Itatiaia

Caso Lito Sousa: quando testes genéticos ajudam no diagnóstico doenças raras

Especialista em aviação foi diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ)

Por
Lito Sousa foi diagnosticado com Creutzfeldt-Jakob
Lito Sousa foi diagnosticado com Creutzfeldt-Jakob • Reprodução | Redes sociais

O diagnóstico do influenciador e especialista em aviação Lito Sousa com a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma condição neurológica rara e de rápida progressão, reacendeu o debate sobre o papel dos testes genéticos na identificação de doenças raras.

Entre os questionamentos levantados pelo caso está a possibilidade de um mapeamento genético antecipar a descoberta da doença e, eventualmente, abrir caminhos para impedir sua progressão. Especialistas, no entanto, alertam que a resposta depende da condição investigada e que conhecer uma alteração no DNA não significa, necessariamente, prever o futuro ou garantir um tratamento.

No caso da DCJ, causada pelo acúmulo anormal de proteínas priônicas no cérebro, apenas uma parcela menor dos casos tem origem hereditária.

Segundo Jorge Ferreira, professor da FAMINAS e doutor em Biologia Celular e Molecular, cerca de 85% dos casos são esporádicos, ou seja, não têm causa atualmente conhecida ou histórico familiar. Em situações menos frequentes, até 15% dos casos podem ter origem hereditária, associada a alterações no gene PRNP, responsável pela produção da proteína priônica.

"No caso de um paciente com DCJ, a investigação do PRNP pode ajudar a determinar se existe uma variante patogênica hereditária e, consequentemente, se há implicações para seus familiares", explica o especialista.

Quando uma variante hereditária é identificada, cada filho pode ter 50% de chance de herdá-la. Isso, porém, não significa necessariamente que a pessoa desenvolverá a doença. O risco também depende do tipo de variante e de sua penetrância.

Por isso, segundo Jorge Ferreira, o caminho indicado é primeiro investigar o paciente e, diante de um resultado positivo, oferecer aconselhamento genético aos familiares. Até o momento, as informações divulgadas sobre o caso de Lito Sousa não indicam se foi identificada uma variante hereditária.

Exame genético já é ofertado pelo SUS

A discussão acontece em meio à ampliação do diagnóstico genético no sistema público de saúde brasileiro. Incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) em 2019 para casos de deficiência intelectual de causa indeterminada e incluído na tabela de procedimentos em 2020, o Sequenciamento Completo do Exoma ganhou, em 2026, uma iniciativa específica do Ministério da Saúde para ampliar o acesso ao diagnóstico de doenças raras.

O exoma reúne regiões dos genes que carregam informações utilizadas na produção de proteínas — justamente onde estão muitas das alterações já conhecidas por causar doenças genéticas.

"O Sequenciamento Completo do Exoma permite analisar milhares de genes simultaneamente em busca de variantes que possam explicar uma determinada condição clínica. Isso é muito diferente de procurar uma alteração específica em um único gene: nós ampliamos bastante a investigação e, por isso, o exame é especialmente interessante quando o quadro do paciente pode ter diferentes causas genéticas", detalha Jorge Ferreira.

A tecnologia pode fazer diferença principalmente para pacientes que passam por sucessivos exames sem conseguir descobrir a origem de uma condição.

"Muitas doenças raras apresentam sintomas semelhantes entre si e, ao mesmo tempo, uma mesma manifestação clínica pode ser causada por alterações em genes completamente diferentes. Se investigarmos um gene de cada vez, esse processo pode ser demorado, caro e, muitas vezes, inconclusivo", acrescenta o professor.

Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 13 milhões de brasileiros convivem com alguma doença rara, e aproximadamente 70% dessas condições têm origem genética.

De acordo com uma estimativa apresentada pela pasta em fevereiro deste ano, a ampliação do sequenciamento do exoma no SUS tem capacidade prevista para atender até 20 mil demandas por ano e reduzir o tempo de espera pelo diagnóstico — que pode chegar a sete anos — para aproximadamente seis meses.

Apesar de ser oferecido gratuitamente ao paciente, o exame não está disponível para quem simplesmente deseja conhecer o próprio DNA. A solicitação segue critérios clínicos e um fluxo dentro dos serviços especializados em doenças raras.

Qual exame é indicado para cada caso?

No caso específico da doença de Creutzfeldt-Jakob, o sequenciamento completo do exoma não é, necessariamente, o exame mais indicado.

"O exame ideal depende da pergunta clínica: nem todo paciente precisa de um exoma. Em algumas situações, investigar um gene específico, um painel de genes ou alterações cromossômicas pode ser mais adequado", esclarece o professor.

Para investigar uma possível origem hereditária da DCJ, por exemplo, a análise pode ser direcionada ao gene PRNP, relacionado à produção da proteína priônica.

Conhecer uma alteração genética não significa prever o futuro

O diagnóstico de Lito Sousa também colocou em evidência pesquisas experimentais que buscam reduzir a produção da proteína priônica. O ION717 e o estudo PRiSM trabalham com estratégias diferentes sobre o RNA para diminuir a produção dessa proteína, mas ambos permanecem em fase experimental e ainda não tiveram segurança e eficácia comprovadas.

O Ministério da Saúde informou que solicitou formalmente a avaliação de Lito para participação no PRiSM. A entrada na triagem, no entanto, não garante o acesso ao tratamento.

"São abordagens ainda experimentais, sem eficácia clínica estabelecida, mas que mostram como conhecer a base molecular da doença pode ser importante não apenas para compreender sua origem, também para o desenvolvimento de futuras terapias", afirma Jorge Ferreira.

A mesma cautela vale para os testes genéticos de forma geral. Uma alteração pode confirmar a causa de determinada doença, indicar apenas um risco aumentado ou, ainda, resultar na identificação de uma variante cujo significado não é conhecido.

"Isso é muito importante: predisposição genética não significa destino", reforça o especialista.

Os testes genéticos, portanto, não permitem prever o desenvolvimento de qualquer doença nem garantem a existência de um tratamento. No caso da DCJ, a investigação pode esclarecer se existe uma forma hereditária e orientar familiares. Em outras doenças raras, o sequenciamento do exoma pode ampliar a busca pela causa quando há indicação clínica.

"Por isso, eu sempre reforço que um teste genético não deve ser interpretado isoladamente. O valor do exame está na associação entre o achado molecular, a história clínica, a história familiar e a interpretação de profissionais capacitados", conclui.

Por

André Viana é jornalista, formado pela PUC-MG. Já trabalhou como redator e revisor de textos, produtor de pautas e conteúdos para rádio e TV, social media, além de uma temporada no marketing.

 

 

Belo Horizonte