Presenteísmo no trabalho: o que é e como identificar
Descubra como reconhecer quando colaboradores trabalham doentes, quanto isso impacta o orçamento e quais medidas eficazes reduzem esse fenômeno

A planilha de ponto registrava presença total. Ninguém faltou, as reuniões aconteceram conforme programado, os e-mails receberam resposta. Mesmo assim, o projeto atrasou mais uma vez, o volume de retrabalho cresceu e a equipe parecia operar em modo automático, sem energia real.
Quando a presença física está garantida mas a capacidade de entrega não acompanha, o nome desse descompasso é presenteísmo: o colaborador cumpre a jornada, porém não está em condições de render o que renderia se estivesse bem de saúde. Para o RH, esse problema se torna especialmente difícil de gerir porque não gera alertas automáticos, não aparece em relatórios de frequência e só se revela tardiamente, quando metas já foram perdidas e erros custaram caro.
O que define o presenteísmo no ambiente de trabalho
Presenteísmo é o fenômeno de comparecer ao trabalho mesmo se sentindo doente, física ou psicologicamente, e por isso render menos do que seria possível. Essa definição acadêmica, estabelecida desde os primeiros estudos e confirmada pela revisão de Shimabuku, Mendonça e Fidelis publicada nos Cadernos de Psicologia Social do Trabalho da USP, combina presença física no local com algum problema de saúde que limita o desempenho.
Na gestão prática, essa definição importa porque muda o diagnóstico do problema. Um profissional desmotivado e um colaborador presenteísta se parecem à distância, já que ambos entregam menos. De perto, são situações diferentes que pedem ações distintas.
A desmotivação exige conversa sobre propósito, carreira e reconhecimento. O presenteísmo exige atenção à saúde e às condições de trabalho que levaram alguém a trabalhar sem estar bem. Tratar o segundo como se fosse o primeiro costuma piorar o quadro, porque cobra engajamento de quem precisa de recuperação.
Os tipos mais comuns de presenteísmo nas empresas
O presenteísmo tem uma única definição, mas aparece de formas diferentes no cotidiano organizacional. Reconhecer qual tipo predomina na empresa ajuda a escolher a ação adequada.
Presenteísmo por doença física acontece quando o profissional trabalha com gripe, dor nas costas, enxaqueca ou uma condição crônica mal controlada. A capacidade de concentração cai, o risco de erro sobe e, em casos infecciosos, o problema se espalha para o resto da equipe.
Presenteísmo por saúde mental envolve ansiedade, sintomas depressivos e estresse crônico que reduzem foco, memória e tomada de decisão. É um dos tipos mais difíceis de enxergar, porque o colaborador parece bem e muitas vezes esconde o que sente por medo de julgamento.
Presenteísmo por medo ou cultura surge quando o colaborador reconhece que deveria parar, mas não falta porque teme perder o emprego, sobrecarregar colegas ou ser visto como pouco comprometido. Aqui o problema está menos no profissional e mais no ambiente organizacional.
Presenteísmo digital emerge no trabalho remoto e híbrido, quando a fronteira entre estar conectado e estar disponível se apaga. O colaborador responde mensagens doente, de madrugada ou nas férias, e a empresa perde a referência do que é jornada e do que é recuperação.
Presenteísmo e absenteísmo: entendendo as diferenças
Presenteísmo e absenteísmo estão relacionados, mas a diferença entre eles muda a forma de medir e de agir. Absenteísmo é a ausência: o colaborador falta, chega atrasado ou sai antes, por motivo justificado ou não. Ele aparece no controle de ponto, tem fórmula de cálculo conhecida e entra nos indicadores mensais.
Presenteísmo é a presença sem capacidade plena: o profissional cumpre a jornada, mas entrega abaixo do que entregaria se estivesse bem de saúde. Ele não aparece em nenhum relatório automático e só se revela em sinais indiretos, como queda de qualidade, retrabalho e lentidão em tarefas simples.
Essa diferença muda o que o RH precisa acompanhar. Quem volta de uma licença sem estar recuperado, por exemplo, pode render abaixo do esperado por algum tempo, e isso não aparece no relatório de faltas. Uma empresa que só acompanha ausências tende a enxergar o problema tarde demais.
Há também uma diferença de custo que surpreende. No estudo de Evans-Lacko e Knapp sobre depressão no trabalho, os custos de presenteísmo tendem a ser de 5 a 10 vezes maiores que os de absenteísmo no conjunto dos oito países analisados. O indicador que a empresa mede com cuidado é o menor dos dois, enquanto o que ela não mede responde pela maior parte da perda.
Por que o presenteísmo acontece: as causas principais
O presenteísmo raramente tem uma causa única. Em geral, ele nasce da combinação entre condições de saúde, características individuais e contexto organizacional. É sobre esse terceiro fator que a empresa tem mais influência.
Demandas altas com pouco controle sobre o trabalho
A revisão de Shimabuku, Mendonça e Fidelis identificou três fatores importantes ao analisar o Modelo Demanda-Controle: demandas de trabalho, autonomia e apoio social. Segundo o estudo, demandas elevadas estão associadas a uma maior ocorrência de presenteísmo.
Em termos práticos, uma equipe com muito volume, prazos curtos e pouca autonomia para decidir como e quando fazer o trabalho é terreno fértil para o fenômeno. O colaborador não falta porque sabe que a demanda vai continuar lá, maior ainda, quando voltar.
Ele vai trabalhar doente porque a fila não para. Quando o apoio social da liderança e dos colegas também é fraco, falta até quem diga para ir para casa, que a equipe cobre. Carga de trabalho e autonomia são dois fatores que a revisão da USP associa ao presenteísmo.
Saúde mental e estresse crônico
O estresse prolongado é um dos fatores que podem contribuir para o presenteísmo. Segundo o Relatório Mundial de Saúde Mental da OMS citado em comunicado da OMS e da OIT, 15% dos adultos em idade de trabalhar no mundo viviam com algum transtorno mental em 2019.
Anualmente, a depressão e a ansiedade são responsáveis por cerca de 12 bilhões de dias de trabalho perdidos, com um custo estimado de quase um trilhão de dólares para a economia global. Esses dias perdidos refletem o impacto dos problemas de saúde mental no trabalho.
Profissionais que convivem com sofrimento psíquico podem continuar trabalhando, mesmo com sintomas como dificuldade de concentração, cansaço persistente e irritabilidade. Essas condições comprometem o desempenho antes mesmo de provocar uma ausência, tornando o presenteísmo mais difícil de identificar.
O estresse prolongado pode contribuir para o desenvolvimento de burnout, que a OMS descreve como um fenômeno ocupacional ligado ao contexto de trabalho. Por isso, as condições de trabalho devem estar no centro das ações do RH para combater o presenteísmo.
Medo de faltar e cultura da presença
Em muitas empresas, a presença ainda vale mais que a entrega. Quem chega cedo e sai tarde é visto como dedicado, quem tira um dia para se recuperar é visto com desconfiança. Nesse ambiente, o colaborador aprende que faltar tem custo de reputação.
Essa cultura costuma ser reforçada sem intenção. Um gestor que responde mensagens às 23h, que elogia quem não falta nunca ou que trata a licença médica como transtorno para o time está dizendo, na prática, que a saúde vem depois do resultado. Com o tempo, a equipe internaliza a mensagem e o presenteísmo vira norma.
O problema tem causa organizacional, e por isso a solução também precisa vir da gestão. Ajustar a mensagem da liderança, garantir que afastar-se para cuidar da saúde não gere punição velada e tornar explícito que a empresa prefere um dia de ausência a uma semana de rendimento ruim são movimentos que custam pouco e mudam o comportamento de muitos colaboradores.
Doenças físicas e condições crônicas
Dores musculoesqueléticas, enxaqueca, alergias, problemas de sono e condições crônicas como diabetes e hipertensão mal controladas reduzem a capacidade de trabalho de forma concreta. O colaborador não se considera doente o suficiente para faltar, mas está presente com menos energia, mais lento e mais propenso a erros.
Para a empresa, esse tipo de presenteísmo costuma ser mais simples de prevenir, pois as medidas são conhecidas: acesso a cuidados preventivos, ergonomia, pausas e incentivo a hábitos saudáveis, como atividade física regular e boa qualidade do sono. A dificuldade está em garantir que essas medidas façam parte da rotina, em vez de ficarem disponíveis apenas no papel.
Trabalho remoto e a jornada que não termina
Quando demandas altas se somam a pouco controle sobre o trabalho, combinação que o Modelo Demanda-Controle associa ao presenteísmo, o trabalho remoto e híbrido pode dar ao problema uma versão nova. Sem o deslocamento e sem a saída física do escritório, o colaborador doente tende a só dar uma olhada no sistema, participar de uma reunião da cama e seguir respondendo mensagens.
A ausência que seria registrada no presencial se transforma em presença parcial no remoto, invisível para todo mundo. O primeiro passo é definir regras claras de desconexão e contar com líderes que tratem o atestado no remoto com a mesma seriedade que teriam no escritório. Quem está doente em casa continua doente, mesmo com a câmera ligada.
Quanto o presenteísmo custa para o negócio
Entender o impacto financeiro do presenteísmo ajuda a mostrar por que o tema deve ser uma prioridade de gestão, além de uma preocupação com o bem-estar. Para dimensionar esse custo, é possível considerar os resultados do estudo de Evans-Lacko e Knapp e fazer uma estimativa com base nos dados da própria empresa.
O que a pesquisa mediu sobre custos do presenteísmo
Publicado na revista Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, o estudo de Evans-Lacko e Knapp estimou os custos do absenteísmo e do presenteísmo relacionados à depressão em oito países. A análise utilizou dados da pesquisa Global IDEA, que reuniu cerca de mil profissionais empregados por país.
No Brasil, o custo médio anual do presenteísmo por pessoa com depressão foi de 5.788 dólares, um dos mais altos entre os países analisados, superando o valor registrado nos Estados Unidos. Os valores não estão em reais correntes e o estudo mede o custo ligado à depressão, o que torna o número uma estimativa de piso para uma única condição.
Mesmo com essas ressalvas, a conclusão vale: no conjunto dos oito países, a parte invisível do problema, o presenteísmo, tende a custar de 5 a 10 vezes mais que a parte visível. Do lado de quem gere orçamento, a percepção já acompanha a evidência.
Na pesquisa ROI do Bem-Estar 2026 do Wellhub, com 1.515 líderes de RH em 10 países, 72% afirmam, na média global, que questões relacionadas à saúde mental já elevam os custos das organizações. No Brasil, 89% afirmam o mesmo.
Como estimar o custo do presenteísmo na sua empresa
Não existe uma fórmula oficial para calcular o custo do presenteísmo, mas é possível fazer uma estimativa com dados que o RH já acompanha. O resultado ajuda a dimensionar o impacto financeiro e embasar conversas com a diretoria.
Considere uma empresa com 200 colaboradores, custo médio diário de 400 reais por pessoa (incluindo salário e encargos), 10 dias de presenteísmo por ano e perda média de 30% da capacidade de trabalho nesses períodos. Nesse cenário hipotético, o cálculo seria: 200 vezes 400 reais vezes 10 dias vezes 0,30, resultando em 240 mil reais por ano.
Esse valor representa uma perda estimada de produtividade que não aparece diretamente no orçamento. Para tornar o cálculo mais preciso, o RH pode utilizar dados das pesquisas de clima e dos indicadores de retrabalho. Vale comparar o resultado com o cálculo do absenteísmo para ter uma visão mais completa.
O custo invisível que não entra na conta
A estimativa acima captura apenas a perda direta de capacidade. O custo real inclui ainda o retrabalho de quem corrige os erros, a sobrecarga de colegas que assumem o que não foi entregue, o desgaste do clima quando o cansaço vira padrão e, no fim da cadeia, o afastamento e a rotatividade.
As consequências do estresse no trabalho seguem exatamente essa trajetória: começam como queda de rendimento e terminam como custo de substituição. O presenteísmo é o primeiro degrau dessa escada, e costuma ser o mais barato de interromper.
Como identificar os sinais de presenteísmo na equipe
Como o presenteísmo não gera registro automático, identificá-lo depende de observação e de alguns indicadores indiretos. Os sinais aparecem em três níveis: no colaborador, na equipe e nos números.
Sinais no comportamento individual
Os primeiros alertas aparecem no comportamento individual e costumam ser sutis, por isso a liderança direta é quem melhor os enxerga. Queda de ritmo acontece quando tarefas simples demoram mais que o normal, e o colaborador parece precisar de mais esforço para o mesmo resultado.
Erros repetidos se manifestam em esquecimentos, retrabalho e falhas de atenção em atividades que antes eram automáticas. Afastamento social aparece em menos participação em reuniões, menos interação com colegas, câmera sempre desligada no remoto.
Queixas físicas recorrentes incluem dor de cabeça, dores no corpo, cansaço constante e problemas de sono mencionados de passagem. Presença fora de hora se revela em mensagens de madrugada, trabalho nas férias e resposta imediata mesmo em dia de atestado.
Nenhum desses sinais, isolado, confirma presenteísmo. Em conjunto e por semanas seguidas, eles merecem uma conversa cuidadosa, com foco em como o colaborador está, antes de qualquer cobrança sobre a entrega.
Sinais na dinâmica da equipe
Quando o presenteísmo se espalha, ele muda a dinâmica do grupo. Os colegas de quem rende menos passam a absorver trabalho extra e, com o tempo, também entram no mesmo ciclo.
Retrabalho em alta aparece em entregas que voltam para correção com mais frequência que o habitual. Prazos escorregando se manifestam em atrasos sem causa aparente, mesmo com a equipe completa e sem faltas. Clima mais tenso surge em conflitos pequenos, irritação e menos colaboração espontânea.
Silêncio nas reuniões revela menos perguntas, menos ideias e menos discordância saudável. Heroísmo normalizado acontece em elogios públicos a quem veio mesmo doente, um sinal de que a cultura está recompensando o comportamento errado.
Sinais nos indicadores operacionais
Mesmo sem um indicador próprio, o presenteísmo deixa rastros nos números que a empresa já acompanha. Vale observar, por equipe e ao longo do tempo, a relação entre horas trabalhadas e entregas concluídas, a taxa de retrabalho e o volume de reclamações de clientes.
Também merecem atenção o uso do plano de saúde e a evolução das respostas da pesquisa de clima sobre carga de trabalho e apoio da liderança. Uma equipe que trabalha mais horas e entrega menos, com clima em queda, tem um padrão clássico de presenteísmo.
Esse cruzamento de dados costuma ser suficiente para justificar uma investigação mais detalhada sobre as condições de trabalho e a saúde da equipe.
Como medir o presenteísmo de forma estruturada
Medir o presenteísmo é possível e mais simples do que parece. A chave está em combinar um instrumento validado, que captura a percepção do colaborador, com os indicadores operacionais que a empresa já tem.
A escala Stanford Presenteeism Scale (SPS-6)
A Stanford Presenteeism Scale na versão de seis itens é um dos instrumentos mais utilizados para medir o presenteísmo. Ela foi desenvolvida por pesquisadores da Universidade Stanford e já tem validação em diversos países, incluindo o Brasil.
A escala pergunta ao colaborador, com seis afirmações, o quanto ele conseguiu se concentrar no trabalho apesar de problemas de saúde, se completou tarefas difíceis e se sentiu capaz de lidar com o estresse no trabalho. As respostas vão de discordo totalmente a concordo totalmente.
O resultado gera uma pontuação que indica o nível de perda de produtividade relacionado à saúde. A escala não substitui uma avaliação de desempenho, mas oferece um termômetro objetivo da relação entre saúde e capacidade de trabalho. Ela pode ser aplicada em pesquisas de clima, de pulso ou em avaliações periódicas de bem-estar.
Combinando a escala com indicadores operacionais
A escala de Stanford funciona melhor quando combinada com dados que o RH já acompanha. Cruzar a pontuação de presenteísmo com a taxa de retrabalho por equipe, o tempo médio de conclusão de tarefas e a evolução do clima organizacional gera um diagnóstico mais completo.
Também vale observar o uso do plano de saúde por tipo de atendimento (pronto-socorro, consultas de rotina, saúde mental) e a relação entre horas extras e entregas concluídas. Quando a escala aponta presenteísmo alto e os indicadores mostram queda de produtividade, o problema está confirmado e merece ação.
Pesquisas de clima e perguntas sobre saúde
Pesquisas de clima podem incluir perguntas diretas sobre saúde e carga de trabalho. Questões como frequência com que o colaborador trabalha doente, se sente que tem tempo para se recuperar quando adoece e se percebe apoio da liderança para tirar dias de repouso oferecem informações valiosas.
Essas perguntas, quando feitas com garantia de confidencialidade, revelam padrões que a observação sozinha não captura. A combinação de percepção do colaborador, escala validada e indicadores operacionais forma o tripé de medição do presenteísmo.
A Rádio de Minas. Tudo sobre o futebol mineiro, política, economia e informações de todo o Estado. A Itatiaia dá notícia de tudo.



