Obsessão amorosa: redes sociais dão força ao problema, afirma filósofo
A limerência, fenômeno conhecido há décadas ganhou nova dimensão com a internet, que facilitaa o acesso constante à vida de outra pessoa e podem reforçar pensamentos obsessivos

Ver um storie assim que ele é publicado, conferir quem começou a seguir determinada pessoa, interpretar uma curtida como sinal de interesse ou passar muito tempo visitando o perfil de alguém. Esses comportamentos fazem parte da rotina digital de muita gente, mas podem assumir outro significado quando se tornam persistentes.
É nesse contexto que a limerência voltou a chamar atenção. O termo descreve um estado de obsessão afetiva marcado por pensamentos recorrentes sobre outra pessoa e por uma forte necessidade de reciprocidade. Apesar de parecer um fenômeno recente, a palavra existe há décadas e ganhou uma nova dimensão com as redes sociais.
Em entrevista ao Infobae, o filósofo Tomás Balmaceda explicou que a popularidade atual do conceito não significa que tenha surgido uma nova forma de amar. Para ele, a mudança está na maneira como a tecnologia transformou os relacionamentos.
"A limerência é um termo super na moda. Quando você procura limerência nas redes sociais, vai encontrar podcasts, vídeos, livros, um monte de informação. Porque parece que é o novo tipo de amor do século XXI", afirmou.
Balmaceda ressaltou, porém, que limerência não deve ser confundida simplesmente com estar muito apaixonado. "Não é exatamente estar superapaixonado nem estar obcecado. É outra coisa: pensamentos intrusivos o tempo todo. Não paro de pensar nessa pessoa", explicou.
Conceito criado há mais de quatro décadas
A limerência foi descrita pela psicóloga norte-americana Dorothy Tennov em 1979, após entrevistas com centenas de pessoas que apresentavam comportamentos semelhantes. A pesquisadora identificou características como pensamentos persistentes sobre alguém, fantasias recorrentes, mudanças na rotina e uma necessidade constante de saber se o sentimento é correspondido.
"Pensavam naquela pessoa, mudavam suas rotinas, descobriam coisas sobre os amigos e familiares. Havia fantasias constantes e uma necessidade permanente de reciprocidade", resumiu Balmaceda.
O interesse pelo assunto, entretanto, voltou a crescer nos últimos tempos. Segundo o filósofo, as buscas pelo termo aumentaram 500% nos meses anteriores à entrevista.
A explicação estaria, em grande parte, na maneira como as redes sociais permitem acompanhar detalhes da vida de outras pessoas. Fotografias, histórias, comentários, seguidores, horários de conexão e outros sinais estão disponíveis com poucos toques na tela.
"As redes dão o telescópio e a camuflagem", resumiu Balmaceda.
Redes sociais ampliam a obsessão
Antes da internet e das redes sociais, a distância impunha limites mais claros para quem queria acompanhar a vida de outra pessoa. Hoje, esses limites praticamente desapareceram.
"Se eu fico obcecado por alguém, posso saber onde toma café, com quem sai, quem segue e quem o segue. Mesmo que não exista reciprocidade, posso construir todo um ecossistema de informação ao redor dessa pessoa", afirmou o filósofo.
Assim, ações que parecem comuns no ambiente digital podem ganhar outro significado quando fazem parte de um comportamento repetitivo. Conferir quem viu uma publicação, analisar uma curtida, observar quanto tempo alguém demorou para responder ou acompanhar mudanças na lista de seguidores são exemplos citados na reportagem.
O entrevistador Fede Mayol lembrou como os relacionamentos eram diferentes antes das redes sociais. "Na nossa época, quando éramos mais jovens, não havia redes sociais. Era uma mensagem de texto, no máximo", comentou.
A diferença, segundo Balmaceda, está justamente na quantidade de informações disponível atualmente. A tecnologia permite que o interesse por alguém seja alimentado continuamente por novas imagens, publicações e interações.
Quando o sentimento não é correspondido
Outro aspecto apontado por Balmaceda é que a limerência costuma aparecer em situações nas quais não existe uma relação real ou correspondida.
"Não vi nenhum caso de limerência de alguém que dá bola para você. Essa pessoa pode nem conhecer você", afirmou.
Isso também ajuda a explicar por que o fenômeno pode envolver pessoas famosas, influenciadores e outras figuras públicas. O interesse pode ser direcionado a alguém que sequer sabe da existência do admirador.
"Seu objeto de limerência pode ser um garoto do One Direction, Harry Styles. Não precisa ser alguém próximo", exemplificou Balmaceda.
Nesses casos, a exposição constante proporcionada pelas redes sociais pode dar a sensação de proximidade e alimentar uma relação unilateral. Esse tipo de vínculo é associado, na psicologia, às chamadas relações parasociais.
Por que o termo ganhou força agora?
Para Balmaceda, a limerência não nasceu na internet. O que mudou foi o ambiente em que esse comportamento pode se desenvolver.
A combinação entre hiperconectividade, algoritmos voltados para manter a atenção dos usuários e acesso praticamente permanente às informações sobre outras pessoas criou novas possibilidades para alimentar uma obsessão afetiva.
Mais do que uma tendência criada pelas redes sociais, a limerência passou a ser uma maneira de descrever um comportamento antigo em um cenário completamente diferente. A tecnologia tornou mais fácil observar, idealizar e acompanhar alguém mesmo quando não existe uma relação de fato.
Ao comentar o fenômeno, Maru Duffard resumiu a intensidade desse tipo de comportamento: "Ninguém pode ficar tanto assim".
Balmaceda, por sua vez, alertou para os riscos desse novo cenário. "Estamos em uma era de um novo tipo de amor tóxico que cada vez mais pessoas relatam que têm e é preciso ter cuidado para não cair nessas armadilhas", concluiu.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



