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Estudo revela rede de desinformação antivacina no Telegram no Brasil

Análise de 4 milhões de postagens aponta estratégia organizada e uso de robôs na disseminação

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Telegram está autorizado a funcionar, mas multa é mantida
Telegram está autorizado a funcionar, mas multa é mantida • Christian Wiediger/Unsplash

Um levantamento conduzido por pesquisadores do Laboratório de Inteligência Artificial Recod.ai, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), identificou a ampla circulação de desinformação antivacina no Telegram no Brasil. O estudo analisou cerca de quatro milhões de postagens publicadas entre janeiro de 2020 e junho de 2025.

O material inclui 1,4 milhão de arquivos, como imagens, vídeos, áudios e enquetes, compartilhados em 119 grupos da plataforma. Ao todo, 407,7 mil mensagens foram classificadas como conteúdo antivacina, o equivalente a 10,2% do total analisado.

Segundo os pesquisadores, há uma estrutura organizada de disseminação de desinformação dentro do aplicativo. “Nós fizemos uma análise e conseguimos identificar que existem canais que só disseminam desinformação, outros que apenas a compartilham, e os que fazem as duas coisas. Existe uma estratégia por trás disso”, afirmou Leopoldo Lusquino Filho, colaborador do projeto.

O estudo também aponta a presença de contas automatizadas no compartilhamento de conteúdos. “É possível perceber também que há muitas mensagens compartilhadas por robôs”, acrescentou o pesquisador. De acordo com a equipe, fatores externos influenciam diretamente a circulação dessas narrativas. “Eventos externos, como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, geram um efeito dominó nessas redes”, disse Lusquino Filho.

A análise indica ainda que o cenário pode se intensificar em 2026, ano eleitoral no Brasil. “Tivemos contato com outras agências de verificação de informações e elas confirmaram que nunca houve uma quantidade tão grande de desinformação política quanto neste ano”, destacou. Para a doutoranda Michelle Diniz Lopes, integrante do estudo, a desinformação está associada a diferentes perfis e motivações. “Identificamos diversos nichos: o da desconfiança institucional, crenças injustificadas, visão de mundo e política, preocupações religiosas e fobias”, afirmou.

Além disso, os pesquisadores observaram que o conteúdo enganoso evolui de acordo com o engajamento dos usuários. “O tipo de comunicação que sobrevive, ganha força e se propaga nesse meio tem muita semelhança com os mecanismos de seleção natural que vemos na natureza”, explicou Lusquino Filho. O estudo também destaca os impactos concretos da desinformação na saúde pública, como a queda da cobertura vacinal no país. Segundo os pesquisadores, narrativas falsas passaram a influenciar decisões individuais e políticas públicas.

Como resultado, foi criado um banco de dados aberto, com 5,5 terabytes de informações, disponibilizado para pesquisadores e instituições públicas. A ferramenta deve auxiliar no desenvolvimento de estratégias para combater a desinformação e a hesitação vacinal. “A principal ideia é entender os padrões da infodemia para reconstruir o diálogo e a confiança com pessoas afetadas por narrativas falsas”, aponta o material de divulgação do projeto.

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