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Maior coleção de ouro da história: 3,5 milhões de sul-coreanos doaram para pagar dívida do país

Descubra como uma mobilização cívica reuniu 227 toneladas de ouro em quatro meses durante a crise financeira asiática e marcou a história da Coreia do Sul

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Imagem meramente ilustrativa • Pixabay/Reprodução

Em janeiro de 1998, filas se formaram em frente a seis bancos na Coreia do Sul. Milhares de pessoas carregavam alianzas de casamento, anéis infantis de ouro, medalhas olímpicas e cruzes cardeais — objetos guardados por décadas dentro de suas famílias. O país acabara de acordar um resgate de 58 bilhões de dólares com o Fundo Monetário Internacional e precisava de divisas para enfrentar a crise financeira asiática.

A campanha impulsionada pela cadeia KBS transformou o ouro doméstico em ferramenta de emergência nacional. Em apenas quatro meses, a coleta reuniu 227 toneladas de ouro, avaliadas em aproximadamente 2,13 bilhões de dólares. Participaram 3,51 milhões de sul-coreanos, número equivalente a 23% dos lares do país. Este guia explica como funcionou essa mobilização histórica, que objetos foram entregues e qual foi o verdadeiro impacto econômico da ação.

O contexto da crise financeira asiática de 1997-1998

A campanha começou em janeiro de 1998, em plena crise financeira asiática. O país necessitava de reservas em moeda estrangeira para cumprir suas obrigações financeiras internacionais.

Em resposta à situação, o governo sul-coreano fechou acordo com o Fundo Monetário Internacional. O pacote de resgate totalizava 58 bilhões de dólares e exigia reformas estruturais profundas na economia.

A campanha de doação de ouro surgiu como resposta cívica à emergência nacional. A iniciativa foi concebida pela cadeia de televisão KBS e começou com seis bancos receptores em 5 de janeiro de 1998.

Como funcionou a campanha de coleta de ouro

A ação começou no dia 5 de janeiro de 1998 e foi planejada inicialmente como uma mobilização breve. A enorme adesão popular obrigou a estender o prazo até 30 de abril do mesmo ano.

Em apenas dois dias, cerca de 500 mil sul-coreanos já haviam participado. O número alcançou um milhão de pessoas até 15 de janeiro e chegou a 1,67 milhão antes do fim daquele mês.

Ao encerramento da campanha, 3,51 milhões de cidadãos haviam entregue alguma peça de ouro. Esse número representava aproximadamente 23% dos lares do país.

Que tipos de objetos foram doados

As peças não vieram de reservas empresariais ou institucionais. Chegaram de residências comuns, gavetas familiares e coleções pessoais com profundo valor sentimental.

Recém-casados entregaram suas alianzas de matrimônio. Muitos pais levaram os dol-banji, anéis de ouro de 24 quilates que as crianças coreanas recebem no primeiro aniversário como símbolo de proteção e prosperidade.

Também apareceram insígnias militares, medalhas olímpicas e presentes que pessoas idosas haviam recebido de seus filhos ao longo de décadas. O cardeal Stephen Kim Sou-hwan, uma das figuras públicas mais respeitadas do país, doou a cruz de ouro que recebera em 1969 ao ser nomeado cardeal.

A memória histórica do movimento patriótico de 1907

A campanha de 1998 não surgiu do vazio. Havia precedente histórico na memória coletiva sul-coreana.

Em 1907, cidadãos do Império coreano tentaram pagar uma dívida de 13 milhões de wones com o Japão. Esse montante equivalia a quase um ano do orçamento nacional.

Antes mesmo da assinatura do resgate com o FMI, em 20 de novembro de 1997, a Associação Central de Mulheres de Saemaeul já havia lançado uma coleta de anéis patrióticos. Essa iniciativa antecipou o movimento massivo que viria semanas depois.

Os números da mobilização e o resultado econômico

A campanha de quatro meses reuniu aproximadamente 227 toneladas de ouro. O valor de mercado desse volume alcançava cerca de 2,13 bilhões de dólares naquele momento.

O ouro coletado foi fundido, convertido em lingotes, exportado e vendido nos mercados internacionais. Os dólares obtidos se utilizaram para cobrir uma parte das obrigações externas da Coreia do Sul.

Em termos proporcionais, os 2,13 bilhões de dólares representavam aproximadamente 3,7% do resgate concedido pelo FMI. O aporte econômico era significativo, mas insuficiente para resolver sozinho a crise financeira.

Impacto simbólico além dos números

A dimensão econômica direta não foi o único efeito da campanha. A imagem de milhões de pessoas entregando objetos pessoais gerou consequências que transcenderam as planilhas financeiras.

A mobilização mostrou internamente e para o mundo que grande parcela da população estava disposta a participar ativamente da recuperação nacional. Esse sinal de coesão social teve valor estratégico para restaurar a confiança.

As reservas de ouro do Banco da Coreia também cresceram com força durante esses quatro meses. A campanha criou um dos maiores movimentos de mobilização cívica da história sul-coreana.

As reformas econômicas e o pagamento da dívida

A recuperação econômica da Coreia do Sul não dependeu exclusivamente da campanha de ouro. O país implementou reformas profundas exigidas pelo Fundo Monetário Internacional.

Essas mudanças incluíram reestruturações empresariais, abertura à investimento estrangeiro, ajustes fiscais e transformações importantes no mercado de trabalho. O pacote de medidas foi abrangente e duradouro.

A Coreia do Sul terminou de pagar o empréstimo do FMI em agosto de 2001. O prazo foi cumprido aproximadamente três anos antes do previsto inicialmente no acordo de resgate.

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