Quando costurar também significa cuidar: 'O importante é o que acontece enquanto isso'
Descubra como a costura-terapia cria vínculos, promove bem-estar emocional e abre oportunidades para adolescentes.; saiba como participar.

Laura Navarro Vega se apresenta como fiandeira sociocultural. Esta sevilhana que vive em Gipuzkoa desde 2014 descobriu que a costura poderia ser muito mais que uma técnica manual: transformou-se em ferramenta para expressão, vínculo e bem-estar comunitário. A partir dessa compreensão, nasceu a associação ABAKO, que hoje utiliza agulha e linha como instrumentos de cuidado e transformação social.
A costura-terapia não é terapia clínica, mas uma metodologia socioeducativa e comunitária. Enquanto as mãos costuram, aparecem conversas, calma e ajuda mútua. O importante não é apenas o que se costura, mas tudo que pode acontecer durante o processo. Este guia mostra como essa prática se desenvolveu e por que funciona para criar comunidade e bem-estar emocional.
Da técnica manual à ferramenta comunitária de cuidados
Laura chegou ao projeto com formação em arteterapia desde 2010 e anos de interesse em como processos criativos facilitam expressão e vínculo. O primeiro passo aconteceu no final de 2019: uma oficina intergeracional de costura terapêutica no centro autogerido Txerrimuño baserria, em Lezo.
Dois meses depois, a pandemia interrompeu tudo. Mas o confinamento trouxe uma descoberta inesperada: o bordado se metamorfoseou em meio eficaz para melhorar o estado emocional das pessoas e criar laços à distância.
A ação Maskarilla Solidarioak Oarsoaldea marcou o ponto de inflexão. A confecção de mil máscaras distribuídas gratuitamente em 2020 comprovou que, enquanto as mãos estão ocupadas, surgem calma, conversas e ajuda mútua. Aquela sensação de utilidade e pertencimento consolidou a metodologia.
Fiar conexões: o trabalho das fiandeiras sociais
Laura estabelece uma diferença importante entre a tecelagem e a fiação. A associação prefere o termo fiandeiras sociais para definir seu trabalho: conectar pessoas, recursos e capacidades para que apareçam oportunidades antes invisíveis.
Essa conexão acontece ao longo de toda Gipuzkoa. ABAKO trabalha em Aretxabaleta, Irun, Errenteria, Oñati e Donostia, colaborando diretamente com centros educativos, prefeituras, agentes culturais e entidades sociais.
A rede comunitária formada durante a pandemia se fortaleceu. Hoje a associação conta com aproximadamente 80 pessoas associadas, uma vintena de voluntários e duas trabalhadoras fixas em tempo parcial que desenvolvem programas educativos e organizam exposições das arpilheras criadas ao longo do ano escolar.
O programa Teselak e o trabalho com adolescentes
Durante o curso 2026-2027, ABAKO implementa oficinas de costura-terapia em sete centros educativos distribuídos em 20 grupos distintos. Mais de 300 estudantes adolescentes participam do programa Teselak.
O encontro de boas-vindas 'Quiére-te bonito' reuniu todo o alunado no teatro Antzoki Zaharra de Donostia no dia 1 de outubro. O evento marcou o início simbólico das atividades.
O perfil dos participantes é completamente heterogêneo. Além de migrantes de outras regiões da península e de outros países, há jovens de famílias vascas com alto poder aquisitivo. As oficinas atendem especialmente adolescentes que não costumam terminar o instituto e que, sem título de ESO, acabam em programas como PFI ou PEC.
Por que a costura funciona como ferramenta de bem-estar
A metodologia não exige habilidade manual prévia. Segundo Laura, qualquer pessoa pode participar: costurar, cortar, colar, desenhar, escolher materiais, conversar ou simplesmente estar presente.
A atividade manual permite relacionamentos de outra maneira. Compartilhar uma tela, uma agulha ou uma tarefa faz a conversa aparecer quando precisa aparecer. Não se trata de terapia clínica, mas de ferramenta socioeducativa, criativa e comunitária.
Há espaço para todo mundo, mesmo quem não sabe enfiar linha na agulha. O processo acolhe pessoas impacientes, com limitada destreza manual ou sem nenhuma experiência anterior com costura.
A importância da linguagem ao trabalhar com adolescentes
Laura demonstra extremo cuidado com a linguagem empregada ao se referir aos jovens participantes. Recusa-se a rotular adolescentes pelo que não conquistaram até agora.
A presidenta da associação defende julgar esses jovens por suas capacidades, seus direitos e as possibilidades que ainda têm pela frente. Fugir de etiquetas significa reconhecer potencial em vez de limitar pela ausência de título educativo formal.
Essa postura reflete o princípio central da ABAKO: enquanto se costura, o que importa é criar oportunidades que antes não estavam visíveis. A costura vira pretexto para construir dignidade, vínculos e futuro.
Como colaborar e fazer parte da rede
Existem várias formas de colaborar com a associação. Tornar-se sócio mediante contribuição econômica é uma delas. Outra opção é somar-se à rede de voluntariado.
Mas colaborar não significa exclusivamente financiar atividades. Também é possível aportar conhecimentos, materiais, espaços, contatos ou alianças estratégicas.
Segundo Laura, colaborar significa formar parte de uma rede que contribui para gerar cuidados, direitos e oportunidades. Toda informação sobre formas de participação está disponível no site abako.eus.
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