Saltos altos, perucas ainda maiores: o estilo singular de Dolly Parton
Entenda como a cantora criou um código visual autêntico que desafiou a indústria, inspirou gerações e se manteve fiel a si mesma por seis décadas

Quando Dolly Parton assinou com a Monument Records em 1965, o presidente da gravadora tinha planos claros: achatar seus cabelos volumosos e vesti-la com roupas "simplificadas" no estilo das estrelas pop dos anos 1960. A resposta da jovem cantora foi direta e definitiva.
"Eu odiava tudo aquilo. Me sentia nua", ela recordou décadas depois em seu livro "Behind the Seams", de 2023. Aquela recusa inicial definiria não apenas sua carreira, mas criaria um dos códigos visuais mais reconhecíveis e duradouros da cultura pop americana. Parton, que faleceu na terça-feira aos 80 anos, transformou saltos altíssimos, perucas volumosas e pedrarias em declaração de princípios: autenticidade sem concessões.
A recusa que definiu uma identidade visual
Quando Parton chegou em Nashville em 1964, já tinha ideias claras sobre sua apresentação. Ela queria o visual das estrelas country do Grand Ole Opry como Jean Shepard: cabelos grandes, brilho e um Cadillac.
A pressão da gravadora para modernizá-la fracassou porque confrontava algo mais profundo que preferência estética. "Eu tenho minha própria ideia do que é beleza. Tento tirar o máximo de proveito do que tenho", escreveu ela. "Pego meus pontos negativos e tento transformá-los em positivos, e sempre me sinto melhor sendo mais extravagante."
Essa convicção se tornaria a espinha dorsal de sua persona pública. Parton não apenas resistiu às tentativas de moldá-la - ela as transformou em combustível para afirmar ainda mais radicalmente sua visão pessoal.
Os componentes icônicos de um código visual deliberado
Raramente vista sem unhas acrílicas longas, maquiagem completa e montes de glitter, Parton construiu uma estética inconfundível que misturava elementos country clássicos com sua própria versão de feminilidade exagerada e sem pedidos de desculpa.
Ela cunhou o apelido perfeito para si mesma: "Backwoods Barbie" (Barbie do Interior). O termo capturava exatamente a tensão criativa de seu estilo - raízes do Tennessee encontrando glamour over-the-top. Suas perucas loiras massivas se tornaram tão emblemáticas que ela mesma brincava que eram "risco de incêndio".
O figurino incluía não negociáveis: ombreiras, decotes profundos, cintura marcada, renda e sempre - sempre - pedras brilhantes. Franjas, chapéus de cowboy e calças boca-de-sino traziam motivos country tradicionais, mas sempre com doses generosas de brilho e cores vibrantes que Parton tornava unicamente suas.
A metodologia criativa por trás de 300 figurinos por ano
Steve Summers, colaborador de longa data como estilista de Parton, revelou à revista Vogue a escala de produção necessária para manter o guarda-roupa da cantora: cerca de 300 figurinos personalizados por ano.
"Há uma roupa em produção todos os dias", ele explicou. "Se ela está fazendo aparições pessoais, 10 figurinos em um dia não é incomum." Tudo era customizado para Parton, mesmo quando começava como peça de prateleira.
"O ótimo de trabalhar com Dolly é que ela não segue tendências de moda; seu estilo não mudou muito ao longo dos anos", disse Summers. Essa consistência não era acidente - era estratégia consciente de construção de identidade visual reconhecível instantaneamente.
Glamour sem medo do mau gosto
A versão de glamour de Parton flertava deliberadamente com o que outros poderiam considerar excessivo ou cafona. "Eu quero parecer um pouco, sabe, brega", ela disse em entrevista no ano passado. "Não quero dizer isso de forma negativa. Eu simplesmente gosto daquele visual quase artificial. Gosto do exagerado. Gosto do cabelo descolorido."
Ela custava "muito dinheiro para parecer tão barata" - uma das muitas piadas autodepreciativas que desarmavam críticas antes que elas ganhassem força. Parton tinha respostas bem-humoradas prontas: brincava sobre os cabelos serem risco de incêndio e tocava seu hit "9 to 5" usando apenas as unhas vermelhas acrílicas como instrumento.
Quando perguntada à CNN em 2023 como conseguia andar com saltos tão altos, respondeu simplesmente: "com muito cuidado". A autoconsciência aguçada só fazia sua base de fãs devotos amá-la ainda mais.
Colaborações memoráveis e momentos icônicos
Parton trabalhou com designers renomados que entendiam sua visão. Bob Mackie criou o vestido "Butterfly" com asas para seu especial de TV "Dolly & Carol in Nashville" em 1979, e vestiu ela e Oprah em looks complementares para o programa de variedades "Dolly".
Em 2000, ela compareceu a um almoço na Casa Branca para falar sobre sua instituição de caridade Imagination Library vestindo um vibrante conjunto amarelo com franjas e saltos combinando. O figurino era perfeitamente Dolly: impossível de ignorar, autêntico, fiel aos seus princípios estéticos.
Batom vermelho, brincos de argola, jaquetas com franjas, macacões rosa choque, vestidos azul gelo com ombros de fora, blazers com pérolas incrustadas - cada escolha reforçava o código visual que ela havia estabelecido décadas antes e nunca abandonou.
Influência cultural e o fenômeno dos tributos
Muitas estrelas tomaram emprestado de Parton ao longo dos anos. Sua afilhada Miley Cyrus apareceu com ela em looks sincronizados. Beyoncé canalizou sua estética para uma versão própria de "Jolene". Sabrina Carpenter fez dueto com ela, abraçando a feminilidade sem desculpas e os cachos loiros manteiga que tornaram Parton icônica.
Mas o estilo de Parton é algo que qualquer pessoa pode vestir, e seus fãs frequentemente brincam de se fantasiar como ela. A fotógrafa britânica Alice Hawkins passou uma década documentando a si mesma e outros vivendo seus próprios sonhos americanos "dollyficados", publicados no livro "Dear Dolly" em 2022.
Parton até entrou na diversão certa vez ao participar de um concurso de sósias de Dolly Parton em um bar gay de West Hollywood - e perdeu. "Eu digo que é sorte eu ser mulher, senão seria drag queen", comentou ela sobre o episódio. Visitantes de seu parque temático Dollywood no Tennessee não podem se vestir como ela (regras oficiais, já que ela mesma frequentava), mas muitos prestam pequenas homenagens ao seu estilo com um toque de brilho.
A filosofia por trás do visual: 'Eu vou ser eu'
Embora o estilo sartorial de Parton fosse replicável, o núcleo dele carregava uma mensagem que qualquer pessoa podia adotar, enfeitada ou não: "Eu vou ser eu, porque eu sei quem sou e você não sabe".
"Eu tenho algumas roupas realmente lindas, mas você nunca saberia quanto custam, porque as caras parecem as mesmas em mim que as baratas, na maior parte", disse ela em entrevista no ano passado. A distinção entre caro e barato se dissolvia diante da convicção com que ela usava cada peça.
Parton nunca suavizou seu estilo, mantendo os brilhos e saltos altíssimos até os 70 anos. A longevidade de sua coerência estética é rara na indústria do entretenimento. Por seis décadas, ela demonstrou que autenticidade não é questão de minimalismo ou sofisticação tradicional - é sobre conhecer sua própria verdade e vesti-la sem concessões.
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