Na reta final, coordenadores de Lula e Flávio Bolsonaro trocam ataques sobre golpe, economia e segurança
Edinho Silva e Rogério Marinho divergiram sobre o 8 de Janeiro, as contas públicas e o Bolsa Família. O encontro também tratou da decisão do TSE que cobra explicações da Meta

A uma etapa da definição da disputa presidencial, os coordenadores das campanhas do presidente Lula (PT) e do senador Flávio Bolsonaro se enfrentaram nesta segunda-feira (19) em debate na GloboNews. Edinho Silva, pelo lado petista, e Rogério Marinho, pelo bolsonarista, deram o tom que as duas candidaturas pretendem adotar nos últimos dias de campanha. De um lado, o governo quer comparar projetos de país. Do outro, a oposição aposta no desgaste da gestão atual.
O momento de maior tensão foi a discussão sobre os atos de 8 de janeiro de 2023. Marinho pôs em dúvida que os episódios tenham sido uma tentativa de golpe. Edinho respondeu citando as investigações sobre um plano para matar autoridades da República.
Os dois coordenadores deixaram claro como cada campanha vai conduzir os próximos dias:
- Campanha de Lula: a ideia é mostrar a diferença entre os dois projetos, com destaque para saúde, emprego e tecnologia. Edinho listou bandeiras como o fim da escala 6x1, a valorização do salário mínimo, a recomposição das aposentadorias, o BPC e a reorganização do SUS. Ele admitiu que a saúde pública “está muito longe” do ideal, mas citou programas para reduzir filas de cirurgias, exames e consultas.
- Campanha de Flávio: Marinho disse que a candidatura vai continuar falando dos problemas do dia a dia da população e reforçar as críticas ao governo. Para ele, o modelo petista está “exaurido” e repete as mesmas promessas há quase vinte anos sem resolver questões estruturais. Segundo Marinho, os brasileiros estão hoje mais pobres, mais endividados e mais inseguros.
8 de Janeiro
Marinho afirmou que o caso ainda precisa ser esclarecido e questionou a ideia de golpe numa ação que, segundo ele, reuniu mulheres e crianças, sem armas e sem lideranças. Ele também lembrou que Jair Bolsonaro estava em Orlando, nos Estados Unidos, no dia dos ataques e que já havia passado o comando das Forças Armadas ao sucessor.
A mediadora interveio e lembrou que o julgamento não tratou só da depredação das sedes dos Três Poderes. Também analisou articulações anteriores, como reuniões no Palácio da Alvorada com a cúpula militar.
Edinho rebateu a fala de Marinho e disse que o episódio não pode ser minimizado. Ele mencionou o plano investigado para assassinar Lula, o vice Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes, então presidente do TSE. “A democracia tem que ser algo irretocável”, disse o petista.
Bolsa Família: Marinho diz que fala de assessora foi distorcida
Marinho foi questionado sobre uma declaração de Daniella Marques, assessora da campanha de Flávio, que repercutiu durante o dia. Ele negou que o candidato pretenda tirar do Bolsa Família quem completar dois anos de carteira assinada.
Segundo o coordenador, a proposta apresentada por ela em entrevista à rádio CBN, na Bahia, é outra. A ideia seria ampliar de 18 para 24 meses o período de transição para beneficiários que conseguem emprego formal.
Edinho disse duvidar do compromisso do senador com programas sociais e direitos trabalhistas. Ele citou votações de Flávio sobre licença-maternidade e aposentadoria e acusou o adversário de ter mudado de posição sobre o fim da escala 6x1 apenas por pressão eleitoral.
Segurança pública e rastreamento de munições
Edinho atacou uma mudança na legislação que, segundo ele, dificultaria o rastreamento de munições, e perguntou a quem isso interessaria. O petista também acusou Flávio de ter homenageado milicianos e de ter atuado como advogado na defesa de um policial acusado de matar uma criança de cinco anos.
Marinho respondeu que o trecho criticado faz parte de um projeto de mudança no Estatuto do Desarmamento, relatado na Câmara pelo deputado Alexandre Leite. O texto chegou à CCJ do Senado, mas ainda não foi votado. Segundo ele, a alteração é apenas um dos cerca de 40 dispositivos do projeto e atende a colecionadores, atiradores e caçadores (CACs), porque barateia a recarga de munições. Marinho negou que o objetivo seja impedir o rastreamento. Questionado diretamente, confirmou que Flávio apoia as mudanças no Estatuto.
Economia: herança fiscal no centro da disputa
- Marinho acusou o governo de aumentar gastos sem garantir receitas e de recorrer à alta de impostos em vez de cortar despesas. Segundo ele, a falta de controle fiscal faz a dívida pública crescer e pesa sobre os preços dos alimentos, os juros e a inflação.
- Edinho respondeu que o governo assumiu em 2023 um país “literalmente quebrado”. Ele citou um déficit de 2,6% do PIB e a falta de recursos para pagar precatórios e o Bolsa Família. Também defendeu a política externa de Lula, que, segundo ele, recuperou a credibilidade do Brasil e abriu novos mercados. E criticou declarações de Flávio nos Estados Unidos sobre as reservas brasileiras de terras raras.
Marinho defendeu a gestão de Jair Bolsonaro na pandemia. Segundo ele, a economia brasileira se recuperou acima da média mundial nos dois anos seguintes. A mediadora perguntou então sobre as cerca de 700 mil mortes por Covid no país. Marinho respondeu que “morreram como morreu no mundo inteiro”.
TSE e Meta
O debate também tratou da decisão do TSE, tomada nesta segunda-feira, que deu 24 horas para a Meta comprovar as medidas adotadas para garantir igualdade de condições entre as campanhas presidenciais. A ação partiu do PT.
Edinho disse que o partido não busca privilégio, apenas uma disputa equilibrada. Ele defendeu a regulação das big techs e afirmou que a dona do Facebook e do Instagram não pode tomar partido na eleição brasileira.
Aline Pessanha é jornalista, com Pós-graduação em Marketing e Comunicação Integrada pela FACHA - RJ. Possui passagem pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação, como repórter de TV e de rádio, além de ter sido repórter na Inter TV, afiliada da Rede Globo.


