Reflexão de Descartes sobre a dúvida: 'Se eu não penso, então percebo que devo existir, porque se eu não existo, eu não penso'
Esse distanciamento não é físico, mas mental: trata-se da capacidade de observar as próprias ações, crenças e automatismos como se fossem objetos externos. É nessa fresta entre viver e perceber que se vive que a reflexão filosófica encontra seu terreno fértil

O filósofo Darío Sztajnszrajber concedeu entrevista para LA NACION para discutir um tema que atravessa séculos: a relação entre pensamento e existência. Sua abordagem parte de uma inversão da máxima cartesiana que muitos conhecem de cor, mas poucos compreendem em profundidade.
"Se não penso, então me dou conta de que tenho que estar existindo, porque se eu não existo, não penso", afirmou o filósofo ao analisar René Descartes. Essa leitura transforma a dúvida metódica em ferramenta de validação da consciência: é o ato de pensar que confirma a presença do sujeito no mundo. A filosofia, segundo Sztajnszrajber, nasce justamente nesse movimento de distanciamento, quando o ser humano consegue observar a si mesmo em ação.
O que significa se distanciar de si mesmo para filosofar
Para o entrevistado, a origem da filosofia reside em um gesto específico de autoconsciência. "Esse momento, esse movimento onde o ser humano se distancia de si mesmo e se vê a si mesmo atuando, para mim dá origem à filosofia", explicou.
Esse distanciamento não é físico, mas mental: trata-se da capacidade de observar as próprias ações, crenças e automatismos como se fossem objetos externos. É nessa fresta entre viver e perceber que se vive que a reflexão filosófica encontra seu terreno fértil.
O movimento cria espaço para questionar aquilo que parece natural ou inevitável. Questionar não por rebeldia, mas por curiosidade genuína sobre os porquês que sustentam a existência cotidiana.
Por que a sociedade moderna prioriza o rendimento sobre outros valores
Sztajnszrajber identificou uma lógica dominante na existência contemporânea: a utilidade como medida de todas as coisas. Segundo ele, o ser humano moderno organiza a vida em função do rendimento e da rentabilidade, deixando outros aspectos em segundo plano.
"Gosto muitas vezes de me render, ao contrário, não estar em processo de ver quanto rendo, mas me render no sentido do que hoje muitas vezes se chama essa espécie de filosofia do escape, como tentar sair desses lugares comuns que estão permanentemente esperando de alguém que alguém renda", declarou o filósofo.
A reflexão propõe uma inversão: em vez de render mais, render-se. Render-se aqui significa escapar da cobrança constante de produtividade, permitindo-se existir fora dos padrões de eficiência que a sociedade impõe como únicos válidos.
Como a busca pela verdade se diferencia entre o cotidiano e a ontologia
O filósofo estabeleceu uma distinção importante entre tipos de verdade. "As verdades cotidianas, inclusive as verdades científicas, estão mais preocupadas com o como", observou durante a entrevista.
As verdades do dia a dia e da ciência se ocupam do funcionamento das coisas, dos mecanismos, dos processos. São verdades práticas, instrumentais, focadas em resolver problemas imediatos ou explicar fenômenos observáveis.
Já as verdades ontológicas investigam o ser, a essência, o porquê fundamental da existência. A filosofia habita esse segundo território, onde as perguntas não buscam soluções práticas, mas compreensão profunda da realidade e do lugar do humano nela.
O fenômeno da posverdade e a preferência por notícias que validam prejuízos
Sztajnszrajber abordou um problema contemporâneo que desafia a própria noção de verdade: a tendência de as pessoas escolherem informações que confirmem suas crenças prévias, ignorando fatos verificáveis que as contradigam.
Essa preferência choca diretamente com a definição aristotélica de verdade como correspondência entre linguagem e realidade. Na era da posverdade, o critério deixa de ser a verificação factual e passa a ser a coerência emocional ou ideológica.
O fenômeno revela uma inversão perigosa: em vez de ajustar as crenças aos fatos, ajustam-se os fatos às crenças. A filosofia, nesse contexto, funciona como antídoto ao oferecer ferramentas para examinar criticamente as próprias convicções.
Ataraxia e a rejeição das fórmulas prontas de felicidade
Ao discutir felicidade, o filósofo rejeitou as receitas padronizadas de bem-estar que proliferam na sociedade de consumo. Sua reflexão recupera o conceito epicurista de ataraxia: a tranquilidade de espírito como estado desejável.
Para Epicuro, a felicidade não está na acumulação de prazeres ou na conquista de objetivos externos, mas na ausência de perturbações. A ataraxia representa um refúgio contra as dependências que o mundo moderno cultiva, seja pelo consumo excessivo, seja pelo sobrecuidado obsessivo.
Essa perspectiva antiga oferece uma alternativa ao imperativo contemporâneo de felicidade como performance constante, conquista visível ou estado emocional permanentemente elevado.
A felicidade como realização do próprio desejo de saber
Sobre sua experiência pessoal, Sztajnszrajber compartilhou uma definição de felicidade ancorada na autenticidade. "Para mim a felicidade tem a ver com poder plasmar em minha vida meu desejo", afirmou.
Para ele, que faz filosofia como prática cotidiana, o desejo é desejo por conhecimento. A felicidade, portanto, não se encontra em fórmulas externas, mas na capacidade de viver em coerência com aquilo que genuinamente se deseja.
"Estar o tempo todo elucubrando aspectos que fazem à realidade. Me faz muito ruído como consumir a realidade tal como me a vendem", concluiu. A recusa em aceitar a realidade como produto pronto para consumo revela o gesto filosófico em sua forma mais essencial: a insistência em pensar por conta própria.
Questionar a realidade como forma superior de liberdade
A entrevista propôs uma visão da filosofia não como disciplina acadêmica distante, mas como prática de resistência cotidiana. Questionar a lógica da utilidade, examinar as próprias certezas e recusar as verdades pré-fabricadas são atos de liberdade.
A dúvida metódica de Descartes, relida por Sztajnszrajber, não é ceticismo paralisante. É ferramenta de emancipação: ao duvidar, o sujeito se reconhece pensante e, portanto, existente com autonomia.
Essa liberdade não promete conforto nem facilidade. Promete autenticidade: a possibilidade de viver uma vida examinada, consciente de seus fundamentos e aberta à constante revisão de caminhos e sentidos.
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