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Em quais casos a tirzepatida pode ser indicada para adolescentes

Entenda quando o medicamento é autorizado para jovens de 10 a 17 anos, exclusivamente no tratamento do diabetes tipo 2

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Tirzepatida, usada para emagrecimento e diabetes, seria revendida ilegalmente em Brasília
Tirzepatida • PMrV/ Divulgação

A obesidade infantil no Brasil disparou 1215% nos últimos anos. De 74.972 adolescentes com obesidade em 2009, o país saltou para 986.058 casos em 2025, segundo dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan). Esse crescimento explosivo traz consigo outra preocupação: o diabetes tipo 2 entre jovens.

Em abril, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou pela primeira vez no Brasil o uso de tirzepatida — princípio ativo do Mounjaro — para adolescentes de 10 a 17 anos. A indicação é exclusiva e restrita: controle do diabetes tipo 2. O medicamento se tornou o primeiro da classe dos agonistas duplos dos receptores de GIP e GLP-1 liberado para essa faixa etária no país.

O que é a tirzepatida e como ela atua no organismo

A tirzepatida pertence a uma nova classe de medicamentos que ativam simultaneamente dois tipos de receptores hormonais: GIP e GLP-1. Essas siglas representam hormônios intestinais que desempenham papel fundamental no controle da glicose sanguínea e na produção de insulina.

Ao ativar esses receptores de forma combinada, o medicamento promove melhora nos índices glicêmicos. Também reduz a resistência à insulina, um dos principais problemas enfrentados por pacientes com diabetes tipo 2.

Por que o diabetes tipo 2 avança entre adolescentes brasileiros

O crescimento do diabetes tipo 2 na população jovem acompanha diretamente a epidemia de obesidade infantil. Diferentemente do tipo 1, que possui origem autoimune, o tipo 2 está intimamente ligado aos hábitos de vida.

Segundo estudo publicado em 2019 no periódico Pediatric Diabetes, que analisou dados de 37,8 mil estudantes brasileiros entre 12 e 17 anos, havia aproximadamente 213 mil adolescentes com diabetes tipo 2 no Brasil. Além disso, 1,4 milhão de jovens apresentavam pré-diabetes.

Sedentarismo, consumo elevado de alimentos ultraprocessados, alterações nos padrões de sono e predisposição genética estão entre os principais fatores associados ao avanço dessa condição na faixa etária pediátrica.

Quando a tirzepatida é indicada para jovens

A autorização da Anvisa estabelece critérios específicos para o uso do medicamento em adolescentes. A indicação se restringe ao tratamento do diabetes tipo 2 em pacientes com idade entre 10 e 17 anos.

Segundo a endocrinologista Maria Edna de Melo, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), "trata-se de uma medicação revolucionária para crianças e adolescentes com essa doença, público que apresenta complicações de forma mais intensa e precoce".

Por isso, ela ressalta a importância de um tratamento eficiente e iniciado precocemente. Entretanto, existe uma diferença fundamental em relação ao uso em adultos: o medicamento não é autorizado para emagrecimento em nenhuma circunstância na população pediátrica, pois não existem estudos científicos com essa finalidade para esse grupo.

Evidências científicas que embasaram a aprovação

A decisão da Anvisa baseou-se em estudos clínicos que avaliaram tanto a eficácia quanto a segurança da tirzepatida em adolescentes. Um dos principais trabalhos foi publicado em 2025 na revista científica The Lancet.

A pesquisa acompanhou 99 participantes com idade média de 14,7 anos em oito países diferentes. Todos os jovens já faziam uso de insulina ou metformina para tratar o diabetes antes do início do estudo.

Os participantes foram divididos em três grupos: dois receberam diferentes dosagens de tirzepatida e um terceiro tomou placebo. Após 33 semanas de tratamento, os pesquisadores identificaram melhora significativa nos níveis de glicemia e redução do índice de massa corporal (IMC) entre os adolescentes tratados com o medicamento.

Os resultados permaneceram consistentes após um ano de acompanhamento, tanto nos níveis de glicemia quanto na redução do IMC.

Efeitos colaterais e situações de risco

Os efeitos adversos observados em pacientes pediátricos são semelhantes aos relatados em adultos. Segundo o pediatra Claudio Reingenheim, do Einstein Hospital Israelita, os mais comuns são sintomas gastrointestinais.

Náuseas, vômitos, constipação e diarreia aparecem com frequência durante o tratamento. Episódios de hipoglicemia também podem acontecer e exigem monitoramento constante.

Problemas relacionados ao pâncreas e à vesícula biliar representam preocupações adicionais. Por isso, podem demandar realização de exames com maior frequência para acompanhamento.

Uma questão importante afeta especificamente adolescentes do sexo feminino: a substância diminui a eficácia de contraceptivos orais. Conforme alerta Reingenheim, "as adolescentes devem ser orientadas a usar outro método de contracepção".

Contraindicações absolutas para o uso do medicamento

Existem situações em que o uso da tirzepatida é totalmente proibido. O medicamento não pode ser administrado em pessoas com alergia à substância ou a qualquer componente da fórmula.

Pacientes com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide também estão impedidos de usar a medicação. Esse tipo raro de câncer representa uma contraindicação absoluta.

A neoplasia endócrina múltipla tipo 2, doença genética que envolve tumores nas glândulas endócrinas, também impede o uso do tratamento.

Acompanhamento médico e individualização do tratamento

O tratamento de crianças e adolescentes demanda cuidados ainda mais rigorosos que o de adultos. A fase de crescimento, o desenvolvimento hormonal e o impacto metabólico tornam o acompanhamento mais delicado.

Segundo Maria Edna de Melo, "o tratamento deve ser individualizado, escalonando a aplicação de acordo com tolerabilidade e necessidade do paciente, respeitando cada caso para não ficar intolerante, acompanhado de perto por um médico".

A dosagem precisa ser ajustada gradualmente, levando em conta a resposta individual de cada jovem. O objetivo é evitar intolerância ao medicamento e garantir que os benefícios superem os riscos em cada situação específica.

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