Como o medo do adversário pode definir o resultado do segundo turno das eleições deste ano
Enquanto petistas tentam apontar a possibilidade de desmonte de conquistas sociais promovidas nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), partidários de Flávio Bolsonaro (PL) apostam no antipetismo e no temor da continuidade da esquerda no poder por mais um ciclo eleitoral

Na eleição mais tensa desde a redemocratização, eleitores de ambos os lados do espectro político apostam no medo do adversário para tentar alavancar seus candidatos à vitória no segundo turno. Enquanto petistas tentam apontar a possibilidade de desmonte de conquistas sociais promovidas nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), partidários de Flávio Bolsonaro (PL) apostam no antipetismo e no temor da continuidade da esquerda no poder por mais um ciclo eleitoral.
Às vésperas do primeiro turno, a pesquisa Quaest divulgou um balanço sobre o medo de eleitores em relação à manutenção do governo Lula ou do retorno da família Bolsonaro ao poder. Nos dados, 43% apontavam temer mais a continuidade da gestão petista, enquanto 40% temiam mais a retomada da gestão bolsonarista. Outros 7% diziam temer ambos os cenários eleitorais, enquanto 5% não temiam nenhum deles e 5% não souberam responder. O levantamento ouviu 3.702 eleitores brasileiros entre 2 e 3 de outubro e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-02197/2026.
O cientista político Adriano Cerqueira avalia que o medo é uma estratégia, inclusive, propagada pelas campanhas políticas, focando na destruição da imagem do adversário. “Em vez de tentar atrair o eleitor apenas falando das suas virtudes, funciona também ficar criticando, ficar atacando. Eles têm um eufemismo – desconstruindo a imagem. E fazem isso mostrando o pesadelo que seria você ser governado por ele, pelo adversário”, pontua.
A estratégia é especialmente útil no segundo turno, ainda conforme o pesquisador. “Lembrando que no segundo turno, como você quer pegar chamados indecisos, os eleitores do centro, porque é uma eleição por definição já polarizada, aumentar a rejeição, e você faz isso com esse discurso de medo, que pode funcionar para atrair aquele número suficiente de votos do centro, enfim, de indecisos para você ganhar. Então, os dois lados fazem isso, né? E é uma estratégia muito nova, feita mundo afora, não é uma coisa só brasileira”, acrescenta.
O policial militar Wesley Martins, afirma que o receio da continuidade do governo Lula envolve, principalmente, assuntos como economia, corrupção e segurança pública. “Critico o assistencialismo prolongado, que pode gerar dependência em vez de incentivar a autonomia financeira. Os casos de fraudes no INSS e as investigações envolvendo o Banco Master reforçam minha cobrança por transparência e responsabilização. Também questiono declarações de Lula sobre mulheres e o ‘toque’ desde a infância, além de falas sobre garis e religião. Defendo a liberdade religiosa, o respeito à fé cristã e a independência do STF, sem favorecimentos políticos. Quero um Brasil sem corrupção, sem autoritarismo e sem privilégios, com liberdade de expressão, imprensa independente e imparcial, respeito à família e igualdade perante a lei”, destaca.
Ele explica ainda que a intenção de voto em Flávio Bolsonaro envolve tanto a rejeição à gestão petista, quanto a identificação com as propostas de Flávio Bolsonaro. “Quero uma alternativa que defenda responsabilidade fiscal, combate à corrupção, segurança pública, liberdade religiosa, liberdade de imprensa sem tendenciosidade e respeito à família. Busco um Brasil sem corrupção, sem autoritarismo e sem privilégios, onde ninguém esteja acima da lei e a democracia seja respeitada. Mais do que discursos, espero propostas concretas, transparência e resultados”, conclui.
Eleitora de Lula, a médica de família e comunidade Luísa Chave explica que “acompanha pessoas atravessadas pelo medo” diariamente, “seja da fome, da falta de medicamentos e da violência” ou pela “perda dos direitos e da exclusão social”. “Meu receio de um governo Flávio Bolsonaro está relacionado ao que seu projeto político pode representar para o SUS, para as populações mais vulnerabilizadas e para a democracia. Sinto medo quando busco na minha memória o que passamos no governo de um Bolsonaro, durante a pandemia, e que o seu filho e atual candidato fala com orgulho e como exemplo”, define.
Ela conta ainda que seu voto em Lula está mais ligado ao medo de uma nova gestão da família Bolsonaro do que necessariamente uma afinidade “perfeita” com o presidente Lula. “(Flávio) não esclarece como ele pretende executar o que defende, o que considero muito preocupante para o cargo que ele quer ocupar, e não apresenta propostas concretas para fortalecimento do SUS e já teve falas que ao meu ver são antidemocráticas. Acredito também que um equilíbrio entre o poder Executivo, o Senado e a Câmara seja mais saudável para a nossa democracia, especialmente com tantos senadores e deputados eleitos que elogiam a ditadura, o que pode ameaçar o nosso Estado Democrático de Direito”, pontua.
Jornalista pela UFMG, Lucas Negrisoli é editor de política. Tem experiência em coberturas de política, economia, tecnologia e trends. Tem passagens como repórter pelo jornal O Tempo e como editor pelo portal BHAZ. Foi agraciado com o prêmio CDL/BH em 2024.



