Quem governa a nossa mente: a crítica ou o elogio? Entenda como nossas reações influenciam a autoestima
Aprender a ouvir e questionar o que fazemos com as influências ao nosso redor pode ser uma das formas mais concretas de preservar a autonomia e criatividade em tempos de excesso de informação

“O momento em que você se perturba com um insulto ou se compraz com um elogio, você ainda é um escravo.”
A autoria dessa frase é incerta, mas a questão é antiga. Epicteto já refletia sobre quanto nossos julgamentos a respeito daquilo que recebemos do mundo participam de nossas reações. Séculos depois, Rumi escreveu no Masnavi: “A alma carnal tornou-se um Faraó por receber tantos elogios.”
A pergunta continua atual: quanto daquilo que pensamos e fazemos é realmente nosso e quanto é resposta ao olhar do outro?
Entre receber e responder
Nosso próprio organismo oferece uma boa analogia. O sistema nervoso recebe informações do corpo e do ambiente, integra essas informações e produz respostas. Na neurofisiologia, vias aferentes conduzem informações aos centros nervosos; vias eferentes levam sinais para fora deles. Em termos simples: algo chega, é integrado e uma resposta sai.
Um exemplo é a propriocepção, a capacidade de perceber a posição e o movimento do próprio corpo. Mesmo sem olhar, sabemos aproximadamente onde está nossa mão. Quando esse sistema falha, movimento, coordenação e equilíbrio podem ser prejudicados. Para nos posicionarmos no mundo, precisamos de informações sobre onde estamos.
Também recebemos dos outros aquilo que podemos chamar de “aferências relacionais”: críticas, elogios, afetos, expectativas, conhecimentos e julgamentos. Nós os interpretamos, integramos e respondemos com palavras, decisões e comportamentos que, por sua vez, chegam aos outros.
Vivemos, portanto, em circuitos permanentes de receber, integrar e responder. E entre uma influência e uma resposta existe um espaço importante: o espaço da escolha.
Crítica não é ameaça e elogio não é identidade
Um elogio pode ser um reconhecimento genuíno de mérito, mas também pode ser adulação. Uma crítica pode ser injusta e equivocada, mas também pode revelar algo que não percebemos ou não sabíamos.
Quem não admite críticas perde oportunidades de reconhecer e corrigir erros. Quem depende do elogio para confirmar o próprio valor entrega ao outro parte importante da construção de sua identidade.
Autonomia — do grego autós, si mesmo, e nómos, lei ou norma — não significa ignorar críticas ou rejeitar elogios. É permanecer aberto ao que chega sem entregar ao outro o governo de nossas decisões. É confrontar informações com realidade, conhecimento, valores e autorreflexão antes de responder.
Essa capacidade dialoga com a flexibilidade psicológica, isto é, adaptar-se às circunstâncias, rever estratégias e agir de acordo com os nossos valores. Uma meta-análise de 151 estudos associou maior inflexibilidade psicológica a menor bem-estar.
Se a propriocepção nos informa onde está o corpo, podemos pensar o autorreconhecimento como uma espécie de “propriocepção da identidade”: saber quem somos, o que sabemos, o que precisamos rever e para onde queremos ir.
Ser transformado sem ser governado
Isso não significa autossuficiência. Construímos nossa identidade nas relações e precisamos do outro para aprender, discordar, corrigir, criar e inovar.
A diferença está entre ser transformado pelo encontro e ser governado por ele. Aristóteles chamou de phronēsis a sabedoria prática: a capacidade de avaliar as circunstâncias para decidir como agir. É aí que identidade e ética se encontram.
Dessa forma:
- Diante de uma crítica, podemos perguntar: há fundamento? Preciso rever alguma coisa?
- Diante de um elogio: ele reconhece um mérito real ou apenas confirma uma imagem que desejo preservar?
O objetivo não é permanecer sempre igual, mas rever quando necessário e sustentar uma posição quando houver fundamento. Sem flexibilidade, padrões que já foram úteis podem virar rigidez, e experiências passadas podem nos prender a caminhos que as evidências recomendam rever.
O mesmo vale para o mérito. Podemos realizar algo importante sem sermos reconhecidos ou receber crédito além do que fizemos. O olhar do outro importa, mas precisa ser confrontado com realidade, critérios, evidências e autorreconhecimento.
Com a IA, discernimento continua sendo humano
Com a inteligência artificial, produzir respostas plausíveis ficou fácil e rápido, mas discernir o que merece confiança continua sendo uma tarefa humana.
A IA oferece, em segundos, informações, hipóteses e sugestões. Algumas ampliam nosso pensamento; outras podem conter erros, vieses ou associações frágeis. O desafio não é rejeitá-la nem terceirizar decisões, mas saber perguntar, verificar e escolher.
A tradição socrática já mostrava o valor da pergunta para examinar o que pensamos: Há sustentação factual? A ideia é coerente? A fonte é confiável? Existem vieses? A resposta ampliou minha compreensão ou apenas confirmou aquilo em que eu já acreditava?
A tecnologia muda as interfaces, mas não elimina a necessidade de formação ética. Quanto mais rápidas, numerosas e convincentes forem as informações, maior nossa responsabilidade sobre o que fazemos com elas.
Autonomia também é responsabilidade
Isso vale para relações, organizações, redes e comunidades. Preservar humildade, humanidade e humor como bases de uma liderança humanista pode favorecer o diálogo, cooperação, criatividade e inovação.
A IA participa cada vez mais dos nossos circuitos de informação e decisão, mas autoria e responsabilidade continuam humanas. A Recomendação sobre a Ética da IA da UNESCO destaca princípios como supervisão, responsabilidade e prestação de contas, especialmente importantes em contextos de liderança.
O que devolvemos ao mundo
Governar a própria mente não é impedir que o mundo entre. É reconhecer quem somos, avaliar o que recebemos e decidir o que devolvemos à comunidade.
Não controlamos tudo o que nos influencia, mas podemos trabalhar para não sermos governados por tudo aquilo que nos influencia.
Talvez liberdade seja justamente isso: receber sem submissão, questionar sem cinismo, mudar sem perder a identidade e agir sem terceirizar a responsabilidade.
Diante disso, permanecem duas perguntas:
- Sabemos preservar a autoria de nossas respostas?
- E estamos formando lideranças capazes de aprender, criar e evoluir sem se tornarem escravas do aplauso ou da rejeição?
Jornalista formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atuou na Rádio UFMG Educativa e em empresas de marketing, com experiência em produção de conteúdo, SEO e redação Atualmente, escreve, em colaboração com a Itatiaia, nas editorias de entretenimento e variedades.



