Você agradece por tudo? A psicologia aponta o que esse comportamento pode revelar
Estudos afirmam que a gratidão excessiva pode estar relacionada a traços de personalidade, ao bem-estar emocional e à saúde mental

Você provavelmente conhece alguém que agradece por praticamente tudo, seja para quem segura a porta, oferece um copo de água ou faz qualquer pequeno gesto de gentileza no dia a dia. Para muitas pessoas, esse comportamento é simplesmente uma questão de educação e boas maneiras.
Mas, segundo diferentes pesquisas na área da psicologia, o hábito de agradecer pode revelar mais sobre um indivíduo do que imaginamos. Segundo especialistas, ele também pode estar relacionado a determinados traços de personalidade, ao bem-estar emocional e à maneira como cada pessoa se relaciona com quem está ao seu redor.
A gratidão é um dos temas que mais ganharam espaço na psicologia positiva nas últimas décadas. Além de uma simples expressão de cortesia, ela é vista como uma força de caráter que nos ajuda a reconhecer e valorizar aquilo que outras pessoas fazem por nós. Até a origem da palavra reforça essa ideia: o termo latino gratus significa "agradável" ou "bem-vindo".
De acordo com o modelo dos Cinco Grandes Fatores da Personalidade, desenvolvido pelos psicólogos Paul Costa e Robert McCrae, pessoas que costumam demonstrar esse tipo de comportamento podem apresentar níveis mais elevados de amabilidade e responsabilidade.
A amabilidade está ligada à tendência de agir de maneira gentil, cooperativa e altruísta com os outros. Já a responsabilidade envolve características como disciplina, confiabilidade e senso de dever.
Os benefícios de ser grato
Os possíveis efeitos positivos da gratidão também chamam a atenção dos pesquisadores. Em um estudo publicado em 2003, os pesquisadores Robert Emmons e Michael McCullough observaram que pessoas que praticavam a gratidão com frequência apresentavam melhor saúde física, mais otimismo e maior satisfação com a vida.
Outras pesquisas, realizadas por cientistas chineses, encontraram uma relação entre níveis mais elevados de gratidão, melhor qualidade do sono e menores níveis de ansiedade. Uma metanálise publicada em 2023 na revista Frontiers in Psychology também reforçou a existência de uma associação entre a gratidão e uma melhor saúde mental.
Mas nem tudo é tão simples quanto parece.
Um estudo publicado em 2024 levantou uma questão curiosa: pessoas narcisistas também podem sentir e demonstrar gratidão?
Para investigar o assunto, os pesquisadores analisaram as respostas de 462 participantes e consideraram quatro tipos de narcisismo. Entre eles estava um perfil menos conhecido do público: o chamado narcisismo comunitário.
Nesse caso, a pessoa constrói boa parte da própria identidade em torno de características como generosidade e disposição para ajudar os outros. À primeira vista, esse comportamento pode parecer totalmente altruísta. Porém, também pode existir por trás dele uma forte necessidade de reconhecimento e validação social.
Os resultados mostraram que o narcisismo comunitário estava positivamente associado a determinadas formas de gratidão. Isso significa que, em alguns casos, tanto a generosidade quanto as demonstrações de agradecimento podem ser usadas para reforçar a imagem que a pessoa constrói de si mesma.
Como resumem os próprios autores, a gentileza pode acabar se tornando "uma ferramenta a serviço do ego".
Isso não significa, claro, que uma pessoa que agradece muito seja necessariamente narcisista. A gratidão continua sendo um comportamento associado a diversos aspectos positivos do bem-estar e das relações sociais.
O ponto levantado pela pesquisa é mais sutil. Eles defendem que, dependendo da motivação por trás do comportamento, uma mesma atitude, como ajudar alguém ou dizer "obrigado", pode ter significados diferentes.
Por isso, diferenciar uma demonstração genuína de gratidão de uma expressão usada para fortalecer a própria imagem não é uma tarefa simples. E, segundo os pesquisadores, essa é uma questão que ainda precisa ser mais investigada.
Jornalista formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atuou na Rádio UFMG Educativa e em empresas de marketing, com experiência em produção de conteúdo, SEO e redação Atualmente, escreve, em colaboração com a Itatiaia, nas editorias de entretenimento e variedades.



