Almodóvar: 'As pessoas da indústria cinematográfica me olhavam como um intruso, assim como na minha aldeia, por ser uma criança diferente'
Pedro Almodóvar consolidado cineasta, diretor e ator, revela seus medos criativos, por que escreve só em aviões e critica a inteligência artificial; confira

Pedro Almodóvar escreve para combater o tempo. Com décadas de cinema nas costas e reconhecimento internacional consolidado, o diretor manchego encara sua primeira incursão na ficção literária de longo alento da mesma forma como começou no cinema: sem papas na língua e carregando uma liberdade que beira o desafio. Seu romance de estreia, El hombre que solo escribía en los aviones, chega às livrarias como mais uma arriscada pirueta numa carreira marcada pela heterodoxia.
Mas por trás da obra está um Almodóvar que poucos conhecem: inseguro, questionador, assombrado pela sensação de ser um impostor.
"Sempre me senti um pouco impostor em quase todas as coisas que fiz, porque não fui a uma academia estudar cine nem a escrever", confessa em entrevista. A sensação de não pertencer o acompanhou desde os primeiros filmes, quando os cineastas estabelecidos o encaravam com a mesma estranheza reservada ao menino diferente no interior.
"Os do cinema me olhavam como a um intruso, igual que no povoado por ser uma criança distinta", relembra.
Agora, ao publicar uma novela repleta de metaliteratura e autoficção, Almodóvar não apenas expõe suas próprias fragilidades criativas como questiona os limites entre experiência vivida e fabulação, entre o diretor consagrado e o escritor estreante que ainda duvida de si mesmo.
A solidão do escritor contra o cinema em equipe
Almodóvar conhece bem o cinema colaborativo. Décadas de trabalho ao lado de Alberto Iglesias na música, de atores como Antonio Banderas e Penélope Cruz, de equipes técnicas que tornam possível cada filme. Mas a literatura o colocou diante de um isolamento total.
"Estás totalmente sozinho", resume sobre o processo de escrita do romance. Enquanto no cinema ele pode dialogar com o compositor sobre cada nota descartada ou ajustar uma cena com os atores, na literatura não há essa rede de apoio imediata. A solidão da página em branco se torna ainda mais evidente quando você não tem a quem recorrer além de si mesmo.
O personagem que incluiu como consultor, o escritor Colm Tóibín, foi uma licença ficcional. "Aquilo não ocorreu", esclarece. Conhecia Tóibín e sua maestria sobre Henry James e Thomas Mann, mas só pediu autorização para usar seu nome depois de terminar a novela. A inserção do autor irlandês revela tanto a admiração de Almodóvar pela literatura quanto sua necessidade de preencher, ao menos ficcionalmente, o vazio de estar sozinho diante da criação.
Por que só nos aviões as palavras surgem
O título do livro não é metáfora. Almodóvar realmente escreve a maior parte de suas obras em voos comerciais, suspenso no ar entre um lugar e outro. "As primeiras três horas de voo me proporcionam uma concentração que não consigo em nenhum outro lugar porque não estás nem em um espaço nem em um tempo determinados", explica.
Essa suspensão literal se transforma em liberdade criativa. Sem os compromissos do chão, sem as interrupções do cotidiano, o diretor encontra nos aviões um estado mental único para desenvolver roteiros e narrativas. Muitas de suas películas foram concebidas nesses voos, e seus livros carregam anotações nas margens feitas a dez mil metros de altura.
A própria novela surgiu assim. Uma anécdota mínima, que não daria nem dez páginas, explodiu durante um voo. "Fez explodir algo dentro de mim, como se tivessem tirado uma rolha de uma tina e de repente começasse a fluir toda a narração", descreve. O protagonista Flavio, com suas múltiplas vocações frustradas, apareceu completo nesse momento de concentração aérea.
Quando os personagens mandam mais que o autor
Almodóvar não acredita em controle total sobre a criação. Tanto no cinema quanto na literatura, ele reconhece que personagens e histórias impõem suas próprias demandas. "Em qualquer disciplina de criação literária os personagens ou a própria história te pedem certas reações", afirma.
Em Dolor y gloria, o personagem interpretado por Antonio Banderas exigia que o diretor expusesse feridas pessoais que preferia manter guardadas. "Tive que decidir se estava disposto a expor todo aquilo tão pessoal que me doía", relembra. A decisão de seguir adiante, mesmo sabendo que depois precisaria falar sobre aquilo em entrevistas, mostra como a obra às vezes cobra seu preço em vulnerabilidade.
Na novela, o personagem de Flavio nasceu com uma característica fundamental: a modestia de quem tenta escrever sem se sentir capacitado. Essa insegurança não foi imposta por Almodóvar, mas surgiu naturalmente como parte essencial do personagem. "Essa modéstia do personagem é muito importante para a obra", reconhece o autor, que enxerga nela um reflexo de suas próprias dúvidas.
A inteligência artificial não tem alma para criar arte
Quando questionado sobre o futuro da criação diante da inteligência artificial, Almodóvar é categórico: a IA pode processar informações e gerar resultados sofisticados, mas lhe falta o ingrediente essencial para a arte verdadeira.
"A inteligência artificial não pode fazer Hable con ella porque não tem alma", sentencia.
A afirmação vem de quem levou quinze anos para amadurecer aquela história até que todos os elementos encaixassem. A IA, explica, sempre parte de algo preexistente e não tem esse tempo de gestação, essa capacidade de carregar uma ideia incompleta por anos até o momento certo.
Mas o tom de Almodóvar sobre a tecnologia não é apenas de defesa da arte: há preocupação real. Ele menciona ter lido que o Prêmio Nobel de Física advertiu sobre 1% de probabilidade de a IA nos destruir. "É aterrador", admite, especialmente quando as grandes empresas tecnológicas seguem investindo milhões sem freios. "Estamos em uma espécie de pré-apocalipse", conclui, ainda que sem perder a esperança de que a humanidade mude de rumo.
O escritor como um egoísta necessário
Há um momento crucial na película Amarga Navidad quando a secretaria, interpretada por Aitana Sánchez-Gijón, confronta o diretor no parque. A cena funciona como autocrítica brutal: mostra o criador como um "deusezinho que controla as vidas de quem o rodeia e depois as ficciona".
Almodóvar reconhece que o escritor opera num regime de egoísmo necessário. "Uma vez que tens uma ideia, a desenvolves venha de onde vier. Não pensas em absoluto em como o receberá a pessoa sobre a qual escreves", explica. A ética da criação entra em conflito direto com a ética das relações pessoais.
Essa tensão aparece tanto no cinema quanto na literatura. A cena do parque em Amarga Navidad nasceu de um fato real muito doloroso e próximo, que Almodóvar inseriu sem pensar nas consequências para a pessoa envolvida. "Longe de sentir que estava me expondo, me divertia", admite sobre o processo de questionar a si mesmo através da personagem. O experimento de fazer os personagens dialogarem com o autor foi algo que ele nunca tinha visto no cinema.
Estados Unidos desaparece no futuro distópico de 2099
Dentro da novela há uma história distópica inspirada em Blade Runner, ambientada em 2099. Almodóvar se deu "o gosto de fazer desaparecer os Estados Unidos" nessa narrativa futurista. Foi, nas suas palavras, "como uma vingança".
A história foi escrita em camadas ao longo de décadas. A última parte surgiu por volta do ano 2000, quando o irmão de Almodóvar o apresentou aos conceitos de transgênese durante a pesquisa para La piel que habito. A ideia de que a ciência pudesse criar um novo ser humano revolucionou sua visão de futuro.
Curiosamente, os robôs dessa distopia são melhores que os humanos, uma visão pessimista sobre nossa espécie. Almodóvar inicialmente não tinha certeza do valor desse relato dentro da novela, mas ao gravar o audiolivro e dirigir a interpretação como se fosse uma película, descobriu o quanto a história era divertida. Agora pensa em adaptá-la para teatro com cenários filmados, formato mais acessível que o cinema para uma obra de ficção científica.
Das plataformas de streaming e a segunda tela
Almodóvar reconhece que as plataformas criaram infraestrutura audiovisual robusta na Espanha, mas critica duramente como interferem na criação. "Eu não suportaria que estivessem me dando apontamentos sobre o caminho que deve levar uma trama", afirma.
Mas há algo ainda mais preocupante: o conceito de "segunda tela". As plataformas contam com espectadores olhando o celular durante filmes e séries, o que leva diretores a repetirem informações importantes várias vezes. "Se nota tanto", lamenta Almodóvar, que ouviu o relato diretamente de um diretor que trabalhou sob essas exigências.
Esse fenômeno altera a natureza da narrativa audiovisual. O que antes era construído com confiança na atenção do público agora precisa ser redundante para compensar a distração planejada. Para Almodóvar, que dedicou a vida ao cinema como linguagem precisa e controlada, essa adaptação à segunda tela representa uma distopia tão concreta quanto qualquer ficção científica.
Lobos solitários no cinema, amizades na literatura
Quando Santiago Lorenzo abandonou o cinema pela literatura, disse ter encontrado gente melhor no mundo editorial. Almodóvar reconhece a solidão estrutural do ofício de cineasta. "No cinema somos lobos estepários, cada diretor vai ao seu", confirma.
As relações entre diretores na Espanha sempre foram escassas. Nos anos 80, Almodóvar conhecia Trueba, Méndez Leite e também Gonzalo Suárez, que era seu amigo apesar da diferença de idade. Mas o companheiro mais próximo era Iván Zulueta. "Éramos dois raros", explica sobre essa conexão especial. Eles se reconheciam como estranhos num ambiente que os encarava com desconfiança.
A sensação de ser intruso acompanhou Almodóvar até Mujeres al borde de un ataque de nervios, seu sétimo filme. Só depois desse sucesso comercial ele foi aceito como "um a mais" pela indústria. Antes disso, mesmo dedicando 24 horas por dia ao cinema, era visto com a mesma estranheza reservada à criança diferente no povoado. Hoje mantém mais amizades com atores que com diretores, e tem em Álex de la Iglesia uma das raras exceções de colega próximo.
Censura à vista se a direita vencer
Almodóvar se esforça para acordar otimista e animar as pessoas a votar, mas teme que as direitas estejam muito fortes. "A ideia me aterra absolutamente", confessa. Em Castilla y León, onde já existe coalizão PP-Vox, surgiu recentemente uma medida que ele só pode chamar de censura, embora usem outro nome.
A proposta é não ajudar economicamente películas que "adoutrinam". E a quais filmes se referem? "Que tenham uma ideologia, claro", ironiza Almodóvar. Para ele, trata-se de censura disfarçada de critério técnico.
Mas sua resposta é de resistência: "Se chegam estes haverá censura. Outra coisa é que os demais nos a saltemos. Que é o que há que fazer, claro". A frase resume décadas de experiência criativa contra corrente. Almodóvar começou fazendo filmes provocadores sob os últimos anos do franquismo e na transição democrática. Se for necessário, sabe como criar arte mesmo quando as portas oficiais se fecham.



