De empréstimo de R$ 500 à transformação da propriedade: microcrédito fortalece o agro familiar
O dinheiro por menor que seja de crédito, pode fortalecer a agricultura familiar, como o Agroamigo do Banco Nordeste, que coleciona histórias vencedoras

Em 2006, o agricultor Valteir Soares Antunes, morador de Itinga, no médio Vale do Jequitinhonha, Região Nordeste de Minas, decidiu apostar em um financiamento que mudaria a história de sua família. O valor era pequeno: apenas R$ 500. Mas o recurso foi suficiente para dar início a uma trajetória marcada pelo crescimento da produção, geração de renda e melhoria da qualidade de vida.
O primeiro investimento foi simples: o plantio de palma, a implantação de uma horta e a compra de algumas galinhas.
"Primeiro, eu plantei a palma. Depois, fiz as hortinhas e comprei umas galinhas para criar no terreiro. Foi assim que tudo começou", lembra Valteir.
O pagamento em dia dos financiamentos abriu caminho para novas operações de crédito. Com os recursos, ele construiu caixas d'água, instalou cercas e ampliou a infraestrutura da propriedade. Hoje, tornou-se um exemplo de como o microcrédito pode fortalecer a agricultura familiar e criar condições para que as famílias permaneçam no campo.
"Aqueles R$ 500 foram muito mais do que eu imaginava. O prazo para pagar permitiu que eu produzisse, tivesse renda e conseguisse crescer", afirmou o produtor rural à Itatiaia.
A história de Valteir representa milhares de pequenos produtores que encontraram no crédito orientado uma oportunidade para investir, ampliar a produção e prosperar sem deixar suas comunidades. É justamente esse o objetivo dos programas Agroamigo e Crediamigo, operados pelo Banco do Nordeste.
Enquanto o Crediamigo atende pequenos empreendedores urbanos dos setores de comércio e serviços, o Agroamigo é voltado ao microcrédito rural e à agricultura familiar, oferecendo financiamento com menos burocracia, acompanhamento técnico e condições diferenciadas de pagamento.
Segundo o gerente executivo estadual do Banco do Nordeste, Evacir Júnior, a instituição mantém uma oferta permanente de crédito por meio dos recursos dos fundos constitucionais destinados ao desenvolvimento regional. A atuação do banco ultrapassa os limites geográficos do Nordeste e alcança toda a área de abrangência da Sudene, incluindo municípios do Norte de Minas e do Vale do Jequitinhonha.
"Além de financiar a produção, o banco busca promover desenvolvimento econômico e inclusão social, oferecendo condições para que agricultores familiares ampliem seus negócios, aumentem a produtividade e permaneçam na atividade com dignidade e rentabilidade", destaca.
Crédito aliado às políticas públicas
A estratégia está alinhada às ações do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA). Para a secretária-executiva Fernanda Machiaveli, fortalecer a agricultura familiar exige um conjunto de políticas públicas que inclui acesso ao crédito, assistência técnica, conectividade digital e programas voltados especialmente para mulheres e jovens.
O objetivo é criar oportunidades de trabalho e geração de renda nas próprias comunidades rurais, reduzindo o êxodo no campo e estimulando modelos de produção sustentáveis, como a agroecologia.

Da produção artesanal a uma empresa reconhecida nacionalmente
Os resultados dessas políticas podem ser vistos em diferentes regiões de Minas Gerais.
Em Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a agroindústria familiar Sabarabuçu transformou a jabuticaba em um negócio de alcance nacional.
O produtor Genilson Dantas conta que a empresa começou de forma bastante modesta, produzindo geleias em um apartamento. Hoje, o catálogo reúne mais de 30 produtos, entre geleias, licores, molhos e outras especialidades comercializadas em diversas regiões do país.

"A gente começou num apartamento, no quarto andar. Fomos ganhando prêmios, alugamos um espaço maior, depois outro ainda maior", conta.
Mas o crescimento também enfrentou desafios. Em 2020, uma enchente destruiu 11 toneladas de jabuticaba justamente durante a pandemia.
"Perdemos 11 toneladas de fruta. Tivemos que recomeçar praticamente do zero. O crédito foi fundamental para que a empresa conseguisse seguir em frente", relata.
Microcrédito como instrumento de transformação social
Outra história de transformação vem de Monte Azul, no Norte de Minas. Beneficiária do Agroamigo, a produtora rural Silvana Souza utilizou um pequeno financiamento para iniciar investimentos na pecuária de corte. Com o passar dos anos, diversificou a produção, fortaleceu uma associação quilombola de mulheres e ajudou a resgatar o cultivo do algodão agroecológico.

"O crédito permitiu comprar duas novilhas. Elas se multiplicaram, conseguimos vender os bezerros, pagar o financiamento e continuar investindo", lembra.
Hoje, além da comercialização de gado para açougues e frigoríficos da região, a comunidade voltou a produzir algodão agroecológico.
"O rebanho foi crescendo, conseguimos aumentar a renda e depois retomamos o cultivo do algodão, aprendendo uma nova forma de trabalhar com a produção agroecológica."
Para Silvana, o crédito representa muito mais do que dinheiro.
"O Agroamigo abre portas para quem não tem praticamente nada para começar. O crédito é importante, mas também é preciso acreditar no próprio potencial."
Crédito que gera desenvolvimento
As histórias de Valteir, Genilson e Silvana demonstram que, quando o acesso ao crédito é acompanhado de assistência técnica e políticas públicas, os resultados vão muito além da produção agrícola.
O investimento impulsiona pequenos negócios, gera emprego e renda, fortalece a agricultura familiar, amplia a participação das mulheres no campo e cria oportunidades para que jovens permaneçam em suas comunidades, contribuindo para o desenvolvimento regional.
Os números reforçam essa realidade. Os pequenos empreendedores rurais e agricultores familiares representam cerca de 80% dos mais de cinco milhões de estabelecimentos rurais existentes no Brasil.
Em Minas Gerais, dados do Sebrae mostram que aproximadamente 40 mil pequenos negócios receberam, entre 2020 e 2022, cerca de R$ 1,9 bilhão em financiamentos garantidos pelo Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (Fampe). O volume correspondeu a 16% de todo o crédito avalizado no país e colocou o estado na segunda posição nacional em número de empreendimentos beneficiados.
Criado em 1995, o Fampe já garantiu mais de R$ 30 bilhões em crédito para cerca de 540 mil empresas brasileiras. Somente nos últimos dois anos, foram realizadas aproximadamente 40% de todas as operações registradas desde a criação do fundo, evidenciando a crescente importância do acesso ao crédito como instrumento de desenvolvimento econômico e inclusão produtiva.
Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.



