Itatiaia

Lula manda recado sobre o tarifaço: 'Ninguém vai ganhar do Brasil mentindo'

Presidente diz que manterá negociações com os Estados Unidos, descarta retaliação imediata e afirma que Brasil buscará novos mercados para ampliar as exportações

Por
Lula reage ao tarifaço: "Ninguém vai ganhar do Brasil mentindo" • PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira (22) que o Brasil manterá as negociações com os Estados Unidos mesmo após a entrada em vigor da tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Durante o lançamento da terceira etapa do Plano Brasil Soberano, o presidente voltou a criticar a decisão do governo norte-americano, mas descartou o abandono das tratativas diplomáticas e disse que o país buscará ampliar mercados para compensar os impactos do tarifaço.

Em um dos principais momentos do discurso, Lula afirmou que o Brasil não será derrotado pela "mentira" e que continuará defendendo sua posição nas negociações internacionais: "Ninguém vai ganhar do Brasil mentindo. Nós estamos na mesa de negociação. Propusemos a mesa de negociação, já mandamos vários documentos e várias propostas. Nós vamos continuar lá."

Segundo o presidente, o governo brasileiro tentou abrir diálogo com os Estados Unidos em diversas oportunidades antes da entrada em vigor das tarifas. Lula afirmou que ele próprio participou de reuniões com autoridades norte-americanas e que o vice-presidente Geraldo Alckmin, além do ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também buscaram negociar uma solução diplomática: "Eles que digam que não querem negociar, porque nós estamos sentados à mesa fazendo propostas o tempo todo."

Ao defender as medidas anunciadas pelo governo, Lula afirmou que momentos de crise podem fortalecer o país e comparou a situação atual aos desafios enfrentados durante a pandemia. Segundo o presidente, o Plano Brasil Soberano III demonstra que o Brasil pretende responder às barreiras comerciais com investimentos e ampliação da competitividade, e não apenas com medidas de retaliação: "Não há crise que impeça o Brasil de seguir sua trajetória de continuar com a economia crescendo."

Lula destacou que, apesar do cenário internacional, o país mantém crescimento econômico próximo de 3% ao ano, aumento das exportações e expansão da arrecadação do setor de petróleo, recursos que, segundo ele, ajudarão a financiar políticas de apoio à indústria e ao comércio exterior.

Diversificação de mercados

O presidente também afirmou que o tarifaço imposto pelos Estados Unidos acelerou um movimento de diversificação das relações comerciais brasileiras. Na avaliação de Lula, empresas e governos passaram a buscar novos parceiros internacionais diante das barreiras impostas pelo governo norte-americano: "As pessoas estão aprendendo a conversar com outros países, estão aprendendo que existem outros mercados, outras moedas e outras pessoas com vontade de comprar e vender."

Lula citou como exemplo o acordo entre Mercosul e União Europeia, afirmando que a negociação avançou em um contexto de fortalecimento do multilateralismo diante das medidas protecionistas adotadas por alguns países. Segundo o presidente, o Brasil continuará ampliando sua presença em outros mercados para reduzir a dependência das exportações destinadas aos Estados Unidos.

"Não vamos ficar chorando"

Ao defender a estratégia do governo, Lula afirmou que o Brasil não permanecerá lamentando as perdas provocadas pelas tarifas americanas.

O presidente relembrou a infância, quando vendia produtos nas ruas, para ilustrar que pretende buscar novos compradores caso o mercado americano reduza as importações brasileiras: "Não vamos ficar chorando o produto que a gente não vendeu para eles porque ainda vamos procurar outros compradores." Em seguida, Lula recordou a época em que trabalhava como vendedor ambulante: "Quando eu era pequeno, saía com um carrinho de mão vendendo tapioca, laranja e biju. Quando alguém virava as costas para mim, eu não ficava xingando a pessoa. Eu ia procurar outro comprador."

Apesar das críticas à decisão americana, Lula afirmou que o governo continuará apostando na via diplomática e descartou romper as negociações. Segundo ele, o Brasil manterá abertas todas as possibilidades de diálogo: "Nós vamos ganhar porque não podemos fazer bravata. Vamos ganhar porque temos razão e porque vamos continuar na mesa de negociação."

O presidente acrescentou que o governo seguirá apresentando propostas aos Estados Unidos enquanto trabalha para ampliar o comércio com outros países: "Vamos negociar com quem quer negociar, vender para quem quer comprar e comprar de quem quer vender."

Plano Brasil Soberano III

As declarações foram feitas durante o lançamento do Plano Brasil Soberano III, terceira etapa do programa criado para apoiar empresas brasileiras afetadas pelas tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos e por outras barreiras ao comércio internacional.

A nova fase disponibiliza R$ 18,5 bilhões em linhas de financiamento, destinados a capital de giro, investimentos produtivos, aquisição de bens de capital, inovação tecnológica, adaptação de processos produtivos e abertura de novos mercados. Do total, R$ 13,5 bilhões serão provenientes do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O programa atenderá empresas atingidas pelas tarifas comerciais dos Estados Unidos, especialmente dos setores de aço, alumínio, automóveis, móveis, máquinas, madeira, papel, plástico, açúcar e calçados, além de segmentos estratégicos como fertilizantes, minerais críticos, indústria química, farmacêutica, automotiva e de equipamentos eletrônicos.

O lançamento foi feito no mesmo dia em que entrou em vigor a nova tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, medida que colocou o Brasil entre os países mais afetados pelas barreiras comerciais adotadas pelo governo norte-americano.

Por

Aline Pessanha é jornalista, com Pós-graduação em Marketing e Comunicação Integrada pela FACHA - RJ. Possui passagem pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação, como repórter de TV e de rádio, além de ter sido repórter na Inter TV, afiliada da Rede Globo.

 

 

Belo Horizonte