Cientistas usam os escombros do mar para captar dióxido de carbono
Cientistas testam em Gran Canaria se resíduos de demolição capturam CO2 dos oceanos sem prejudicar a biodiversidade marinha; confira

Imagine transformar entulho de construção em aliado contra as mudanças climáticas. É exatamente isso que um grupo de cientistas alemães está testando nas águas de Gran Canaria: usar escombros de concreto para amplificar a capacidade natural dos oceanos de absorver dióxido de carbono.
O experimento do centro alemão Geomar Helmholtz busca responder a uma pergunta provocadora: os resíduos de concreto, produzidos aos bilhões de toneladas todos os anos, poderiam ajudar a capturar carbono atmosférico em escala significativa? A resposta passa primeiro por garantir que essa intervenção não cause danos aos ecossistemas marinhos.
Como funciona a captura natural de carbono pelos oceanos
Os oceanos já desempenham um papel fundamental na regulação climática através de um processo conhecido como meteorização. A decomposição natural das rochas por fenômenos atmosféricos libera minerais que, ao chegarem ao mar, ajudam a capturar cerca de mil bilhões de toneladas de dióxido de carbono anualmente.
Segundo Javier Arístegui, catedrático do Instituto de Oceanografía y Cambio Global da Universidade de Las Palmas de Gran Canaria, trata-se de um processo químico específico. Certas rochas contêm substâncias alcalinas, como óxidos de cálcio, que elevam o pH da água marinha.
Quando o pH aumenta, o oceano passa a absorver mais dióxido de carbono da atmosfera. O detalhe estratégico é que o óxido de cálcio, a cal, é justamente o ingrediente principal do cemento presente no concreto de demolição.
Por que usar resíduos de construção neste experimento
O mundo gera aproximadamente 5 mil milhões de toneladas de escombros de concreto a cada ano. Desse volume gigantesco, apenas uma pequena fração é reutilizada atualmente, segundo os responsáveis pelo experimento.
A proposta é investigar se esse resíduo, que já contém o óxido de cálcio necessário para elevar a alcalinidade do mar, poderia ser aproveitado em larga escala para intensificar a captura oceânica de carbono. A ideia transforma um problema ambiental (descarte de entulho) em potencial solução climática.
A metodologia com mesocosmos em Gran Canaria
Kai Schulz, da Universidade Southern Cross da Austrália, codirige o ensaio junto com Ulf Riebesell, biólogo marinho do centro Geomar alemão. O experimento utiliza doze mesocosmos — sistemas que simulam um ambiente natural — instalados no porto de Taliarte.
Cada um dos doze grandes tanques contém 8 mil litros de água marinha. Durante semanas, os pesquisadores vêm fornecendo cemento triturado em diferentes concentrações para observar exatamente o que acontece dentro desses ambientes controlados.
O protocolo não se limita a medir se o dióxido de carbono dissolvido aumenta, em quanto e a que velocidade. A prioridade é observar como o plâncton e as larvas de peixes — base da cadeia alimentar marinha — reagem ao aumento da alcalinidade e da turbidez da água.
A grande questão é a segurança ambiental
"A grande questão é a segurança ambiental, porque há determinados umbrais que não queremos trespassar, para não ocasionar dano ao meio", explica Schulz junto aos mesocosmos no porto.
Antes de considerar qualquer aplicação em escala real, os cientistas precisam estabelecer se existe algum limite de concentração que possa prejudicar a biodiversidade. O experimento começou há duas semanas e deve se prolongar por mais três ou quatro semanas, tempo necessário para avaliar os efeitos sobre os organismos marinhos.
Qual seria a escala necessária para resultados climáticos significativos
Caso o método funcione sem danos ambientais, resta a questão da viabilidade prática. Schulz é direto ao descrever a magnitude necessária: "uma escala enorme".
Em teoria, uma tonelada de pó de cemento ajudaria o mar a capturar uma tonelada de CO2. Mas para gerar impacto real na concentração atmosférica de carbono, seria necessário utilizar centenas de milhões de toneladas ao ano.
"É uma escala enorme, comparável à da indústria de fábrica de cimento mundial", adverte o professor de Meio Ambiente, Ciência e Engenharia da Universidade Southern Cross. A dimensão do desafio revela que esse tipo de estratégia, mesmo que funcione, exigiria mobilização em escala industrial global.
Por que precisamos remover carbono já existente na atmosfera
Os pesquisadores admitem que estratégias desse tipo podem causar surpresa inicial. Mas eles destacam um ponto crucial: para mitigar as mudanças climáticas, não basta apenas reduzir emissões de gases de efeito estufa — é necessário começar a eliminar o que já está acumulado na atmosfera.
Experimentos de alcalinização da água marinha representam uma das vias mais promissoras para conseguir que os oceanos ajudem nessa tarefa de remoção ativa de carbono.
"O que se pretende aqui é multiplicar por dez a captura de carbono derivada da meteorização das rochas, porque temos que reduzir concentrações altíssimas de dióxido de carbono", explica Arístegui.
O cientista da Universidade de Las Palmas de Gran Canaria, que representou a Espanha nos relatórios do IPCC para as Nações Unidas sobre oceanos, contextualiza a urgência: "De fato, para chegar aos cenários planteados pelo painel de expertos sobre mudança climática (IPCC) teríamos que capturar uma quantidade de CO2 que aproximadamente equivale à que EUA e China emitiram ao longo de toda sua história".
Essa comparação ilustra por que soluções baseadas apenas em redução de emissões futuras são insuficientes. O passivo atmosférico acumulado exige tecnologias e estratégias de remoção ativa.
Alcalinização oceânica como estratégia complementar
A alcalinização dos oceanos por meio de aditivos específicos é uma área de pesquisa em crescimento. O experimento de Gran Canaria utiliza especificamente resíduos de concreto, mas diferentes materiais podem produzir o mesmo efeito de elevar o pH marinho.
A estratégia se baseia em acelerar artificialmente um processo que já ocorre na natureza há milhões de anos. A diferença está na escala e na velocidade: enquanto a meteorização natural das rochas é lenta e gradual, a adição controlada de materiais alcalinos buscaria resultados mais rápidos e mensuráveis.
O desafio científico é descobrir como fazer isso sem ultrapassar limites ambientais que possam comprometer a vida marinha. Os mesocosmos de Taliarte são um passo nessa jornada de validação.
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