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Dia Mundial sem carne: cresce o número de flexitarianos no país; entenda

Pesquisa do The Good Food Institute Brasil (GFI) revela que a expansão do setor plant-based no Brasil deve-se principalmente ao aumento dos flexitarianos, pessoas que não pararam de comer carne, mas reduziram o hábito consideravelmente

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Brasil está prestes a superar a marca de R$ 1 bilhão em vendas no varejo de produtos plant-based • Maria Teresa Leal/Itatiaia

Nessa semana, comemorou-se o ‘Dia Mundial sem Carne’ em 20 de março. A data foi criada em 1985, nos Estados Unidos, por movimentos ambientalistas e de proteção animal e em retaliação à instituição da Semana Nacional da Carne por uma resolução do Senado dos EUA.

De lá pra cá, muita coisa mudou. Se, na época, o movimento foi considerado ‘coisa de hipongas’, hoje ele ‘pega’ muito mais gente, pessoas que estão preocupadas em contribuir para a redução da emissão de gases de efeito estufa no planeta.

Um exemplo é o casal Gabriel Renault de Mendonça, engenheiro químico, e Fernanda Barbosa Lana, médica, moradores de Belo Horizonte que, há cerca de um ano, decidiram reduzir o consumo de carne.

Gabriel conta que a ‘virada de chave’ começou ao assistirem o documentário “The Game Changers” que mostra atletas de diversas categorias que seguiam dietas vegetarianas ou veganas e ainda assim se mantinham na elite de seus esportes. “Também no mesmo documentário, vimos estudos que comprovam correlações de algumas inflamações e potenciais distúrbios causados pela alta ingestão de carne. Não foi exatamente isso que me fez tomar a decisão de reduzir, mas o documentário nos trouxe questionamentos importantes ”, contou Gabriel.

Segundo o engenheiro, todo esse processo de redução do consumo levou, ao todo, quatro anos. E apesar dos ‘ganhos relacionados ao bem-estar’, o que foi mesmo determinante para a decisão deles foi ‘contribuir para a redução dos gases de efeito estufa.

Gabriel e Fernanda começaram a experimentar refeições vegetarianas e perceberam que o sabor os satisfazia bem, sem a necessidade de carne. E, como já há algum tempo vinha evitando comer embutidos de carne no café da manhã, levantaram a possibilidade de experimentar um dia completo, totalmente sem proteína animal.

O engenheiro Gabriel e a médica Fernanda: reduziram o consumo de carne, após conscientização ambiental

Fernanda admite que ‘sempre foi o tipo de pessoa que defende alimentação baseada em carne animal com a justificativa de que ‘somos seres onívoros por natureza, logo, comer carne deveria fazer parte das nossas vidas’.

“Levei muito tempo para começar a compreender o que muitos vegetarianos com quem conversei diziam: não é sustentável consumir tanta carne. Minha decisão se pautou, fundamentalmente, nesse fato: a carne animal que comemos é um recurso limitado. A criação de animais para o abate, desmatando áreas de mata natural não pode ser justificada pelo meu consumismo. E sei que essa reflexão está muito relacionada ao meu momento de vida. Tenho estado mais sensibilizada e preocupada com as questões ambientais”, contou a médica.

Com isso, veio a ideia de separar um dia da semana completamente sem carne e reduzir o consumo nos demais dias, sem excluir o leite, o queijo e os ovos e dando preferência aos peixes sempre que possível.

Gabriel admite que comer sem carne é bem menos prático. Infelizmente, segundo ele, ainda é mais fácil encontrar proteínas animais do que vegetais. Existem opções que são mais baratas que a carne e outras que são mais caras que o preço médio das proteínas animais e ensina: tudo depende dos seus recursos (tempo e investimento). “A maioria das substituições que fazemos é com grão de bico, proteína de soja texturizada e cogumelos, pois elas são práticas, baratas e com sabor. Outras opções que, raramente, nos ocorre são: comprar congelados que possuem inúmeras possibilidades nos supermercados, ou recorrer a restaurantes via delivery que oferecem opções de qualidade”.

Fernanda diz que se adaptou bem ao gosto dos alimentos, percebe que a digestão é melhor e que fica mais bem disposta nos dias sem carne. “Estamos há um ano nesse processo de redução, com o desafio e o desejo de aumentarmos cada vez mais os dias sem carne”.

Pecuária representa 12% das emissões

De acordo com relatório da FAO, Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, publicado em dezembro do ano passado e que tem o ano de 2015 como referência, a pecuária representa 12% das emissões de gases de efeito estufa causadas pelas atividades humanas.

  • Considerando apenas a pecuária, o gado bovino é a principal fonte de emissões, sendo 62% do total. 
  • A produção de carne é a principal causa (67%) e não a de leite (incluindo outros animais, como búfalo e cabra), que representa apenas 30% dessas emissões.
  • A emissão de gases da pecuária bovina de corte no Brasil é cerca de oito vezes maior do que da de leite, de acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), uma iniciativa do Observatório do Clima.

Consumidor está reduzindo, não eliminando o consumo

A pesquisa “O consumidor brasileiro e o mercado plant-based”, da plataforma Euromonitor, realizada pelo The Good Food Institute Brasil, organização sem fins lucrativos, que trabalha internacionalmente para acelerar a inovação do setor de proteínas alternativas, mostra que o consumidor brasileiro vem buscando consumir carne bovina com menos frequência, pelos mesmos motivos do casal citado acima.

A pesquisa aponta ainda que 67% dos brasileiros dizem ter diminuído seu consumo de carne em 2022 (bovina, suína, aves e peixes), um aumento de 17 pontos percentuais em relação aos dados de 2020.

Para se ter uma ideia, em 2019, 29% dos consumidores disseram que reduziram o consumo de carne; já em 2020, esse número subiu para 50%. Em 2022, na última pesquisa realizada, esse número tinha disparado para 67%.

Ainda de acordo com a pesquisa, o número de pessoas que consomem carne bovina pelo menos três vezes por semana caiu 6 pontos percentuais entre 2020 e 2022.

Alysson Soares, especialista sênior em Políticas Públicas do GFI, diz que a leitura mais importante que se pode fazer a partir desses dados é: os consumidores brasileiros estão reduzindo o consumo de carne, ao invés de eliminá-lo completamente. Isso vai ao encontro de outro dado apontado pela pesquisa: 28% dos brasileiros se definem como “flexitarianos”, ou seja, pessoas que aceitam comer sem carne e que reduziram o consumo pelo menos uma vez por semana.

Isso significa, de acordo com o especialista, que as chamadas proteínas plant-based estão sendo vistas não apenas como substitutas no prato dos brasileiros, mas também como mais uma opção de alimento para um grupo consumidor que não necessariamente é vegetariano ou vegano.

Os motivos que têm levado as pessoas a reduzir o consumo de carne , podem ser divididos assim:

  • aumento do preço da carne lidera, com 45% das respostas, 
  • vontade de melhorar a saúde, com 36%. 
  • preocupação com os animais, com o meio ambiente, alergias, intolerâncias alimentares e motivos religiosos também foram citados pelos consumidores. 
  • O resultado é que quatro em cada dez brasileiros dizem consumir proteínas alternativas em substituição aos produtos de origem animal pelo menos três vezes por semana. 

Fonte: GSI

Setor está prestes a superar marca de R$ 1 bilhão 

Essa mudança de hábitos, claro, se reflete em cifras: o setor das plants-baseds no Brasil está prestes a superar a marca de R$ 1 bilhão em vendas no varejo - de acordo com levantamento da plataforma. Só em 2022, o mercado teve um faturamento de R$ 821 milhões, cerca de 42% a mais que em 2021. Globalmente, o crescimento foi de 6%, atingindo o patamar de US$ 6,1 bilhões.

O comércio de bebidas a base de plantas, uma alternativa ao leite, também está em alta, tendo alcançado o faturamento de R$ 612 milhões no Brasil e US$ 19,1 bilhões globalmente em 2022. Hoje, o mercado de proteínas alternativas análogas conta com 107 empresas e já exporta produtos para cerca de 30 países.

Veja o ranking do Mapa Veg – iniciativa online que realiza um censo de vegetarianos e veganos no país:

  • 1º São Paulo
  • 2º Rio de Janeiro
  • 3º Rio Grande do Sul
  • 4º Minas Gerais
  • 5º Paraná
  • 6º Santa Catarina
  • 7º Distrito Federal

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Maria Teresa Leal é jornalista, pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação pela PUC Minas. Trabalhou nos jornais 'Hoje em Dia' e 'O Tempo' e foi analista de comunicação na Federação da Agricultura e Pecuária de MG.