El Niño se torna o mais intenso da história moderna
El Niño bate recorde com anomalia de +3,1°C no Pacífico; veja como funciona o aquecimento extremo e os impactos no Brasil

Quando os cientistas da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA) analisaram os dados oceânicos mais recentes, constataram algo sem precedentes: a temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Central atingiu anomalia de +3,1°C, superando todos os registros desde o início das medições regulares.
Esse aquecimento extremo não ocorre por acaso. Abaixo da superfície, uma gigantesca massa de água quente se desloca pelo oceano enquanto os ventos que normalmente resfriam a região param de soprar. A combinação desses fatores transforma o El Niño em um dos eventos climáticos mais poderosos do planeta, com consequências que variam drasticamente entre as regiões brasileiras.
Como o El Niño atinge intensidade recorde no Pacífico
O aquecimento extremo do Pacífico Equatorial resulta da interação entre oceano e atmosfera em uma escala raramente observada. A anomalia de +3,1°C registrada pelo índice ONI (Índice Oceânico Niño) na região Niño 3.4 supera o recorde anterior de +3,0°C, estabelecido durante o Super El Niño de 2015-2016.
Essa marca histórica ocorre dois meses antes do que o pico anterior registrado em novembro de 2015. O evento também ultrapassa episódios significativos como os de 1982-1983 e 1997-1998, além do El Niño de 1877, que contribuiu para uma fome devastadora.
Nunca antes o Pacífico atingiu o patamar de Super El Niño tão precocemente. A primeira marca semanal de +2°C ocorreu na semana de 8 de julho, enquanto nos eventos anteriores esse limiar só foi alcançado entre setembro e dezembro.
Os mecanismos oceânicos por trás do aquecimento extremo
Uma poderosa onda de Kelvin descendente atua como motor principal dessa intensificação acelerada. Trata-se de uma gigantesca massa de água quente que se desloca para Leste pelo Pacífico Equatorial, funcionando como reserva de calor para alimentar o aquecimento da superfície.
No setor subsuperficial, especialmente nos primeiros 200 metros do oceano, foram observadas anomalias superiores a 10°C acima da média em seu núcleo. À medida que a onda avança para Leste e sobe em direção à superfície, ela fornece energia térmica contínua.
O processo está diretamente ligado ao comportamento da atmosfera. Pulsos de vento de Oeste empurram as águas quentes acumuladas no Oeste do Pacífico em direção ao Leste, favorecendo a elevação das águas mais quentes e reforçando a anomalia de temperatura na superfície.
Por que os ventos alísios param de soprar
O colapso dos ventos alísios representa peça fundamental no fortalecimento do fenômeno. Normalmente, esses ventos sopram de Leste para Oeste ao longo do Equador, empilhando água quente no Pacífico Ocidental.
Quando os ventos alísios enfraquecem ou param, o calor acumulado no Oeste se redistribui para Leste. Os pulsos de vento de Oeste, conhecidos como westerly wind bursts, reforçam esse movimento e podem continuar atuando por semanas, mantendo o fornecimento de energia térmica.
A combinação entre oceano aquecido e atmosfera alterada cria um ciclo que se retroalimenta, permitindo que o evento ganhe força rapidamente.
Projeções indicam pico sem precedentes até o fim do ano
As projeções de longo prazo apontam para um evento que poderá alcançar o maior pico em décadas de registros comparáveis. Dados do modelo de clima europeu (ECMWF) indicam que a anomalia pelo índice ONI pode chegar a +4°C.
O Multivariate ENSO Index (MEI), calculado pela NOAA e que combina informações do oceano e da atmosfera, atingiu valor de +2,5 no bimestre julho-agosto. Trata-se do maior valor para o período desde o início da série em 1979.
Valores superiores a +2 nesse índice aparecem apenas nos episódios mais intensos de El Niño, confirmando a excepcionalidade do evento atual.
Intensidade recorde não significa consequências recordes
A relação entre a força do El Niño e suas consequências não é linear. O fato de este episódio ser o mais intenso da história não garante que todos os impactos sejam os maiores já observados.
Uma série de fatores atmosféricos em paralelo ao El Niño, e que variam muito, determinam que as consequências sejam mais ou menos graves nos diferentes estados brasileiros a cada episódio.
Historicamente, as duas maiores enchentes da história gaúcha, em 1941 e 2024, não ocorreram no primeiro ano do El Niño, mas no outono do ano seguinte.
O que esperar no Norte e Nordeste do Brasil
No Norte do Brasil, o El Niño costuma provocar diminuição das chuvas, especialmente no Norte e no Leste da Amazônia. O resultado é um período mais seco e quente, que favorece a propagação de queimadas e agrava incêndios florestais.
No Nordeste, os efeitos tendem a ser ainda mais críticos. A redução acentuada das precipitações pode levar a episódios de seca, comprometendo o abastecimento de água e causando prejuízos significativos à agricultura.
Esses impactos variam em intensidade dependendo de outros padrões atmosféricos que atuam simultaneamente ao fenômeno.
Impactos no Centro-Oeste e Sudeste
No Centro-Oeste, os impactos tendem a ser mais moderados, com uma tendência de chuvas acima da média em algumas áreas, sobretudo mais ao Sul da região. Episódios de calor intenso se tornam mais frequentes, sobretudo no final do inverno e durante a primavera, enquanto as queimadas aumentam.
Já no Sudeste, os sinais são mistos. Há anos em que chove mais e outros em que o clima fica mais seco e quente. Não há um padrão claro e consistente de mudança no regime de chuva e temperatura.
Essa variabilidade torna as previsões mais desafiadoras para essas regiões.
Sul do Brasil: chuvas intensas e risco de enchentes
No Sul do Brasil, o fenômeno costuma ter efeitos mais marcantes, com aumento significativo das chuvas e maior frequência de eventos extremos. São comuns episódios de precipitação volumosa, que elevam o risco de cheias e enchentes, principalmente no inverno e na primavera do primeiro ano do fenômeno e no outono do ano seguinte.
Temporais se tornam mais frequentes, assim como a ocorrência de ciclones, alguns deles intensos. As temperaturas tendem a ficar acima da média, apesar de eventuais incursões de frio.
O final do inverno e a primavera, em particular, são de alto risco de tempo severo com temperaturas mais altas. Ondas de tempestades com granizo, vendavais e até tornados se tornam mais frequentes.
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