Itatiaia

Por que jovens estão sendo resgatados em montanhas com mais frequência

Jovens de 18 a 24 anos respondem por 18% dos resgates em montanhas. Descubra por que aplicativos de navegação sozinhos são insuficientes e como se preparar com segurança para trilhas.

Por
Por que jovens estão sendo resgatados em montanhas com mais frequência
Canva/ Reprodução

Uma tarde chuvosa de julho no Lake District, na Inglaterra, trouxe um cenário cada vez mais comum para as equipes de resgate: um adolescente de 16 anos, encharcado, com apenas um sapato nos pés, perdido em meio aos morros. Sua bateria acabara após chamar ajuda.

No mesmo mês, do outro lado do Atlântico, três jovens canadenses se viram desorientados e desidratados na região selvagem da Colúmbia Britânica. Sua ferramenta de navegação? Algumas páginas impressas do Google Maps para uma trilha desafiadora de 18 quilômetros. Os casos ilustram uma tendência preocupante: jovens entre 18 e 24 anos agora lideram as estatísticas de resgates em montanhas tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos.

O novo perfil dos resgates em montanhas

Dados divulgados em maio de 2025 pela Mountain Rescue England and Wales revelam que jovens de 18 a 24 anos respondem por 18% dos incidentes de resgate. O grupo ultrapassou todas as outras faixas etárias, com o dobro de ocorrências em comparação com adolescentes de 13 a 17 anos e adultos de 25 a 29 anos, cada um com 9%.

Em 2025, quase 400 chamados envolveram esse público jovem — mais que o dobro dos 166 registrados em 2019, quando ficavam atrás de pessoas entre 50 e 54 anos.

Na América do Norte, o padrão se repete. Segundo dados da Mountain Rescue Association, que monitora mais de 90 unidades de resgate, os jovens de 18 a 24 anos também lideram com 18% dos incidentes. Adolescentes aparecem em segundo lugar, com 11% dos casos.

Aplicativos de navegação não substituem experiência prática

Mike Trehearne, guia de montanha certificado há mais de duas décadas no Canadá, identifica uma armadilha perigosa: a dependência excessiva de aplicativos de navegação. Como diretor da Cloud Nine Guides, que oferece expedições nas Montanhas Rochosas canadenses, dos Alpes ao Círculo Ártico, ele observa de perto essa mudança.

"Se isso é tudo o que você tem, é praticamente certo que eventualmente enfrentará alguma adversidade", explica Trehearne. Embora apps como AllTrails tenham evoluído e permitam compartilhar rotas nas redes sociais, confiar apenas neles eleva drasticamente os riscos.

A tecnologia cria uma falsa sensação de segurança. Atividades que pareceriam "incrivelmente anormais" há 15 anos, como escaladas íngremes de esqui alpino nas Rochosas, agora aparecem regularmente como conteúdo online, normalizando rotas que até guias experientes consideram complexas.

Redes sociais transformam trilhas em pontos turísticos superestimados

As plataformas digitais amplificaram o fenômeno dos "honeypots" — locais que atraem multidões de visitantes, muitos sem preparo adequado. Trilhas desafiadoras como a aresta Crib Goch, no Parque Nacional de Snowdonia, no País de Gales, exigem escaladas técnicas para serem alcançadas.

Hashtags como "hiking" e "hiking adventures" acumulam até 110 milhões e 11,8 milhões de usos no Instagram e TikTok, respectivamente. A popularidade online transformou caminhadas em material de conteúdo viral.

Pepper Steps, criadora de conteúdo sobre natureza com 550 mil seguidores no Instagram, representa essa nova geração. A californiana de 27 anos transformou sua paixão por trilhas em carreira em tempo integral apenas cinco meses após começar a postar em outubro de 2024. Seu público, predominantemente entre 18 e 25 anos, acompanha desde tutoriais de como arrumar a mochila perfeita até dicas de sobrevivência em encontros com ursos.

O problema da atenção fragmentada nas trilhas

Trehearne identifica outro fator preocupante entre seus alunos: a falta de foco tornou-se "endêmica". "É inacreditável", relata. "Eles não conseguem ficar conectados com o ambiente por mais de 10 a 12 minutos sem checar o telefone."

Quando começou sua carreira em 2003, a motivação central era "a calma, a quietude, a conexão com espaços naturais, as pessoas que estavam ali". Agora, um número notável de pessoas entra nesses espaços para "organizar feeds de redes sociais". A motivação passou a ser validação externa de que o que fazem é interessante.

Essa mudança de mentalidade contribui para decisões imprudentes. Um garoto de 15 anos no Colorado despencou 60 metros por um campo de neve ao tentar recuperar uma mochila que havia caído. Sua ferramenta de navegação para três dias sozinho nas montanhas Sangre de Cristo? Apenas o Google Maps.

Como usar tecnologia de forma responsável em trilhas

Pepper Steps adota uma abordagem diferente de outros criadores. Embora dependa de apps — o AllTrails já a salvou mais vezes do que a prejudicou, segundo ela —, nunca compartilha geolocalização exata ou a trilha específica que completou. Revela apenas a área aproximada, protegendo os locais de invasão massiva de visitantes.

"Tento cobrir tudo, até como amarrar os sapatos corretamente", explica Pepper sobre seu conteúdo educacional. Sua filosofia mescla "educação sobre natureza com educação ao ar livre — aprender sobre como estar lá fora e o que existe lá fora, e também se divertir o máximo possível".

Algumas organizações de resgate começaram a colaborar com influenciadores. No último ano, tanto a Mountain Rescue England and Wales quanto o Parks Canada trabalharam com criadores de conteúdo para divulgar dicas de planejamento responsável ao ar livre em suas plataformas.

A jornada importa mais que o destino nas redes

Apesar de ganhar a vida com conteúdo digital, Pepper reconhece que a experiência genuína deve vir antes da documentação. "Eu realmente me apaixonei pelo processo de estar ao ar livre e pela totalidade da experiência", afirma.

"Alcançar cumes incríveis ou explorar lugares fantásticos costuma ser inspirador, mas a jornada é igualmente importante porque é isso que você lembra."

Essa perspectiva contrasta com a pressa de muitos jovens em capturar o momento perfeito para as redes. O desafio está em equilibrar o interesse crescente pelo ar livre com a construção de experiência prática e consciência de riscos — evitando que a busca por conteúdo viral se sobreponha à segurança.

Por

A Rádio de Minas. Tudo sobre o futebol mineiro, política, economia e informações de todo o Estado. A Itatiaia dá notícia de tudo.

 

 

Belo Horizonte