar estresse aos animais, afetando negativamente seu bem-estar e ganho de peso", explicou Everton Tetila, pesquisador do Semear Digital e professor da UFGD.
A chave da lucratividade
O sistema foca em encontrar o chamado ponto de inflexão (virada). No início do confinamento, o gado ganha peso lentamente (adaptação); depois, entra em uma fase de crescimento acelerado até chegar a um topo, a partir do qual a conversão alimentar cai — ou seja, o boi passa a comer muito para ganhar pouco peso.
Identificar esse momento exato é crucial para o bolso do produtor. Em grandes lotes, a decisão de abater ou vender o animal com apenas um dia de diferença pode representar uma economia gigantesca em custos de ração e manejo.
Além do peso: monitorando o comportamento
A versatilidade da tecnologia vai muito além da simples estimativa visual de peso, funcionando como um par de olhos constante sobre o rebanho. A vasta base de dados gerada pelos drones está sendo utilizada para treinar os algoritmos de IA na identificação de comportamentos anômalos que indicam problemas de bem-estar ou saúde no lote.
O sistema é capaz de detectar precocemente situações como a sodomia (perseguição) bovina e a monta entre animais, comportamentos que frequentemente geram lesões e estresse crônico em sistemas de confinamento. Além disso, o monitoramento contínuo permite que a inteligência artificial reconheça padrões motores associados a doenças ou níveis elevados de estresse, oferecendo ao pecuarista a oportunidade de intervir rapidamente antes que o desempenho produtivo de todo o grupo seja comprometido.
Próximos passos
Embora testada com sucesso em lotes de Nelore no Mato Grosso do Sul, a equipe — que inclui especialistas da USP e UFGD — planeja expandir os modelos para raças como Angus e Brahman.
O sistema está em fase de protótipo avançado. Segundo Jayme Barbedo, pesquisador da Embrapa, o próximo desafio é encontrar parceiros comerciais para transformar a ciência em um produto acessível ao mercado. "Se você identifica o momento ideal de abate, diminui os custos de produção e pode até contribuir para a redução do preço da carne no consumidor final", concluiu Tetila.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde



