Belo Horizonte
Itatiaia

Cientistas anunciam a criação de um café feito em laboratório; entenda

Pesquisadores do Centro de Investigação Técnica da Finlândia admitem que a bebida pode ser aperfeiçoada e acreditam que a tecnologia estará pronta para o uso comercial em quatro anos

Por
Cientistas da Finlândia transformaram células de café arábica, cultivadas em laboratório, em uma bebida de café • Pixabay

O café é a bebida mais consumida no mundo. E o fato de ser amplamente apreciada deve-se a seu complexo e sofisticado sabor, que gera uma sensação agradável, fruto de inúmeras substâncias presentes na planta e ressaltadas durante o processamento do grão. Seria de esperar que algo tão sofisticado assim, não pudesse ser replicado em laboratório, certo?

Errado! “A ciência é pródiga em superar desafios”, avisa o professor Décio Luiz Gazzoni, engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e da Academia Brasileira de Ciência Agronômica. Segundo ele, um dos segmentos da ciência que mais tem avançado nos últimos anos é a chamada “agricultura celular”, em que células animais ou vegetais são tratadas em biorreatores para criar biomassa – como carne ou matéria vegetal – que é semelhante à que poderia ser criada através de práticas agrícolas tradicionais.

Células de café arábica cultivadas em laboratório 🍒

Pois foi usando essas técnicas de biotecnologia que cientistas do Centro de Investigação Técnica VTT, da Finlândia (vttresearch.com/en) transformaram células de café arábica, cultivadas em laboratório, em uma bebida de café. “Ainda se trata de uma prova-conceito, nada que satisfaça um gourmet refinado”, alerta o professor.

Gazzoni explica que no Centro de pesquisa VTT, os cientistas estabeleceram culturas de células de café em laboratório e as transferiram para biorreatores que geraram uma biomassa – ou seja, um material físico de plantas de café que foi colocado em uma bandeja e torrado em um forno. A bebida que surgiu, por sua vez, foi submetida a um painel sensorial ‘treinado’, que concluiu que a bebida obtida em laboratório se assemelhava a um café convencional. No entanto, os cientistas reconheceram que “ainda há espaço para aperfeiçoamentos”.

Professor diz que ‘ajustes’ são normais ☕

Professor Décio Luiz Gazzoni, que é membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e da Academia Brasileira de Ciência Agronômica.

Mas, de acordo com o professor, o desenvolvimento tecnológico é assim mesmo: demonstrado o conceito, seguem-se os estudos para ajustes operacionais, melhoria de qualidade, escalabilidade e compatibilização de custos, até atingir o status de inovação”, informa Gazzoni.

Tecnologia deverá estar pronta para uso em quatro anos 🎰

Além da própria obtenção da biomassa de café, o desenvolvimento passa pelo processamento posterior, como a torrefação ou a fermentação. Dependendo dos protocolos estabelecidos para cada um desses processos, o blend final do café será diferente. Os cientistas do VTT acreditam que a tecnologia estará pronta para uso comercial em quatro anos, com uso de reatores para até 100.000 litros em cada batelada.

O estágio atual dos estudos foi descrito em uma publicação recente (pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.jafc.3c04503). Novos avanços surgirão, a ponto de tornar a tecnologia comercialmente viável no médio prazo. “Trata-se de uma ameaça significativa para a lavoura cafeeira, em todas as partes do mundo, seja no Brasil, Vietnam, Colômbia ou Jamaica”, diz o professor.

Bebidas deverão atender ao consumo em larga escala ☕🍒



Mas, na opinião dele, a produção em laboratório gerará bebidas de sabor convencional, para consumo em larga escala e para público pouco exigente. “Sempre haverá um espaço comercial significativo para os cafés finos, especiais, com processamento exclusivo. As duas grandes apostas para o futuro da cafeicultura se concentram na melhoria da tecnologia cafeeira, provida pelos centros de pesquisa; e na adoção e melhoria constante dos sistemas de produção, por parte de cafeicultores investindo na produção de cafés finos”.

Participe dos canais da Itatiaia:

Por

Maria Teresa Leal é jornalista, pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação pela PUC Minas. Trabalhou nos jornais 'Hoje em Dia' e 'O Tempo' e foi analista de comunicação na Federação da Agricultura e Pecuária de MG.