Efeito Nikolas anula estratégia regionalista de campanhas de centro-direita e a mantém válida só para o PL
Com mais de três milhões de votos, o deputado federal foi reeleito puxando dezenas de parlamentares do PL e amealhando votos em todos os municípios mineiros; o sucesso eleitoral do parlamentar retirou votos de nomes tradicionais em seus redutos estabelecidos

A votação recorde de Nikolas Ferreira (PL) neste ano o reconduziu à Câmara dos Deputados com 3,1 milhões de votos divididos em todas as 853 cidades mineiras e ainda rendeu ao PL 21 das 53 cadeiras da bancada mineira na Casa. O fenômeno eleitoral frustrou partidos do centro e da direita, já que o parlamentar obliterou candidatos tradicionalmente fortes em redutos específicos do estado. Por outro lado, nomes do próprio PL puderam se ater à lógica tradicional de campanha, com a segurança de serem puxados pela votação do correligionário.
Nikolas teve ao menos 100 votos em cada uma das 853 cidades de Minas. Em 395, ele teve ao menos mil votos. Com a votação distribuída, parlamentares tradicionalmente fortes em várias regiões do estado perderam votos para o deputado do PL e viram frustradas suas candidaturas.
Nomes conhecidos da política mineira não conseguiram se eleger mesmo com votação expressiva. Caso do deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos), que não foi reeleito mesmo tendo 92,3 mil votos. Em seu reduto, Governador Valadares, ele conseguiu 4.510 votos, marca só superada justamente por Nikolas Ferreira, que teve 57.901.
O deputado estadual Cássio Soares (PSD) atingiu a marca de 100,4 mil votos e, mesmo assim, não foi eleito para a Câmara dos Deputados. Forte no Sul de Minas, o parlamentar obteve 23,3 mil votos em Passos, sua cidade natal, quase o dobro dos 12 mil votos de Nikolas no município, mas não foi o suficiente para garantir a vaga.
Campanha tradicional permanece eficiente dentro do PL
Enquanto isso, os parlamentares eleitos pelo PL puderam usar a mesma lógica de concentração de votos em seus redutos. Os exemplos começam já no segundo parlamentar mais votado do partido, Zé Vítor, presidente estadual da legenda e reeleito com 145.006 votos.
Mais de um terço dos votos de Zé Vítor (66,3 mil) veio da mesorregião do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, concentrados nas cidades de Araguari (com 34,5 mil votos); Uberlândia (12,5 mil votos); Carmo do Paranaíba (4,8 mil votos); Coromandel (3,7 mil votos); Lagoa Formosa (3,7 mil votos); Sacramento (3,5 mil votos); e Monte Carmelo (3,4 mil votos).
Emidinho Madeira, terceiro mais votado do PL, concentra cerca de 75% de seus 94,8 mil votos na Região Sul de Minas.
Há outros exemplos na lista do PL. Igor Santos, por exemplo, fez 30,1 mil de seus 70,5 mil votos apenas em Paracatu, no Noroeste do estado. O deputado Dr.. Marcos Vinícius teve 51,1 mil de seus 67,3 mil votos no Vale do Aço nas cidades de Ipatinga, Timóteo e Coronel Fabriciano, onde foi prefeito.
O deputado estadual Cristiano Caporezzo se elegeu deputado federal com 57,8 mil votos, 20,6 mil deles em Uberlândia, sua cidade natal. O último deputado federal eleito pelo PL foi Sargento Mello-Casal, que teve 19,5 mil votos em Juiz de Fora, 78% de seus 25 mil votos.
Nikolas monopoliza o voto majoritariamente ideológico
Embora candidatos do PL tenham conseguido a eleição com a estratégia de concentrar votos em seus redutos tradicionais, quem tentou emular a linha de Nikolas e apelar para um eleitor mais viés mais ideológico do que regional, ficou para trás.
É o caso do vereador de Belo Horizonte, Vile Santos, sucesso nas redes e conhecido entre o eleitor bolsonarista mais fervoroso como um aliado próximo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ele teve apenas 17,5 mil votos e não foi eleito. Dentro do partido, a percepção inicial é a de que ele disputou voto com Nikolas, uma disputa inglória.
Outro nome com forte viés ideológico que ficou para trás foi Maurício do Vôlei. O ex-atleta e deputado federal não foi reeleito, conseguindo apenas 16,1 mil votos.
Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.



