Descoberta de igreja de 1,7 mil anos sob lago revela capítulo da história cristã
Arqueólogos encontram vestígios de construção anterior à basílica submersa no Lago İznik e defendem que estrutura teria sediado reunião que definiu as bases do cristianismo

Sob as águas do Lago İznik, na Turquia, arqueólogos descobriram os restos de uma igreja com aproximadamente 1,7 mil anos. A construção fica embaixo de uma basílica já conhecida e pode ter sido o local exato onde bispos cristãos se reuniram em 325 d.C. para estabelecer princípios fundamentais da fé cristã.
A descoberta reacende o debate sobre onde ocorreu o Primeiro Concílio de Niceia, evento convocado pelo imperador Constantino I que resultou no Credo Niceno. Especialistas contestam a interpretação, mas os achados arqueológicos abrem caminho para reescrever parte da história do cristianismo primitivo.
O que foi o Primeiro Concílio de Niceia e por que é importante
O Primeiro Concílio de Niceia representa um dos momentos mais decisivos da história cristã. Realizado em 325 d.C. na antiga cidade de Niceia (atual İznik), o encontro reuniu bispos cristãos de diferentes regiões para resolver divergências teológicas profundas.
O imperador romano Constantino I convocou a assembleia com objetivo claro: estabelecer consenso sobre questões doutrinárias que dividiam as comunidades cristãs. O resultado foi o Credo Niceno, uma das principais declarações da fé cristã que permanece em uso até os dias atuais.
A localização exata das reuniões, porém, nunca foi definitivamente comprovada. Registros históricos apontam para um palácio imperial às margens do lago, mas a estrutura nunca foi encontrada.
As duas camadas da construção submersa
A basílica submersa no Lago İznik foi identificada em 2014. Desde 2015, as escavações revelam uma estrutura complexa com ao menos duas fases construtivas distintas.
A camada mais profunda apresenta restos de paredes, pavimentação e uma base de coluna. O piso dessa igreja menor está cerca de 30 centímetros abaixo da estrutura principal da basílica.
Para o arqueólogo Mustafa Şahin, professor da Universidade Bursa Uludağ e responsável pelas escavações, os vestígios indicam uma construção anterior. Segundo ele, a estrutura menor corresponde à Igreja de São Neófitos, enquanto a basílica maior seria a Igreja dos Santos Padres, construída posteriormente no mesmo local.
Cronologia baseada em terremotos e construções
A equipe de arqueólogos estima que a igreja menor tenha sido destruída por um terremoto em 368 d.C., baseando-se em estimativas a partir de registros históricos de terremotos.
A construção da basílica maior teria ocorrido depois de 380 d.C., aproveitando os alicerces e o local da edificação anterior. Essa sequência temporal é compatível com a hipótese de que a igreja menor existia na época do Concílio de Niceia.
A diferença de nível entre os pisos das duas igrejas evidencia a existência de duas obras distintas no tempo.
O que dizem os registros históricos sobre o local das reuniões
A hipótese de Şahin se apoia também em documentos antigos. Eusébio de Cesareia, um dos participantes do concílio, descreveu o espaço de reunião como uma "casa de oração" ou uma pequena igreja.
Para o arqueólogo, essa descrição combina melhor com a construção recém-identificada do que com a grande basílica. A versão mais aceita, contada pelo bispo Eusébio, aponta que a sessão de abertura ocorreu no palácio imperial às margens do Lago de Niceia, e que o concílio durou três meses.
O palácio imperial, no entanto, ainda não foi encontrado. Existe a possibilidade de que esteja submerso no próprio Lago İznik, o que dificultaria sua localização definitiva.
Por que especialistas contestam a identificação
Apesar dos achados, não há consenso de que a igreja tenha sido efetivamente o local das reuniões do concílio. A construção menor ainda não foi datada com precisão absoluta.
O historiador Charles Odahl, professor emérito da Universidade Boise State nos Estados Unidos, questionou a identificação. Segundo Odahl, "essa igreja subaquática ficava nas proximidades, mas não era o local das reuniões do concílio sob o reinado do imperador".
A ausência de datação definitiva e a falta de outros elementos que comprovem o uso do espaço para o concílio mantêm a questão em aberto. A arqueologia trabalha com evidências materiais, mas a função exata de uma construção antiga nem sempre pode ser determinada apenas pelos vestígios físicos.
Achados complementares: anel de ouro e dedal
Além das estruturas arquitetônicas, os arqueólogos encontraram objetos pessoais no local. Um anel de ouro e um dedal chamam atenção por seus desenhos característicos.
O anel apresenta gravuras de uma palmeira e de uma espada. Segundo Şahin, objetos semelhantes são conhecidos de períodos associados aos omíadas e abássidas.
Os achados podem estar relacionados ao cerco omíada de İznik, em 729. Para Şahin, as primeiras análises indicam que os objetos reforçam a hipótese de que membros do grupo tenham visitado a igreja durante o período.
O que as escavações já confirmaram até agora
As escavações encontraram vestígios que, segundo a equipe de Şahin, indicam a existência de uma igreja anterior à basílica, mas a interpretação ainda é contestada por especialistas. Os restos de paredes, pavimentação e base de coluna, assim como as diferenças de nível entre os pisos, formam as evidências materiais dessa possível fase anterior.
A relação direta com o Primeiro Concílio de Niceia, porém, ainda não está comprovada. Trata-se de uma hipótese plausível, mas que depende de mais evidências para ser confirmada.
Novas escavações e análises poderão ajudar a determinar a função e a datação exata da construção. O trabalho arqueológico é um processo gradual de acumulação de evidências que, aos poucos, reconstrói o passado.
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