Kaká Chazz e Milton Nascimento: uma travessia feita de arte
No Centro de Belo Horizonte, mural de 1.600 m² dedicado a Bituca reúne a trajetória de Kaká Chazz, a memória de Minas e histórias que começaram muito antes de chegar à parede

A primeira reação de Kaká Chazz diante da parede de 1.600 metros quadrados que receberia o rosto de Milton Nascimento foi um frio na barriga. O artista mineiro estava prestes a realizar um projeto imaginado anos antes. A dimensão da pintura impressionava, mas havia algo maior naquela parede: uma história que começara muito longe dali, em Três Pontas, no Sul de Minas.
Foi naquela cidade que Kaká cresceu, em uma comunidade periférica, cercado pela música de Milton. As canções de Bituca estavam nas apresentações escolares, nas formaturas e nas lembranças de uma infância em que desenhar já ocupava um lugar importante. Filho de um escultor, Kaká acredita que a arte também lhe chegou como herança. O menino cresceu, mas, como ele mesmo diz, continua vivendo dentro do artista.

Em 2011, decidiu deixar o emprego formal para fazer da arte uma profissão. O primeiro contato com a arte urbana havia acontecido por meio de revistas, onde conheceu os trabalhos de Binho e Os Gêmeos. Depois vieram as ruas, os murais e uma pesquisa cada vez mais próxima das culturas e tradições populares.
Sempre apreciei o trabalho de Kaká e, ao longo de nossa amizade e dos encontros que tivemos, acompanhei um pouco desse caminho. Tenho em casa uma de suas sementes, elemento que se tornou uma de suas marcas. Gosto de pensar que aquela pequena obra também guarda algo dessa convivência. A arte às vezes faz isso: deixa de pertencer somente a quem a criou e passa a carregar histórias de quem a encontrou pelo caminho.
Da semente às ruas de Belo Horizonte
A semente é uma imagem especialmente interessante quando se observa a trajetória de Kaká. Seu trabalho cresceu, ganhou cidades e dimensões diferentes, mas continuou ligado às origens. Na Avenida Álvares Cabral, no Centro de Belo Horizonte, essa história alcançou agora uma de suas maiores escalas.
O mural Sou do Mundo, Sou Minas Gerais ocupa aproximadamente 1.600 metros quadrados e apresenta Milton Nascimento em dois momentos da vida. Mais do que construir um grande retrato, Kaká quis representar uma travessia.
Uma travessia entre Três Pontas e Belo Horizonte
A ideia começou a tomar forma anos antes. Seu desejo era produzir duas homenagens a Bituca, uma em Três Pontas e outra em Belo Horizonte. As duas cidades são fundamentais na trajetória de Milton e, para Kaká, estabelecem uma ponte entre o interior e a capital. A primeira pintura foi realizada em 2025, em Três Pontas, e chegou ao conhecimento do cantor. Saber que Milton havia gostado da homenagem trouxe ao artista, segundo ele, um sentimento de missão cumprida.
Ainda faltava Belo Horizonte.
O impulso para a nova obra veio depois que Kaká assistiu, em São Paulo, ao penúltimo show da última turnê de Milton. Ver Bituca no palco, entregando sua música depois de uma vida dedicada à arte, despertou nele a vontade de levar aquela homenagem para uma empena da capital mineira.
A ideia encontrou em Roger Dee o caminho para sair do papel. Ele participou da curadoria e da articulação da empena, apresentou o projeto a Augusto Nascimento e a proposta chegou à Fábrica de Graffiti. Para Kaká, havia também uma conquista particular naquele processo: seria sua primeira empena.
Diante de uma parede daquela dimensão, entusiasmo e responsabilidade caminhavam juntos.
Kaká dedicou aproximadamente um mês exclusivamente ao estudo da obra. Criou sete projetos até chegar à composição escolhida. O desafio técnico não estava apenas em ampliar o desenho, mas em preservar as expressões de uma pessoa real. Para isso, utilizou o grid orgânico e contou, nas dúvidas da execução, com a experiência dos artistas Barke e Asher.
Mas é quando se afasta alguns metros da parede que a ideia central começa a aparecer.
De um lado está o jovem Milton, em fotografia de Cafi. Em outro momento, Bituca surge com o manto e a sanfona. O instrumento não foi escolhido por acaso: segundo Kaká, foi o primeiro tocado por Milton ainda criança.
Entre os dois rostos existe aquilo que nenhuma pintura conseguiria representar por inteiro.
Uma vida.
Kaká chama esse espaço de travessia. As duas imagens marcam pontos distintos de uma história preenchida pela música, pelos encontros, pelas cidades e pelas escolhas de Milton.
Os símbolos escondidos no mural
Os detalhes ampliam essa narrativa. No manto aparecem palavras como sertão, fé, povo, sonho e interior. Uma carranca remete ao Rio São Francisco e à tradição popular. O Cerrado, sua fauna e flora, o barroco mineiro e referências às pesquisas que Kaká realizou sobre nomes como Aleijadinho e Guimarães Rosa também ajudam a formar sua linguagem.
Há ainda andorinhas.
Elas escondem uma mensagem relacionada ao título Sou do Mundo, Sou Minas Gerais. Kaká prefere não revelar seu significado. Algumas coisas talvez precisem continuar escondidas para que cada pessoa tenha o prazer de encontrá-las.
Foi justamente a reação de uma desconhecida que marcou um dos últimos momentos da execução. Uma senhora olhou para o mural pronto, chorou e disse que a obra a emocionava. Kaká viu naquela reação algo que conhece também como espectador da música de Milton: a capacidade da arte de alcançar lugares que o próprio artista não controla.
Talvez esteja aí uma das razões pelas quais esse encontro entre Kaká e Bituca pareça tão natural.
Os dois compartilham Três Pontas como território de formação, embora tenham seguido caminhos, épocas e linguagens completamente diferentes. Kaká reconhece que crescer no mesmo lugar de Milton o ajudou a acreditar que também era possível construir uma trajetória artística vindo do interior.
Existe algo bonito nessa percepção porque ela não fala apenas sobre chegar a algum lugar. Fala sobre não precisar abandonar de onde se veio.
Quando observo o trabalho de Kaká, é justamente essa permanência que mais me chama a atenção. As dimensões mudaram. A pequena semente que tenho em casa e a gigantesca empena da Álvares Cabral parecem pertencer a universos distantes, mas existe entre elas uma mesma preocupação com território, memória e preservação.
No mural, Kaká deixou dois Miltons separados pelo tempo. Entre eles está uma história que pertence a Bituca, mas que também se mistura à história de Minas.
O próprio artista define o verdadeiro ouro mineiro de uma maneira que ajuda a compreender sua obra: está na biodiversidade, nos rios, nos povos, nas culturas e na arte. São riquezas que, para ele, precisam ser preservadas.
Milton saiu de Três Pontas e levou sua música para o mundo. Kaká partiu do mesmo território e encontrou na pintura sua própria forma de atravessar fronteiras.
E aquela semente que guardo em casa ganhou, para mim, um novo significado.
Algumas sementes crescem sem deixar de carregar o lugar onde nasceram. E no fim doi dia o que vale é nunca se esquecer onde viemoas assim a caminhada fica mais leve e compropósitos. Valeww, Káká estamos semrpe aqui torcendo por você. Hasta!


