Esse tipo de câncer não responde às terapias hormonais tradicionais nem a medicamentos que atuam sobre a proteína HER2, o que reduz as opções disponíveis e torna o controle da doença mais complexo. Ele também costuma atingir mulheres mais jovens e apresentar maior risco de metástase.
A pesquisa, publicada na revista científica NPJ Breast Cancer, mostrou que a proteína ID4 aparece em níveis elevados nesses tumores e está associada à multiplicação acelerada das células cancerígenas, à invasão de outros tecidos e à resistência aos tratamentos. Quando os cientistas conseguiram bloquear ou eliminar essa proteína em testes de laboratório, os tumores perderam força e passaram a crescer menos.
Os experimentos foram realizados em células tumorais e em modelos animais. Em uma das etapas, os pesquisadores utilizaram um composto experimental chamado AGX51, capaz de degradar proteínas da família ID, incluindo a ID4. O resultado foi uma redução significativa do tamanho dos tumores em camundongos, sem sinais de efeitos tóxicos aparentes, como perda de peso ou danos a órgãos.
O trabalho foi desenvolvido pelos pesquisadores Carla Toro, Sebastián Real, Sergio Laurito e Maria Teresita Branham, que atuam no Instituto de Histologia e Embriologia de Mendoza e também lecionam em cursos das áreas de ciências e medicina.
Em entrevista ao Infobae, a doutora em biologia Maria Teresita Branham destacou que a descoberta faz parte da chamada ciência básica, etapa essencial para qualquer avanço médico. Segundo ela, compreender os mecanismos que tornam um câncer mais agressivo é fundamental para, no futuro, desenvolver terapias mais eficazes.
Para testar o papel da ID4, o grupo utilizou diferentes abordagens. Uma delas foi a edição genética por meio da técnica CRISPR-Cas9, que permitiu remover a proteína das células tumorais. Sem a ID4, essas células perderam a capacidade de se multiplicar rapidamente e de formar colônias. Em outro experimento, os cientistas reduziram a produção da proteína e observaram novamente a desaceleração do crescimento tumoral. Em camundongos, os tumores tratados não chegaram a formar metástases no pulmão.
Além de diminuir o tamanho dos tumores, o tratamento com AGX51 ajudou a restaurar a atividade do gene BRCA1, responsável por proteger o DNA, e aumentou os níveis da proteína p21, que atua como um freio natural da divisão celular.
Apesar dos resultados animadores, os pesquisadores reforçam que ainda há um longo caminho até que essa estratégia possa se transformar em um tratamento disponível para pacientes. O câncer de mama triplo negativo apresenta grande diversidade molecular, o que significa que nem todos os tumores dependem da proteína ID4 da mesma forma.
O próximo desafio será identificar quais subgrupos de pacientes podem se beneficiar mais dessa abordagem, além de confirmar a eficácia e a segurança do composto em outros modelos experimentais. Somente depois disso será possível pensar em testes clínicos em seres humanos.
Como sinal positivo, Branham lembra que já existem outras moléculas em desenvolvimento com o objetivo de degradar proteínas da família ID, ainda em fase pré-clínica. Isso aumenta as chances de que, no futuro, o conhecimento gerado por esse estudo contribua para novas estratégias terapêuticas contra um dos cânceres de mama mais difíceis de tratar.
Recentemente, a pesquisadora também recebeu um financiamento internacional de 150 mil dólares da Fundação de Pesquisa do Câncer de Mama e da Associação Americana para Pesquisa do Câncer, o que deve ajudar a aprofundar os estudos.
Segundo ela, o objetivo agora é seguir acumulando evidências científicas sólidas para compreender melhor o papel da proteína ID4 dentro da complexidade do câncer de mama triplo negativo e, quem sabe, abrir novas portas para o tratamento da doença.