Áudios obtidos pela PF mostram que Bolsonaro recuou de golpe por medo de prisão
Segundo aliados, ex-presidente chegou a apresentar proposta golpista para o alto comando do Exército, mas não recebeu apoio da cúpula militar

Áudios inéditos obtidos pela Polícia Federal no âmbito do inquérito que investiga um plano de golpe de Estado no Brasil para manter Jair Bolsonaro (PL) no poder mostram que o presidente não apenas sabia da existência de um decreto golpista para anular o resultado da eleição presidencial de 2022, como também convidou as Forças Armadas a apoiarem o plano.
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As gravações foram extraídas de mais de 1.200 celulares e notebooks recolhidos durante as ações de busca e apreensão realizadas desde 2023.
Os áudios são de conversas entre os investigados e mostram que a ala mais radical do exército, que apoiava o plano de golpe de estado, se frustrou com a decisão do presidente Bolsonaro.
Em um dos áudios, o general da reserva, Mário Fernandes, afirma que a minuta do golpe é ‘real’ e foi despachada com Bolsonaro quando ele ainda estava no poder.
“Kid Preto, falei com o Renato. O decreto é real, foi despachado ontem com o presidente. É, [risos], movimento, eu tô de olho aqui. Se for o caso, eu aciono o senhor para voltar. Eu nem vou. Eu aciono o senhor para voltar. Força!”, disse em áudio encaminhado no dia 7 de dezembro de 2022 ao general Luiz Eduardo Ramos, que foi ministro da Secretaria-Geral da Presidência do governo Bolsonaro.
Mário Fernandes está preso preventivamente desde novembro de 2024, suspeito de arquitetar parte do plano de golpe que envolvia a morte do então presidente eleito, Lula (PT), e do vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Decepção com o presidente
“Agora está ficando muito claro que o alto comando, e não é o Exército, é o alto comando do Exército, ele está se fechando em copas, talvez com a maioria contra a decisão do presidente, mas pensando em primeiro lugar na instituição, pensando em primeiro lugar no próprio Exército, quando deveria estar pensando em primeiro lugar no Brasil”, revelou.
Por fim, a minuta golpista que previa, em resumo, a intervenção no Poder Judiciário para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e convocar novas eleições, acabou não saindo do papel. O motivo: o receio que Bolsonaro tinha de ser preso logo após instaurar o golpe.
A decisão frustrou a ala mais radical que circulava no entorno de Bolsonaro, que recebeu a escolha do presidente com indignação, como revelou o áudio do tenente-coronel Sérgio Cavaliere encaminhado, ainda em dezembro, antes da viagem do presidente Bolsonaro aos Estados Unidos, ao general Gustavo Gomes.
“Deu ruim, tá? Acabei de falar com o nosso amigo lá e não vai rolar nada. O alto comando não vai topar, a Marinha topa, mas só se tiver outra força com ela porque ela não aguenta a porrada que vai tomar sozinha. E é aquilo que eu tinha conversado contigo, agradeça aos nossos líderes que se formaram naquela escola de prostitutas, né? Por escolherem um lado, o seu lado pessoal, em detrimento do povo”, disse.
“O presidente não vai embarcar sozinho, porque ele tá com o decreto pronto, ele assina, e aí ninguém vai e ele vai preso. Então, ele não vai arriscar. E bem-vindos à Venezuela”, desabafou o militar.
Na semana passada, o ex-presidente Jair Bolsonaro e outras 33 pessoas foram denunciadas ao STF pela Procuradoria-Geral da República por tentativa de golpe e outros crimes.
Supervisor da Rádio Itatiaia em Brasília, atua na cobertura política dos Três Poderes. Mineiro formado pela PUC Minas, já teve passagens como repórter e apresentador por Rádio BandNews FM, Jornal Metro e O Tempo. Vencedor dos prêmios CDL de Jornalismo em 2021 e Amagis 2022 na categoria rádio



