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Itatiaia

Por que a esquerda tem dificuldade em construir lideranças fortes nas redes sociais?

Demora na adoção das plataformas e falta de foco na formação de figuras políticas podem explicar ausência de figuras midiáticas de peso no campo político

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Imagem ilustrativa • Unsplash

A má compreensão e demora na adoção das redes sociais como parte fundamental de um discurso político e público, aliada à autofagia nas relações nesses espaços digitais e a falta de uma estratégia de conquista do poder e, principalmente, do voto, faz com que a esquerda não consiga se organizar para que tenha figuras com o calibre de dispersão como as de direita nas plataformas digitais.

A análise é de especialistas ouvidos pela reportagem da Itatiaia, quando questionados sobre por que a esquerda não consegue formar uma liderança à altura, no discurso público e eleitoral, de parlamentares do campo conservador.

A vontade de tentar alcançar o público – e as votações – compreendidas, por exemplo, por políticos como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), já foi expressa por membros de partidos do campo progressista em diversas ocasiões.

Este será, inclusive, o mote da campanha para deputado federal do vereador de Belo Horizonte Pedro Rousseff (PT), que quer tentar se transformar em um “Nikolas de esquerda”, usando táticas e apostando em uma figura pública homóloga à de seu antagonista.

“Hoje, faltam na esquerda pessoas que sejam combativas e que saibam mexer nas redes sociais. E é muito essa posição que eu me coloco. O presidente Lula me chama para poder compor o time dele justamente nesse sentido. Gente que é jovem, que sabe fazer o embate pelas redes sociais, infelizmente a gente não vê a esquerda muito preparada para poder lidar com o ritmo das fake news e dos ataques, não só do Nikolas, mas de toda essa extrema direita. Então, o meu trabalho vem sendo ser um soldado do presidente Lula”, defende o parlamentar.

Tática parecida também é usada por deputados federais de destaque na esquerda, como André Janones (Rede), que chegou a ser um dos grandes opositores de Nikolas nas redes sociais, e Érika Hilton (PSOL), que também surge como uma figura importante para o campo nas plataformas digitais.

O cientista político Adriano Cerqueira afirma que movimentos de esquerda tendem a ser centralizados sob o comando de partidos políticos, o que impõe disciplina partidária e ideológica. Com isso, o discurso público de seus membros costuma ser mais unificado, sem a formação personalista de figuras como a de Nikolas Ferreira.

“Pensadores independentes são elementos que, ocasionalmente, podem ser úteis à causa, mas muitas vezes não seguem a disciplina imposta pelo partido. Por isso é difícil um ‘Nikolas de esquerda’ com capacidade de duelar com o Nikolas. A direita é mais orgânica, plural e fragmentada e por isso acata melhor pensadores independentes”, justifica o especialista.

“Há maior espontaneidade, com mais espaços para manifestações de ideias, sem preocupação em seguir alguma linha ideológica partidária. Por causa disso fica mais plural e dificulta a chamada ‘união da direita’. Quando ela acontece, é ocasional e pragmática”, completa.

Por outro lado, Camilo Aggio, também cientista político, afirma que a esquerda “abraçou o identitarismo” e tem força apenas como “bando”, e não na formação de lideranças e na conversão de votos, ao menos nas redes sociais.

“A esquerda é muito pródiga e muito eficiente em cancelar, em patrulhar, em coordenar, administrar um conjunto de expedições voltados para, em geral, algo autofágico. Eu acho que é preciso dizer que não existe uma liderança política que tenha surgido das redes digitais como o Nikolas Ferreira ou seja um cara que ele consegue converter o capital social criado nas digitais em capital eleitoral, mas por outro lado a esquerda funciona muito bem como bando, como conjunto ali de tribos que a princípio estão separadas mas que se une de uma maneira muito eficiente não para atacar reputações”, defende.

“E eu acho que exatamente esse tipo de postura identitária, que é altamente autoritária, divisiva, sectária, profundamente agressiva, que opera, portanto, na lógica do cancelamento, e que também está presente na universidade, está presente em várias instituições. Eu acho que há uma correlação aqui direta, pelo menos a temporalidade sugere isso”, destaca.

‘Esquerda não quer ter um Nikolas’

A presidente estadual do PT em Minas Gerais, deputada Leninha, defende, em contrapartida, que a esquerda não quer “ter um Nikolas” e tende a ter pautas mais pragmáticas em sua atuação, como o combate à fome, o enfrentamento à desigualdade e a “melhora na vida concreta das pessoas”.

“Claro que a comunicação é importante, e a esquerda sabe disso. É estratégico ampliar o alcance, dialogar com mais gente e também viralizar conteúdos que façam chegar longe informações capazes de ajudar a vida das pessoas, não somente fazer rir. É isso: nosso compromisso é com um tipo de conteúdo que informe, que ajude as pessoas a entenderem a realidade e a tomarem decisões, e não apenas com aquilo que gera engajamento fácil ou simplifica debates complexos”, pontua.

“A esquerda não quer ter um ‘Nikolas’. O que queremos de verdade é apostar em vozes que se comuniquem bem, com compromisso e responsabilidade, com a verdade e com propostas concretas. Não vamos pelos caminhos das notícias falsas, do uso irresponsável da Inteligência Artificial e da viralização a qualquer custo. Mais importante do que repercussão é o compromisso com transformações reais na vida do povo”, conclui a deputada.

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Jornalista pela UFMG, Lucas Negrisoli é editor de política. Tem experiência em coberturas de política, economia, tecnologia e trends. Tem passagens como repórter pelo jornal O Tempo e como editor pelo portal BHAZ. Foi agraciado com o prêmio CDL/BH em 2024.