Fome emocional: saiba as causas e como identificar o problema

Estresse, ansiedade e tédio estão entre os principais gatilhos que levam milhões de brasileiros a comer sem fome física

Cerca de 11 milhões de brasileiros convivem atualmente com algum tipo de transtorno alimentar, de acordo com dados apresentados em audiência pública no Senado Federal em 2024. Dentro desse cenário, um comportamento tem se tornado cada vez mais frequente e silencioso: a fome emocional. Ela atinge pessoas de diferentes idades e perfis, que encontram na comida uma forma de lidar com sentimentos difíceis do dia a dia.

Diferente da fome física, que surge gradualmente e sinaliza a real necessidade do corpo por energia, a fome emocional aparece de forma repentina. Geralmente, vem acompanhada de um desejo específico por alimentos ricos em açúcar, gordura ou sal. Não é o estômago que pede comida, mas o emocional que busca alívio.

Segundo especialistas, esse comportamento está diretamente ligado à tentativa de preencher vazios internos. A comida passa a funcionar como um conforto imediato para emoções como tristeza, frustração, ansiedade ou solidão.

Gatilhos

O estresse é um dos fatores mais associados à fome emocional. Em situações de tensão, o organismo libera cortisol, hormônio que pode aumentar o apetite e estimular a busca por alimentos mais calóricos. Comer, nesse contexto, vira uma tentativa rápida de aliviar o desconforto, ainda que por pouco tempo.

A ansiedade segue um caminho parecido. Pessoas ansiosas tendem a recorrer à comida em busca de sensação de controle e prazer. O problema é que o cérebro pode ter dificuldade em reconhecer a saciedade, o que leva a episódios de exagero alimentar.

O tédio também tem papel importante. A falta de estímulos transforma a comida em entretenimento. Segundo psicólogos, pensamentos como “não tenho nada para fazer, então vou comer” são comuns nesses casos. Emoções intensas, tanto negativas quanto positivas, também podem funcionar como gatilho.

Fome de verdade ou emocional?

Aprender a diferenciar fome física de fome emocional é um passo essencial para retomar o controle da alimentação. A fome real costuma vir acompanhada de sinais claros como estômago roncando, fraqueza, dor de cabeça ou irritabilidade. Ela cresce com o tempo e é resolvida com uma refeição equilibrada.

Já a fome emocional não apresenta sintomas físicos evidentes. Surge mesmo após comer e direciona o desejo para alimentos específicos. Além disso, não desaparece após a ingestão. A pessoa pode comer grandes quantidades e ainda sentir que algo falta.

Outro sinal comum é o sentimento de culpa ou arrependimento depois de comer. Quando a alimentação atende a uma necessidade física, essa sensação não costuma aparecer.

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Outros fatores

Estudos recentes indicam que fatores genéticos podem aumentar a predisposição à fome emocional. Um gene chamado FTO, associado à obesidade, pode influenciar o apetite e o modo como o corpo responde ao estresse.

Além disso, a serotonina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer e bem-estar, tem papel central nesse processo. Alimentos calóricos aumentam rapidamente seus níveis, gerando conforto imediato. Pessoas com ansiedade ou depressão, que tendem a ter níveis mais baixos de serotonina, podem recorrer à comida como forma de compensação emocional.

Fome emocional pode virar compulsão alimentar

Embora a fome emocional não seja considerada um transtorno alimentar, ela pode evoluir para quadros mais graves. Pesquisa publicada em 2025 mostrou que mais da metade dos candidatos à cirurgia bariátrica apresenta sinais de compulsão alimentar.

A compulsão se caracteriza pela ingestão de grandes quantidades de comida em pouco tempo, acompanhada de perda de controle e sofrimento intenso. No Brasil, a rede pública ainda é insuficiente para atender essa demanda. Hoje, existem apenas 15 centros públicos especializados e uma única enfermaria dedicada ao tema em toda a América Latina.

Como identificar e prevenir

Identificar os próprios gatilhos é o primeiro passo. Anotar o que se come e como se sente ajuda a perceber padrões e conexões entre emoções e alimentação. A prática da alimentação consciente, conhecida como mindful eating, também se mostra eficaz. Ela propõe atenção total ao ato de comer, respeitando sinais de fome e saciedade.

Buscar alternativas ao alimento nos momentos de tensão é outra estratégia importante. Caminhar, ouvir música, conversar com alguém de confiança ou praticar atividades relaxantes pode reduzir a necessidade de usar a comida como válvula de escape.

Manter uma rotina regular de refeições ajuda a evitar a fome excessiva, que aumenta a vulnerabilidade emocional. Dietas muito restritivas, ao contrário, tendem a intensificar o problema e dificultar o controle a longo prazo.

Tratamento

Quando a fome emocional se torna frequente e afeta a qualidade de vida, a ajuda profissional é fundamental. O tratamento mais indicado envolve uma equipe multidisciplinar, com psicólogo, nutricionista e, em alguns casos, psiquiatra.

A Terapia Cognitivo-Comportamental é considerada a abordagem mais eficaz, pois ajuda a identificar pensamentos automáticos e desenvolver novas formas de lidar com emoções sem recorrer à comida. O acompanhamento nutricional foca na reeducação alimentar, sem restrições extremas.

Em situações específicas, medicamentos podem ser utilizados para auxiliar no controle da compulsão e dos sintomas emocionais associados.

Cuidado contínuo

Prevenir a fome emocional passa pelo cuidado com a saúde mental. Experiências da infância, como o uso da comida como recompensa ou consolo, podem influenciar o comportamento alimentar na vida adulta. Desenvolver autoconhecimento emocional ajuda a reconhecer sentimentos antes que eles se transformem em episódios de exagero alimentar.

A prática regular de atividade física, mesmo leve, contribui para o equilíbrio emocional ao reduzir o estresse e melhorar o humor. Construir uma rede de apoio e falar sobre dificuldades também faz diferença.

Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.

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