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Riscos de fazer tatuagem: tinta pode ir para os gânglios e causar efeitos nocivos no organismo

Além do risco de infecções, estudos apontam que pigmentos podem migrar pela circulação linfática e que algumas tintas contêm metais e outras substâncias potencialmente tóxicas

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Imagem meramente ilustrativa • Freepik/Reprodução

As tatuagens representam identidade, memória, expressão artística e até uma forma de marcar momentos importantes da vida. Ao mesmo tempo, o procedimento chama cada vez mais atenção da área da saúde por um aspecto menos visível: o que acontece com as tintas depois que elas são introduzidas na pele.

Um artigo publicado no site argentino Infobae, assinado pelo analista clínico e bioquímico Pablo Goldschmidt, reúne estudos sobre os possíveis efeitos das tatuagens e destaca que o procedimento não é biologicamente neutro. Entre as preocupações estão infecções, reações alérgicas, formação de granulomas e queloides, presença de substâncias potencialmente tóxicas nas tintas e migração de partículas para os gânglios linfáticos.

A popularidade da prática também cresceu de forma significativa. Segundo uma pesquisa online citada pelo artigo, 31% dos adultos nos Estados Unidos afirmaram ter pelo menos uma tatuagem em 2023. O índice era de 14% em 2003, 16% em 2008, 21% em 2012, e 29% em 2015.

O risco começa pelas infecções

A tatuagem exige que agulhas penetrem na pele e depositem pigmentos na derme. Por isso, condições inadequadas de higiene podem abrir caminho para infecções.

O primeiro caso de infecção relacionada a uma tatuagem foi registrado em 1820. Desde então, estudos identificaram 37 espécies diferentes de bactérias em 192 casos de infecção associados ao procedimento.

O artigo também cita uma análise de publicações de 15 países realizada até o fim de 2024. Foram encontrados 66 casos envolvendo micobactérias não tuberculosas, associados principalmente à contaminação dos frascos de tinta. Entre as espécies identificadas estava a Mycobacterium chelonae, além de M. abscessus, M. haemophilum e M. fortuitum.

Segundo o levantamento, a contaminação poderia ocorrer durante a fabricação da tinta ou pelo uso de água contaminada durante procedimentos ou processos de diluição.

As infecções virais também aparecem entre as preocupações. O texto menciona a hepatite B e destaca a hepatite C como a infecção viral mais frequentemente associada às tatuagens realizadas sem respeito às exigências legais.

O que acontece com a tinta depois que ela entra na pele?

A pele possui células especializadas, entre elas as células de Langerhans, que reconhecem substâncias estranhas ao corpo. Depois de captar materiais externos, essas células podem migrar para regiões mais profundas da pele e entrar nos vasos linfáticos.

A circulação linfática, por sua vez, transporta líquidos e partículas até os gânglios linfáticos, estruturas que participam da resposta imunológica.

É nesse processo que surge uma das principais questões envolvendo as tatuagens: parte do pigmento aplicado na pele pode deixar o local original e chegar aos gânglios. O artigo cita estudos segundo os quais cerca de 25% do pigmento poderia ser transportado pela via linfática e, posteriormente, alcançar a circulação sanguínea.

Isso significa que a tinta não necessariamente permanece restrita ao desenho que pode ser visto na pele.

Tintas podem conter metais e outras substâncias

Historicamente, os pigmentos eram produzidos com materiais como carbono e óxido de ferro. Atualmente, muitos deles são fabricados com pigmentos artificiais e uma combinação de substâncias utilizadas para produzir diferentes cores e dar estabilidade ao produto.

O artigo cita a presença, em algumas tintas, de metais pesados, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, ftalatos e aminas aromáticas primárias. Alguns desses compostos podem apresentar propriedades potencialmente mutagênicas ou tóxicas.

Uma análise realizada na Austrália encontrou, em oito das 13 tintas examinadas, elementos como antimônio, arsênio, cádmio, cromo, cobre, chumbo, selênio, titânio, alumínio, zircônio e estanho. Em determinados casos, as concentrações ultrapassavam limites estabelecidos pelas autoridades sanitárias.

O problema não se restringe a um único país. O artigo afirma que análises realizadas nos Estados Unidos e na Europa encontraram repetidamente tintas comerciais com níveis de metais tóxicos acima dos limites regulatórios ou com ingredientes não declarados ou proibidos. Em um dos levantamentos citados, apenas 11% das tintas estavam corretamente identificadas no rótulo.

Na Suécia, mais de 90% das tintas analisadas não cumpriam os requisitos de rotulagem e apresentavam elementos como arsênio, cobalto, mercúrio, níquel, cromo e cobre em concentrações superiores aos limites estabelecidos.

O organismo também pode reagir à tatuagem

Mesmo quando os cuidados de higiene são respeitados e são utilizadas agulhas estéreis, a aplicação da tatuagem provoca uma resposta do organismo.

A penetração das agulhas causa inflamação local e mobiliza células do sistema imunológico. Depois, o tecido passa por processos de regeneração e remodelação.

Em algumas pessoas, porém, podem surgir reações mais persistentes. O artigo cita granulomas de corpo estranho, que ocorrem quando o organismo reage às partículas presentes na tinta, além de reações semelhantes às observadas na sarcoidose.

Também existe a possibilidade de formação de queloides, cicatrizes que crescem além dos limites originais da lesão provocada na pele.

Outro aspecto destacado é que algumas partículas podem sofrer fotodegradação, processo em que a exposição à luz modifica sua composição e pode produzir outras substâncias potencialmente tóxicas.

Existe relação com câncer?

O texto cita pesquisas que investigaram uma possível associação entre tatuagens e alguns tipos de câncer, incluindo linfoma, mieloma múltiplo e carcinoma basocelular. No caso do carcinoma basocelular, os resultados não foram estatisticamente significativos, embora tenha sido observada uma tendência de aumento do risco entre pessoas tatuadas.

Um estudo sueco publicado em 2024, citado pelo Infobae, analisou casos de linfoma maligno registrados entre 2007 e 2017 e comparou pessoas tatuadas e não tatuadas. Os resultados sugeriram uma associação entre a exposição às tintas e um risco maior de linfoma, especialmente nos casos de linfoma difuso de grandes células B e linfoma folicular.

O próprio conteúdo, porém, apresenta essas descobertas como associações investigadas pela ciência, e não como uma comprovação de que tatuagens causem câncer.

Há ainda outro problema. Tatuagens extensas ou muito escuras podem dificultar a observação de alterações em pintas e lesões da pele, potencialmente complicando a identificação precoce de sinais suspeitos. O acúmulo de pigmentos nos gânglios também pode interferir na interpretação de exames de imagem.

União Europeia endureceu regras

A preocupação com a composição das tintas levou a mudanças regulatórias.

O artigo destaca que a União Europeia colocou em vigor, em 2022, regras mais rígidas para limitar substâncias perigosas presentes em tintas de tatuagem e maquiagem permanente. O regulamento estabeleceu limites para elementos como arsênio, cádmio e chumbo e restringiu diversos pigmentos orgânicos.

Mais de 4 mil substâncias utilizadas em tintas para tatuagem ou maquiagem permanente foram proibidas ou tiveram seu uso limitado pelas novas regras.

Apesar disso, o artigo aponta que ainda existem países sem restrições obrigatórias semelhantes e que, em alguns locais, o controle sobre a qualidade e a composição das tintas depende do cumprimento voluntário das normas.

Prática histórica

A prática tem uma dimensão cultural, social e afetiva. Para muitas pessoas, uma tatuagem representa uma lembrança, uma perda, uma conquista ou uma forma de reconstruir a própria história.

O texto também lembra que tatuagens já foram utilizadas como instrumentos de desumanização. Um dos exemplos mais marcantes é a identificação imposta pelos nazistas aos prisioneiros de Auschwitz-Birkenau. Nesse contexto, a marca no corpo não representava liberdade ou expressão individual, mas a retirada da identidade e a transformação de pessoas em números.

Com o passar do tempo, porém, a tatuagem ganhou novos significados. Para algumas pessoas, tornou-se uma maneira de preservar a memória de um sofrimento, celebrar uma conquista ou reafirmar a própria identidade.

Hoje, as marcas corporais também fazem parte da cultura das redes sociais e da indústria da moda. O que antes poderia ser visto como uma prática de rebeldia passou a ocupar um espaço cada vez mais comum na sociedade.

É justamente nesse cenário que o artigo propõe uma reflexão: embora a decisão de tatuar o corpo seja pessoal, ela não deve ser encarada como biologicamente neutra.

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Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.

 

 

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