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O que a psicologia diz sobre pessoas que sempre ouvem as mesmas músicas?

Traços de personalidade exercem um papel igualmente decisivo nessa tendência

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Imagem meramente ilustrativa • Gemini/Reprodução

O hábito de reproduzir repetidamente a mesma lista de reprodução ou aquela faixa favorita costuma ser encarado como uma simples preferência estética ou pura nostalgia. No entanto, uma investigação interdisciplinar revela que essa conduta vai muito além do gosto pessoal e expõe aspetos profundos sobre a estrutura mental e o funcionamento biológico dos ouvintes.

De acordo com especialistas da área, a repetição musical atua frequentemente como um mecanismo de defesa contra a incerteza do quotidiano. Em um mundo em constante transformação, recorrer a melodias amplamente conhecidas oferece uma sensação de estabilidade e controlo indispensável para reduzir os níveis de ansiedade.

Esse comportamento é impulsionado pelo chamado efeito de familiaridade, uma tendência natural do cérebro humano de responder positivamente a estímulos que já reconhece. Ao eliminar o fator surpresa, o indivíduo permanece em uma zona de conforto psicológico, onde cada nota e cada palavra já possuem um significado processado, o que reforça o bem-estar e a satisfação pessoal.

A ciência também explica esse fenómeno através da biologia. O relatório anual do Center of Music in The Brain aponta que a música ativa o sistema de recompensa cerebral. Quando uma canção predileta é tocada, o cérebro liberta dopamina, neurotransmissor associado às sensações de prazer. Essa resposta química gera uma espécie de dependência positiva que incentiva o ouvinte a carregar no botão de repetição, transformando a música em uma ferramenta de profunda exploração emocional.

Os traços de personalidade exercem um papel igualmente decisivo nessa tendência. Indivíduos introvertidos, por exemplo, utilizam as músicas familiares como um espaço de quietude para se desligarem das pressões externas e recarregarem as energias. Para este grupo, o hábito funciona como uma bolha de escapismo segura e previsível que os protege de estímulos novos que exigiriam uma atenção extra.

Por outro lado, para uma parcela de ouvintes, a repetição atende a uma necessidade analítica. Essas pessoas encaram a música como um enigma e sentem prazer ao desvendar minuciosamente cada elemento sonoro, desde a composição da letra até o arranjo instrumental mais subtil. Para eles, cada audição deixa de ser uma experiência passiva e torna-se uma observação ativa em busca de uma compreensão total da obra.

Contudo, este hábito também apresenta nuances cognitivas importantes. Peter Vuust, professor da Royal Academy of Music em Aarhus, na Dinamarca, alerta que o excesso de repetição pode fazer com que o conteúdo se desloque para o extremo oposto do espetro cerebral, momento em que o cérebro deixa de absorver qualquer informação nova.

Segundo o especialista, os sistemas biológicos são bastante sensíveis a esse limite, embora o tempo que cada pessoa demora para notar que o processo de aprendizagem daquela peça musical chegou ao fim varie de indivíduo para indivíduo.

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