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Cenipa diz que avião da Voepass não deveria ter decolado e aponta cultura de desvios na empresa

Investigadores afirmam que ATR 72 não atendia às condições previstas para o despacho e explicam que falhas deixaram de ser registradas por diferentes tripulações; atuação da Anac também entrou entre os fatores contribuintes

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Cenipa diz que avião da Voepass não deveria ter decolado e aponta cultura de desvios na empresa • Reprodução

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) afirmou, nesta quinta-feira (23), que o avião da Voepass que caiu em Vinhedo (SP), em agosto de 2024, não deveria ter sido liberado para o voo nas condições em que se encontrava. Durante coletiva de imprensa para detalhar o relatório final da investigação, o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes explicou que o principal problema identificado no despacho da aeronave foi o limpador do para-brisa inoperante.

Segundo ele, a Lista de Equipamentos Mínimos permitia a operação apenas se não houvesse previsão de chuva uma hora antes da decolagem ou uma hora após o pouso, condição que não era atendida naquele voo: "De acordo com os produtos meteorológicos, havia previsão de precipitação. Por esse ponto, a aeronave não deveria ser despachada." O militar explicou, porém, que a situação envolvendo o sistema de degelo era diferente.

Segundo Fróes, havia previsão de formação de gelo severo entre os níveis de voo 120 e 220, mas seria possível evitar essa condição voando abaixo desse patamar. Ele ressaltou que as informações meteorológicas estavam disponíveis para tripulações anteriores, mas não foram registradas formalmente no diário de bordo.

Cultura de desvios

Um dos principais pontos destacados pelo Cenipa foi a chamada "normalização do desvio". Durante a coletiva, os investigadores afirmaram que o não registro de falhas técnicas deixou de ser um comportamento isolado e passou a fazer parte da rotina operacional da empresa.

Segundo Fróes, a equipe analisou inicialmente os três voos anteriores ao acidente e encontrou o mesmo padrão em diferentes tripulações. Depois, ampliou a investigação para 1.206 voos da companhia: "Não eram apenas três tripulações. Outras também executavam esse tipo de procedimento. Isso caracterizou uma cultura organizacional."

Os investigadores explicaram que pequenos problemas eram tratados informalmente, sem registro oficial, dificultando que a manutenção corrigisse as falhas de forma definitiva. Questionado sobre possíveis sanções aos pilotos que deixaram de registrar as falhas, o Cenipa afirmou que sua função não é responsabilizar pessoas. Segundo os investigadores, a apuração busca identificar fatores contribuintes e produzir recomendações de segurança. A eventual responsabilização administrativa ou criminal cabe à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e à Polícia Federal.

Atuação da Anac

Durante a coletiva, os investigadores também foram questionados sobre a atuação da Anac. O relatório apontou a fiscalização da agência como um dos 19 fatores contribuintes para o acidente. Mesmo assim, o Cenipa evitou afirmar que a Anac deveria ter suspendido totalmente as operações da companhia.

Segundo os militares, a agência realizou diversas ações de fiscalização, aplicou sanções, retirou aeronaves de operação e determinou a substituição dos sistemas de degelo da frota. No entanto, a comissão concluiu que essas medidas não foram suficientes para eliminar os riscos existentes: "Apesar de todas as ações, o acidente aconteceu. É preciso que o processo de gerenciamento de risco seja robusto o suficiente para subsidiar decisões estratégicas."

O Cenipa informou que recomendou à Anac revisar seus processos de gerenciamento de riscos para evitar que situações semelhantes ocorram novamente.

Fadiga foi descartada

Outro ponto esclarecido durante a coletiva foi a condição dos pilotos. Segundo a investigação, não foram encontrados indícios de fadiga da tripulação. A comissão, no entanto, concluiu que fatores emocionais podem ter provocado momentos de distração durante a condução do voo.

Os investigadores também afirmaram que, quando a aeronave começou a apresentar perda de desempenho, existia um procedimento previsto pelo fabricante. Segundo Fróes, o checklist orientava o aumento da velocidade da aeronave, medida que poderia retirá-la daquela condição crítica. Ainda assim, o Cenipa ressaltou que não é possível afirmar que isso impediria o acidente, já que o avião continuaria voando em uma região com previsão de formação severa de gelo.

Ao todo, o relatório identificou 19 fatores contribuintes, entre eles falhas de manutenção, cultura organizacional, problemas operacionais, aspectos humanos e deficiências na gestão dos riscos da empresa e na fiscalização regulatória.

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Aline Pessanha é jornalista, com Pós-graduação em Marketing e Comunicação Integrada pela FACHA - RJ. Possui passagem pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação, como repórter de TV e de rádio, além de ter sido repórter na Inter TV, afiliada da Rede Globo.

 

 

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