Itatiaia

Onde você vive pode acelerar o envelhecimento do cérebro, aponta estudo

Pesquisa publicada na revista Nature Medicine revela que fatores ambientais, sociais e políticos têm impacto maior que a genética na saúde cerebral

Por
pessoa na cidade populacao capital
Freepik

Viver em determinados lugares pode fazer o cérebro envelhecer mais rápido ou mais devagar. É o que indica um estudo internacional que analisou quase 19 mil pessoas em 34 países e concluiu que o ambiente em que alguém vive tem um papel decisivo na saúde do cérebro ao longo da vida.

A pesquisa mostra que o envelhecimento cerebral não depende apenas da genética ou de doenças. Elementos como qualidade do ar, acesso a áreas verdes, desigualdade social e até a força das instituições democráticas influenciam diretamente esse processo.

O trabalho foi conduzido por cientistas de instituições da América Latina e dos Estados Unidos, incluindo centros de pesquisa no Chile, Argentina e a Universidade da Califórnia em San Francisco. Os resultados foram publicados na revista científica Nature Medicine.

Segundo os pesquisadores, o conjunto de fatores ambientais, sociais e políticos acumulados ao longo da vida tem um impacto muito maior do que qualquer fator isolado. "A soma dessas exposições exerce uma influência muito mais forte do que elementos individuais", explicou o cientista argentino Agustín Ibañez, um dos autores do estudo.

A análise reforça que políticas públicas e condições sociais podem ser tão importantes quanto a biologia na prevenção de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.

O que o estudo avaliou

Para entender como o ambiente influencia o cérebro, os cientistas utilizaram o conceito de 'exposoma', que reúne todas as exposições que uma pessoa enfrenta desde o nascimento, incluindo fatores ambientais, sociais e políticos.

Diferente de pesquisas anteriores, que analisavam apenas um aspecto, como poluição ou pobreza, este estudo reuniu dados amplos de diferentes regiões do mundo e cruzou múltiplas variáveis.

Foram avaliados 73 indicadores, como qualidade do ar e da água, clima, acesso a espaços verdes, desigualdade econômica, pobreza, participação da população na vida pública e estabilidade das instituições democráticas.

Com o uso de exames de imagem cerebral, os pesquisadores calcularam a idade biológica do cérebro e compararam com a idade real das pessoas.

Principais descobertas

Os resultados mostram que a combinação desses fatores pode explicar até 15 vezes mais as variações no envelhecimento cerebral do que qualquer fator isolado.

Entre os principais pontos identificados:

  • Ambientes com alta poluição e pouca área verde estão ligados ao envelhecimento estrutural do cérebro, especialmente em regiões relacionadas à memória e às emoções
  • Problemas sociais, como pobreza e baixa participação cidadã, afetam áreas ligadas ao autocontrole e à interação social
  • A carga total do exposoma pode aumentar entre 3,3 e 9,1 vezes o risco de envelhecimento cerebral acelerado

Esses efeitos foram observados tanto em pessoas saudáveis quanto naquelas com doenças como Alzheimer e demência frontotemporal.

Entre os fatores mais associados ao envelhecimento acelerado estão a pobreza multidimensional, a poluição elevada, o acesso limitado a áreas verdes, extremos climáticos e instituições democráticas frágeis.

Mesmo após considerar fatores como renda e nível de escolaridade, o impacto do ambiente continuou significativo.

Limitações

Os próprios autores reconhecem limitações no estudo. Um dos desafios é que os dados foram analisados em nível de país, o que pode esconder diferenças importantes dentro de uma mesma região.

Além disso, grande parte da análise foi feita em um único momento, o que dificulta entender como o ambiente influencia o cérebro ao longo do tempo. Apenas uma pequena parcela dos participantes foi acompanhada por mais tempo.

O que os resultados indicam

Para os cientistas, os resultados indicam que cuidar da saúde do cérebro vai muito além de hábitos individuais.

"Não podemos mais pensar em um único fator de risco. As adversidades se combinam e se reforçam", afirmou Ibañez. Ele destaca que ainda não é possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito, mas as evidências já apontam caminhos importantes.

Segundo o pesquisador, políticas públicas precisam integrar diferentes áreas, como saúde, meio ambiente, educação e desenvolvimento social.

Ele também faz um alerta. "Não basta recomendar exercício físico ou alimentação saudável se as pessoas vivem em ambientes marcados pela desigualdade ou pela fragilidade institucional. A prevenção da demência exige uma abordagem mais ampla".

A principal conclusão do estudo é clara. O lugar onde se vive não é apenas um detalhe. Ele pode ser determinante para a forma como o cérebro envelhece.

Por

Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.