A cidade romana que passou séculos enterrada e hoje recebe 10 mil visitantes
Descubra como Regina Turdulorum, sepultada por gerações sob terras de labrança em Extremadura, voltou à vida com um teatro capaz de levar o público de volta ao passado

Durante gerações, os moradores de Casas de Reina conviveram com muros monumentais e restos de concreto sem saber exatamente o que aquilo significava. Eles chamavam o lugar de "Los Paredones" por causa das ruínas que se erguiam no meio das terras de cereais.
Só décadas mais tarde as escavações revelaram a verdade: ali estava Regina Turdulorum, uma cidade romana fundada há mais de 2 mil anos pelo povo prerromano dos Túrdulos. Hoje, o sítio arqueológico atrai mais de 10 mil espectadores a cada verão para apresentações de teatro clássico no mesmo palco onde romanos se reuniam há dois milênios.
O passado oculto sob terras de labrança
Regina Turdulorum foi fundada há mais de 2 mil anos como a cidade dos Túrdulos, um povo prerromano que habitava a região. O sítio se localiza em um antigo trecho de calzada que conectava Mérida e Sevilla, na planície junto à fronteira natural que a Sierra Morena traça com a Andaluzia.
Por séculos, o local permaneceu sepultado. As ruínas conhecidas como "Los Paredones" chamavam a atenção de estudiosos e viajantes antigos, mas sua verdadeira natureza permanecia misteriosa. Esses muros correspondiam à jaula do teatro romano, embora isso só fosse descoberto bem mais tarde.
A localidade de Casas de Reina, hoje com apenas 200 habitantes, guarda esse tesouro arqueológico a poucos quilômetros de seu núcleo urbano.
Como as escavações revelaram a cidade perdida
As investigações metódicas começaram com o trabalho de Mariano del Amo, conduzido sob a direção de José María Álvarez e sua equipe. O processo de descoberta foi favorecido por uma condição rara: como o sítio ficou em área despovoada, a cidade não foi alterada por construções posteriores.
Isso não significa que Regina tenha permanecido intocada. Durante séculos, o conjunto serviu como cantera de materiais e fonte de cal para os povoados dos arredores. Moradores retiravam pedras e hormigão das ruínas para suas próprias construções, sem imaginar o valor histórico do que desmantelavam.
As escavações sistemáticas finalmente trouxeram à luz um dos teatros romanos mais bem preservados da península ibérica, transformando o antigo mistério de "Los Paredones" em patrimônio reconhecido.
A arquitetura do teatro que atravessou milênios
O teatro é o edifício mais bem conservado do sítio arqueológico. Sua arquibancada semicircular, orquestra e cena decorada arquitetonicamente impressionam pela preservação. Com capacidade original para até mil pessoas por apresentação, o espaço organizava o público em 10 filas de gradas.
Quatro vomitórios serviam como entradas para os espectadores. O proscaenium permanece generosamente conservado, e junto ao pulpitum ainda é possível distinguir os pedestais e as caixas do aulaeum, o telão que encobria a cena.
Embora não haja consenso absoluto sobre sua datação, alguns especialistas situam sua construção em meados do século I d.C., enquanto outros a datam da época Flávia, 20 a 50 anos mais tarde. Independentemente da data exata, a estrutura resiste como testemunha viva de práticas culturais milenares.
O reconhecimento oficial como patrimônio protegido
Séculos após servir como fonte de materiais de construção, Regina Turdulorum recebeu proteção legal. Em 2012, o conjunto foi declarado Bem de Interesse Cultural, dotando Casas de Reina de reconhecimento patrimonial formal.
Essa classificação posiciona o sítio arqueológico entre os pontos obrigatórios de qualquer itinerário romano pela Extremadura. A declaração representa não apenas o reconhecimento da importância histórica do local, mas também a garantia de preservação para as gerações futuras.
O estatuto protege tanto o teatro quanto o foro, assegurando que as estruturas que sobreviveram a dois milênios continuem acessíveis ao público e aos pesquisadores.
Quando o teatro romano volta a receber espectadores
A cada verão, o teatro de Regina revive sua função original. Mais de 10 mil espectadores passam pelas suas arquibancadas antigas ao longo da temporada estival para assistir a representações e concertos que transportam o público ao passado sem sair do presente.
Dois eventos culturais animam o calendário anual: o Festival de Teatro de Regina e o ciclo amador Noches de Regina. Ambos aproveitam a acústica natural e a atmosfera única do espaço milenar para apresentações de teatro clássico.
Sentar-se nas mesmas gradas onde romanos se acomodavam há 2 mil anos cria uma experiência temporal singular. Após séculos servindo como pedreira e permanecendo abandonado, o teatro reassumiu seu papel como palco vivo, demonstrando como estruturas históricas podem recuperar sua vocação original através de iniciativas culturais contemporâneas.
A Rádio de Minas. Tudo sobre o futebol mineiro, política, economia e informações de todo o Estado. A Itatiaia dá notícia de tudo.



