Por que a dor crônica afeta mais as mulheres? Ciência aponta quatro fatores
Uma revisão publicada na revista Science mostra que a maior prevalência de dor crônica entre mulheres está ligada à combinação de hormônios, sistema imunológico, cérebro e microbiota intestinal, e não apenas à percepção da dor

A dor crônica afeta mulheres com maior frequência em diversas condições, como endometriose, fibromialgia, síndrome do intestino irritável e enxaqueca. Uma revisão científica publicada na revista Science analisou os mecanismos biológicos que podem ajudar a explicar essa diferença entre mulheres e homens.
O estudo foi realizado por pesquisadoras da Universidade da Califórnia em San Francisco e aponta que o fenômeno não pode ser explicado por uma suposta menor tolerância feminina à dor ou por fatores psicológicos. Segundo a revisão, existem diferenças físicas que influenciam a maneira como o organismo detecta, transmite e processa os sinais dolorosos.
As autoras destacam que "as mulheres estão esperando respostas concretas que ajudem a eliminar o enfoque habitual de que tudo está na cabeça delas".
Hormônios
Uma das explicações está nas mudanças hormonais que começam na puberdade. Os hormônios sexuais, principalmente estrogênio e progesterona, não atuam apenas no ciclo menstrual. Eles também interferem no sistema nervoso, no intestino e no funcionamento das defesas do organismo.
O estrogênio, por exemplo, pode reduzir o limiar da dor, fazendo com que determinados estímulos físicos sejam percebidos de maneira mais intensa. O hormônio também pode influenciar a medula espinhal e o cérebro, estruturas responsáveis por receber e interpretar os sinais enviados pelo corpo.
A revisão também aborda a chamada sensibilização central. O processo ocorre quando o sistema nervoso passa a reagir de forma mais intensa aos estímulos dolorosos. Com isso, uma sensação que antes provocaria apenas um desconforto pode passar a ser percebida como uma dor mais forte.
Esse mecanismo é estudado em doenças como fibromialgia, cefaleias e alguns tipos de dor pélvica e intestinal. Ele não explica todos os casos de dor crônica, mas ajuda a compreender por que determinados sintomas podem permanecer durante meses ou até anos.
Sistema imunológico
A percepção da dor não depende apenas dos nervos. Quando o organismo sofre uma lesão ou enfrenta uma inflamação, o sistema imunológico ativa células que liberam substâncias capazes de aumentar ou diminuir a intensidade da dor.
De acordo com a revisão, mulheres e homens podem apresentar respostas imunológicas diferentes diante de um mesmo estímulo. Essas diferenças interferem na comunicação entre as células de defesa e os neurônios responsáveis pela transmissão dos sinais dolorosos.
Essa relação é conhecida como interação neuroimune. Quando a comunicação entre o sistema imunológico e o sistema nervoso sofre alterações, a dor pode continuar mesmo depois que a lesão que a provocou inicialmente já tenha melhorado.
O catedrático de Farmacologia da Universidade Rey Juan Carlos de Madri, Carlos Goicoechea García, afirmou que existem "diferenças importantes na resposta à dor entre mulheres e homens, tanto na parte sensorial quanto na emocional".
Microbiota intestinal
Outro fator analisado pelas pesquisadoras é a microbiota intestinal, formada por bactérias e outros microrganismos que vivem no sistema digestivo e participam de funções relacionadas à digestão e à imunidade.
Os hormônios podem alterar a composição da microbiota e as substâncias produzidas por esses microrganismos. Algumas delas estão associadas a processos inflamatórios e ao aumento da sensibilidade à dor em órgãos internos.
Essa relação pode ajudar a explicar parte dos mecanismos envolvidos na síndrome do intestino irritável, condição que pode provocar dor abdominal recorrente, inchaço e alterações no funcionamento intestinal.
A doença envolve uma interação complexa entre intestino, sistema nervoso, hormônios e sistema imunológico. Por isso, a explicação para os sintomas não depende de um único fator.
Holly A. Ingraham, uma das autoras da revisão, explicou que a ciência já deixou de considerar os hormônios sexuais como a única explicação para a diferença na ocorrência de dor entre mulheres e homens. Segundo a pesquisadora, fatores hormonais, imunológicos, neuronais e genéticos podem atuar conjuntamente e de maneiras diferentes em cada pessoa.
Tratamentos ainda precisam considerar essas diferenças
Um dos desafios apontados pela revisão é transformar esse conhecimento em novas estratégias de tratamento. Durante décadas, muitos estudos científicos utilizaram o corpo masculino como referência e nem sempre analisaram separadamente os resultados observados em mulheres e homens.
Para Goicoechea, "ainda não foi dado, de maneira consistente, o salto para a terapêutica". Embora ensaios clínicos incluam participantes dos dois sexos, nem sempre os pesquisadores verificam se determinado medicamento apresenta o mesmo efeito em homens e mulheres.
A revisão publicada na Science defende que futuras abordagens para a dor crônica levem em consideração fatores como o estado hormonal, o funcionamento do sistema imunológico e os circuitos responsáveis pelo processamento da dor.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



