Biribiri: vilarejo sem moradores vira refúgio entre cachoeiras em Diamantina
Espaço, construído para abrigar funcionários da antiga fábrica têxtil que funcionava no local, se transformou em um novo polo turístico em meio a Serra do Espinhaço

Em meio às montanhas da Serra do Espinhaço, na região do Vale do Jequitinhonha, e próximo ao Centro Histórico de Diamantina, um vilarejo sem moradores fixos entrou para a rota do turismo local, tornando-se uma parada quase obrigatória para quem passa pela região. A Vila de Biribiri, que, em tupi-guarani, significa "buraco fundo", atualmente não tem habitantes.
As casas, padronizadas no mesmo modelo arquitetônico e nas cores branca e azul, possuem proprietários, mas nenhum deles reside no local de forma permanente. O conjunto, tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) em 1994, tem chamado a atenção de visitantes por oferecer uma pausa entre os passeios pelas cachoeiras e trilhas do Parque Estadual do Biribiri.
O local conta com duas opções de alimentação em um espaço amplo, semelhante a uma praça, cercado por gramado. Um desses estabelecimentos é o Bar e Restaurante do Adilson, cuja cozinha é comandada por Sãozinha, nascida na região.
A vila surgiu a partir da construção de uma fábrica têxtil, fundada em 1876 pelo primeiro bispo de Diamantina, Dom João Antônio Felício dos Santos, e seus familiares.
Com o grande número de funcionários e a distância considerável entre a fábrica e o centro urbano do município, o vilarejo foi criado para abrigar os trabalhadores e seus familiares.
O marido de Sãozinha, Adilson, trabalhou e se aposentou na fábrica, que encerrou as atividades em 1973. À Itatiaia, ela conta que se lembra bem do fechamento, mas comemora que o vilarejo conseguiu se reerguer com a ajuda do turismo. "Foi muito triste para nós [que morávamos aqui], mas Biribiri se levantou e está aí", disse.
No restaurante, o carro-chefe da casa é a costelinha com ora-pro-nóbis e o frango ao molho pardo, dois dos pratos mais pedidos pelos visitantes. Sãozinha conta que, em alguns domingos, a vila chega a receber cerca de 700 pessoas, que atualmente pagam uma taxa de entrada em torno de R$ 15.
Para dar conta do movimento, cerca de seis funcionários ajudam a chefe de cozinha nos finais de semana. De segunda a sexta-feira, a equipe é formada por três pessoas. "Vem menos gente durante a semana, mas, no fim de semana, não consigo dar conta de tudo. Mesmo assim, estou sempre aqui", afirmou.
"O segredo [da comida] é o tempero da roça. Tem também o fogão a lenha, que cozinha tudo devagarzinho, e um tanto de amor no coração para ficar bom", disse.
Arte em meio às montanhas
Aos sábados, quem visita a Vila de Biribiri também pode encontrar o artista, poeta e engenheiro civil Herivelton Silva. Natural de Diamantina, ele produz pinturas e declama poemas inspirados na região.
Ao se aproximar da mesa onde Herivelton expõe livros e pinturas ao lado da esposa, Esther Costa, também escritora, o visitante pode dizer qualquer palavra e receber um poema criado e declamado na hora.
"É tudo de improviso. É só pedir uma palavra. Também apresentamos as poesias dos nossos livros e todo o nosso trabalho. Tenho uma relação muito forte com Biribiri porque meu pai foi uma das pessoas contratadas para desmontar as máquinas da fábrica. Esse é um dos motivos que me trouxeram para cá", disse à reportagem.
Além da poesia improvisada, o artista plástico percorre o país realizando pinturas ao vivo. Em 2025, enquanto o público acompanhava a Vesperata das sacadas dos casarões coloniais do Centro Histórico de Diamantina, Herivelton pintava entre as mesas, com um cavalete. "Nós temos, na região, uma energia de acolhimento muito forte. É uma energia do simples, da conexão com a arte, com a cultura e com tudo o que nos envolve aqui. Escolhi estar presente em Biribiri e Diamantina porque considero este lugar um lar", contou.
Ponto de virada
Com o fechamento da fábrica têxtil, a Vila de Biribiri começou a ser esvaziada. Segundo o secretário de Cultura e Patrimônio de Diamantina, Alberis Mafra, o espaço se transformou em um "vazio" em meio à vegetação que, apesar de estar próxima ao perímetro urbano da cidade, permanece preservada.
Mesmo após o encerramento das atividades, a fábrica manteve zeladores responsáveis pela infraestrutura do local, ainda sem a pretensão de transformá-lo em um ponto turístico. “A partir do momento em que Diamantina passou a receber mais visitantes, a Vila também começou a ser descoberta. Surgiu uma pequena oferta de pastéis de massa pronta, de carne e queijo, vendidos por um senhor que cuidava do local e também comercializava cerveja. Isso fez com que as pessoas começassem a chegar até aqui. Em determinado momento, a família proprietária percebeu que, para preservar esse patrimônio, seria necessário vender os imóveis para que os novos donos assumissem a responsabilidade pela restauração e conservação", explicou à Itatiaia.
De acordo com o secretário, a expectativa é de que ainda neste ano seja inaugurado um museu no espaço da antiga fábrica, dedicado à preservação da memória dos ex-funcionários e da história do desenvolvimento da indústria têxtil na região de Diamantina.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais, com passagem pela Rádio UFMG Educativa. Na Itatiaia, já foi produtora de programas da grade e repórter da Central de Trânsito Itatiaia Emive.















