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Antonio Gala, escritor espanhol, sobre a felicidade: 'Uma boa vida envolve três coisas: não se esforçar para ser feliz, conhecer as próprias fraquezas e cultivar a serenidade'

Descubra por que Antonio Gala rejeita a busca desesperada pela felicidade e propõe cultivar serenidade através do autoconhecimento, que não significava ficar apenas com o que nos agrada, era preciso conhecer 'nossas possibilidades, nossas forças, mas sobretudo nossas debilidades'

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Antonio Gala, poeta e dramaturgo espanhol.
Antonio Gala, poeta e dramaturgo espanhol. • Divulgação

Durante décadas, Antonio Gala voltou ao mesmo tema com incômodo fascinante. A felicidade não o interessava como promessa publicitária nem como objetivo de autoajuda. Interessava-lhe como armadilha conceitual, algo que as pessoas perseguiam sem compreender o que realmente buscavam.

Quando Jesús Quintero o convidou para o programa Trece noches, a conversa começou pela pergunta mais básica: estamos aqui para ser felizes? Gala respondeu com uma distinção incômoda. Felicidade não era ter tudo o que se deseja, não era consumir sem freio, não era eliminar da vida qualquer perturbação. Era outra coisa, algo menos óbvio e mais próximo do que imaginamos.

Por que confundir felicidade com consumo é um erro

Antonio Gala rejeitava uma associação que considerava equivocada desde sempre: identificar felicidade com acúmulo de objetos ou satisfação de necessidades.

"A felicidade não é uma soma de objetos", disse ao apresentador. Tampouco significava ter todas as vontades atendidas ou viver sem fadiga. Era uma separação clara entre dois conceitos que costumam se misturar: conseguir o que queremos e, de fato, ser felizes.

Para o escritor, tratar a felicidade como mercadoria ou conquista territorial era um equívoco fundamental. Não se compra, não se conquista como uma propriedade. A felicidade, segundo Gala, funcionava por outra lógica.

A felicidade como colheita de tentativas

Gala preferia uma imagem mais modesta e realista. Definia a felicidade como "a cosecha de una larga siembra de tanteos", a colheita de uma longa semeadura de tentativas.

Nessa visão, a felicidade aparece durante uma sucessão de ensaios, sem que necessariamente a reconheçamos no momento exato em que ela está presente. Às vezes, explicava, só descobrimos que estivemos felizes quando o momento já passou.

E acrescentava algo menos reconfortante: "A felicidade é efímera porque nós a fazemos efímera". Não porque dure pouco por natureza, mas porque não sabemos nos instalar nela quando chega. Passamos ao largo sem perceber.

Os óculos que já estão no rosto

A conversa mudou de direção quando Quintero sugeriu que talvez demoremos demais para entender que a felicidade está dentro de nós.

Gala respondeu com uma comparação doméstica: "Buscar la felicidad es como buscar las gafas que se tienen puestas". Procurar a felicidade é como procurar os óculos que já estão no rosto.

"A felicidade está dentro e, se entrássemos dentro de nós, nos daríamos conta antes", continuou. Não falava de se transformar em outra pessoa. Falava justamente do contrário: complacer-se em si mesmo, não no que queremos ser, mas no que somos.

Conhecer as próprias fraquezas

O autoconhecimento, para Gala, não significava ficar apenas com o que nos agrada. Era preciso conhecer "nossas possibilidades, nossas forças, mas sobretudo nossas debilidades".

Essa inversão de prioridade marcava uma diferença importante. A maioria das pessoas busca felicidade cultivando apenas suas qualidades. Gala propunha o contrário: olhar de frente para os limites, para as fraquezas, para aquilo que não queremos admitir.

Só assim, segundo ele, seria possível encontrar aquela felicidade que vai "de dentro para fora", baseada em quem realmente somos e não em quem gostaríamos de ser.

A serenidade como nova prioridade

Naquela altura da vida, Antonio Gala havia mudado de objetivo. "Para mí ya es imprescindible otra cosa, que es la serenidad", afirmou.

A palavra poderia soar solene demais, e ele mesmo brincava com isso. Durante muito tempo, pensara que serenidade fosse "coisa de serenos", aqueles homens que antigamente percorriam as ruas anunciando as horas e abrindo portais.

Agora entendia de outra maneira. Ser sereno era sentir-se "como uma pequena tessela de um grande mosaico": pequena, prescindível e até confusa, mas situada em seu lugar e formando parte de algo muito maior. Não sabia exatamente o que era esse conjunto maior. Precisamente ali estava parte da ideia: aceitar ocupar um espaço limitado dentro de algo que não compreendemos por completo.

A insistência perigosa em ser feliz

Dez anos depois da conversa com Quintero, em março de 2001, Gala apresentou sua novela El imposible olvido. Durante o evento, voltou ao tema com ainda mais clareza.

"La gente se empeña en ser feliz, pero la felicidad es un concepto muy peligroso. Yo me he acostumbrado a la serenidad", declarou. A frase foi registrada pela agência Europa Press naquele mesmo dia.

Dois meses depois, em um encontro com leitores organizado pelo jornal El País, um participante perguntou por que o materialismo e o egoísmo pareciam avançar enquanto ninguém se ocupava de ser feliz. Gala respondeu que materialistas e egoístas também buscavam a felicidade, embora de forma equivocada.

Terminou com uma frase que deslocava a questão das coisas para as pessoas: "Não há verdadeiro progresso se não é progresso humano".

Deixar de perseguir para deixar chegar

As diferentes respostas de Antonio Gala ao longo dos anos não formam uma teoria perfeitamente ordenada. Na conversa com Quintero, podia dizer que o ser humano persegue naturalmente a felicidade e, pouco depois, reconhecer que ele mesmo havia deixado de buscá-la.

Entre ambas as coisas havia uma diferença sutil. Uma coisa era perguntar-se o que poderia fazer uma pessoa feliz. Outra, bem diferente, era converter a felicidade em obrigação.

Gala desconfiava especialmente dessa última postura. Por isso podia sustentar que a felicidade está dentro, pedir que conhecêssemos nossas forças e debilidades e, ao mesmo tempo, admitir que ele já não passava os dias tentando encontrá-la. Havia escolhido outra palavra: serenidade.

Antonio Gala morreu em 28 de maio de 2023 em Córdoba, cidade à qual esteve unido desde a infância e onde criou a fundação que leva seu nome. Tinha 92 anos. Havia nascido em Brazatortas, Ciudad Real, em 2 de outubro de 1930.

Mais de trinta anos antes, sentado diante de Jesús Quintero, havia reduzido boa parte de seu pensamento sobre a felicidade a algo bem menos grandioso que perseguir uma vida perfeita: conhecer-se, assumir as próprias debilidades e não passar a vida buscando desesperadamente aquilo que talvez chegue por sua própria conta.

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