Aos 12 anos ela trabalhava na roça cortando cana e décadas depois criou uma grande indústria
Conheça a trajetória de Cleusa Maria da Silva, que transformou uma infância de trabalho braçal e dificuldades financeiras na maior rede de bolos artesanais do Brasil

Aos 12 anos, Cleusa Maria da Silva já conhecia o peso da enxada e o calor dos canaviais. Nascida em Bandeirantes, no Paraná, ela foi a terceira de dez filhos em uma família de boias-frias. Quando perdeu o pai em um acidente de carro, assumiu o corte de cana para ajudar a sustentar a casa. A alimentação resumia-se a arroz, macarrão e água.
Décadas depois, essa mesma mulher construiu a Sensações Doces, que após um impasse jurídico se tornou a Sodiê Doces, a maior rede de bolos artesanais do Brasil. A empresa conquistou o Selo de Excelência em Franchising por dez anos consecutivos e foi eleita a melhor confeitaria da América Latina pela Food Business News. A história de Cleusa revela como obstáculos severos podem se transformar em metodologia de crescimento sustentável no empreendedorismo.
Do corte de cana ao primeiro emprego em São Paulo
Cleusa começou a trabalhar aos nove anos em Bandeirantes. A rotina de esforço físico intenso e alimentação escassa marcou sua infância. Aos 16 anos, ela deixou o Paraná e mudou-se para São Paulo como arrumadeira na casa dos tios.
Foi na capital paulista que ela conseguiu concluir o ensino fundamental. O trabalho doméstico lhe deu acesso à educação básica que antes parecia impossível. A mudança representou o primeiro passo para sair do ciclo de trabalho braçal.
A virada na fábrica de autofalantes em Salto
Depois de São Paulo, Cleusa se mudou para Salto, no interior paulista, onde foi morar com os avós. Ela conseguiu emprego em uma fábrica de autofalantes. Foi nesse ambiente que conheceu a mulher do patrão, que vendia bolos e precisava de ajuda.
A conexão com essa patroa mudaria completamente sua trajetória. O trabalho na fábrica garantia a renda, mas a aproximação com o universo da confeitaria abriu uma porta inesperada.
O primeiro bolo de 35 quilos aos 35 anos
Aos 35 anos, Cleusa fez seu primeiro bolo como um favor para a patroa, que havia quebrado a perna. A chefe ensinou o passo a passo para preparar um bolo de 35 quilos. Cleusa executou todo o processo sozinha, sem experiência anterior.
O resultado surpreendeu a patroa, que imediatamente reconheceu o talento de Cleusa. A incentivou a seguir na área de confeitaria. Como Cleusa não tinha dinheiro para comprar uma batedeira, a chefe lhe deu uma e disse para pagar quando pudesse.
Esse gesto de confiança foi determinante. Cleusa passou a fazer bolos durante a noite, após o expediente na fábrica. A dupla jornada durou anos, mas estabeleceu as bases do futuro negócio.
A abertura da primeira loja com cinco mil reais
Em 1997, Cleusa tomou a decisão de abrir seu próprio negócio. Com o dinheiro da rescisão trabalhista, cerca de cinco mil reais, ela alugou um espaço de 20 metros quadrados e fundou a Sensações Doces.
Por cinco anos, trabalhou sem folga. Fazia os bolos em casa e os levava a pé até a loja. A rotina era exaustiva, mas o negócio foi se consolidando gradualmente. A estratégia de produção caseira manteve os custos baixos enquanto a marca ganhava clientela.
O conflito jurídico que levou ao nome Sodiê
Quando o negócio já estava estabelecido, Cleusa enfrentou um obstáculo jurídico inesperado. A Nestlé havia registrado um chocolate com o nome Sensações Doces. A marca que ela construíra não podia mais ser usada.
Cleusa pagou assessoria jurídica para tentar reverter a situação, mas o impasse parecia sem solução. Foi então que uma amiga da época da fábrica sugeriu um novo nome: Sodiê Doces, uma homenagem aos filhos Sofia e Diego.
O nome foi registrado sem problemas. Ironicamente, anos depois, a Sodiê se tornaria parceira comercial da própria Nestlé. O que poderia ter encerrado o negócio acabou gerando uma identidade ainda mais forte.
A consolidação como maior rede de bolos do Brasil
Hoje, a Sodiê Doces é reconhecida como a maior rede de bolos artesanais do Brasil. A empresa recebeu o Selo de Excelência em Franchising pela Associação Brasileira de Franchising pelo décimo ano consecutivo.
A publicação internacional Food Business News elegeu a Sodiê, em 2026, como a melhor confeitaria da América Latina. A trajetória de Cleusa comprova que é possível transformar condições adversas em metodologia escalável de negócio.
A empresária construiu um império a partir de cinco mil reais, uma batedeira emprestada e jornadas noturnas de trabalho. O modelo de franchising permitiu que a história de superação se multiplicasse em centenas de unidades pelo país.
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