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Por que algumas pessoas aprendem outro idioma mais fácil? A neurociência explica o motivo

Um estudo com 207 estudantes japoneses que aprendiam inglês revelou que a capacidade de perceber diferenças sutis entre sons pode influenciar a facilidade para aprender a pronúncia de outro idioma, mesmo após considerar a experiência prévia

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aprendendo um novo idioma
A pesquisa analisou 207 estudantes japoneses que estavam aprendendo inglês • Magnific

Aprender uma nova língua pode ser uma tarefa simples para algumas pessoas e um grande desafio para outras. Enquanto determinados estudantes conseguem perceber rapidamente as diferenças de pronúncia, outros precisam repetir uma palavra diversas vezes até identificar como ela deve ser pronunciada. A neurociência começa a explicar por que isso acontece, e uma das respostas pode estar na capacidade do cérebro de reconhecer sons.

Um estudo publicado na revista científica Journal of Experimental Psychology: General, realizado por pesquisadores da University College London (UCL), no Reino Unido, e da Universidade de Tohoku, no Japão, identificou uma relação entre a precisão auditiva e a capacidade de aprender a pronúncia de um idioma estrangeiro.

De acordo com a pesquisa, pessoas que conseguem identificar pequenas diferenças entre sons têm maior facilidade para aprender a pronunciar vogais que não existem em sua língua materna. O trabalho foi divulgado pelo portal Infobae em 16 de outubro de 2026.

O que faz algumas pessoas aprenderem idiomas mais rapidamente?

A pesquisa analisou 207 estudantes japoneses que estavam aprendendo inglês. Os cientistas investigaram como a capacidade de distinguir sons influenciava a aprendizagem de duas vogais inglesas que não possuem equivalentes diretos no sistema sonoro do japonês.

Os sons analisados aparecem nas palavras inglesas cat e cup. Para quem tem o japonês como primeira língua, perceber e reproduzir essas diferenças pode ser particularmente difícil.

Na primeira etapa do estudo, 140 participantes realizaram testes para avaliar a capacidade de identificar pequenas variações acústicas em sons que não eram palavras. Depois, os pesquisadores compararam os resultados com o desempenho dos estudantes na identificação das vogais inglesas.

A análise revelou que a precisão auditiva estava significativamente relacionada à capacidade de reconhecer os sons do novo idioma. Essa relação permaneceu mesmo quando os cientistas consideraram fatores como os anos de estudo formal de inglês, as experiências de intercâmbio no exterior e o treinamento específico de pronúncia.

Isso sugere que a facilidade para aprender uma língua não depende apenas da quantidade de horas dedicadas aos estudos. A maneira como cada pessoa percebe e processa os sons também pode fazer diferença.

O que acontece no cérebro durante a aprendizagem?

Para compreender melhor esse mecanismo, os pesquisadores realizaram uma segunda etapa com 67 estudantes, que passaram por exames de ressonância magnética funcional enquanto executavam tarefas de percepção sonora.

Os participantes precisavam distinguir tanto as vogais do inglês quanto sons sem significado linguístico que apresentavam diferenças acústicas semelhantes.

O objetivo era identificar como o cérebro reagia quando os estudantes ouviam sons estrangeiros e quando processavam estímulos sonoros que não faziam parte de uma língua.

Os resultados mostraram diferenças importantes entre os participantes com maior e menor precisão auditiva.

Aqueles que tinham mais dificuldade para distinguir os sons apresentaram maior ativação em regiões do hemisfério esquerdo relacionadas ao planejamento e à simulação dos movimentos necessários para produzir a fala. Entre essas áreas estavam o córtex pré-motor, o giro pós-central, o córtex insular e o opérculo rolândico.

Essa ativação aumentada não apareceu da mesma maneira quando os participantes processavam os sons não verbais.

Para os pesquisadores, o resultado sugere que pessoas com menor precisão auditiva podem depender mais dos mecanismos associados à articulação da própria língua ao tentar compreender os sons de um idioma estrangeiro.

Em outras palavras, o cérebro pode recorrer aos padrões de pronúncia que já conhece para interpretar sons novos, mesmo quando esses padrões não são suficientes para identificar as diferenças corretamente.

A língua materna pode dificultar a pronúncia de outro idioma

Quem aprende uma língua estrangeira na idade adulta costuma interpretar os sons desconhecidos com base nas referências adquiridas durante a aprendizagem da primeira língua.

Esse processo pode ajudar na compreensão, mas também cria obstáculos quando os dois idiomas apresentam diferenças importantes de pronúncia.

Uma pessoa cuja língua materna não possui determinado som, por exemplo, pode ter dificuldade para perceber a diferença entre duas vogais estrangeiras. Em vez de reconhecer cada uma delas como um som distinto, o cérebro pode aproximá-las de uma categoria sonora já conhecida.

Segundo Kazuya Saito-van Poeteren, pesquisador principal do Instituto de Educação da UCL, os estudantes com maior precisão auditiva conseguem analisar os sons novos de maneira mais independente das referências da língua materna.

Em declarações reproduzidas pelo portal Phys.org, o pesquisador explicou: “O cérebro dessas pessoas analisa a própria informação acústica, e essa pode ser a chave para entender por que algumas aprendem novos idiomas com mais facilidade do que outras”.

A interpretação ajuda a explicar por que dois estudantes com experiências semelhantes podem apresentar resultados diferentes na aprendizagem da pronúncia.

Estudar mais não é o único fator que influencia a aprendizagem

O estudo também avaliou a importância da experiência anterior com o idioma. Os resultados indicaram que a precisão auditiva tinha um peso próprio na explicação das diferenças de desempenho entre os participantes.

O modelo estatístico utilizado pelos pesquisadores explicou entre 30% e 40% da variação no domínio fonético dos estudantes. A precisão auditiva respondeu por uma parcela importante dessa variação explicada, comparável à contribuição de fatores como a imersão em países de língua inglesa e o treinamento explícito de pronúncia.

Isso não significa que estudar, praticar ou passar um período no exterior seja menos importante. Pelo contrário, os resultados indicam que a capacidade auditiva pode influenciar o aproveitamento dessas oportunidades de aprendizagem.

Também é importante destacar que o estudo não demonstrou que a precisão auditiva seja o único fator responsável pela facilidade para aprender idiomas. Atenção, memória de trabalho, experiência linguística e outras características individuais podem participar desse processo.

Além disso, como os pesquisadores observaram os participantes em um determinado período, os resultados não permitem estabelecer uma relação definitiva de causa e efeito.

É possível treinar o ouvido para aprender outro idioma?

Com base nos resultados, os pesquisadores sugerem que o ensino de línguas estrangeiras pode se beneficiar de exercícios específicos para desenvolver a percepção auditiva, além das atividades tradicionais de vocabulário, gramática e conversação.

A proposta é ajudar os estudantes a reconhecer diferenças sutis entre sons, tons e outras características acústicas que influenciam a pronúncia.

Na prática, atividades como ouvir palavras semelhantes, comparar gravações e tentar identificar diferenças entre sons podem ser incorporadas à rotina de estudos. Esses exercícios são compatíveis com a proposta apresentada pelos pesquisadores, embora o estudo não tenha testado diretamente se esse tipo de treinamento melhora os resultados de aprendizagem.

Saito-van Poeteren defendeu que o ensino de idiomas considere as características individuais dos alunos e desenvolva a capacidade auditiva de maneira mais direcionada.

Os cientistas, porém, ressaltam que novas pesquisas são necessárias para confirmar os resultados em pessoas com outras línguas maternas e em diferentes combinações de idiomas.

A pesquisa também não permite concluir que algumas pessoas sejam incapazes de aprender uma língua estrangeira. O que ela mostra é que diferenças na percepção dos sons podem influenciar a velocidade e a precisão com que determinados aspectos da pronúncia são aprendidos.

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Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.

 

 

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