Ter um cachorro pode ajudar a combater a solidão e melhorar a saúde mental, apontam estudos
A convivência com cães pode trazer companhia, criar uma rotina mais organizada, estimular a atividade física e favorecer o bem-estar emocional. Pesquisas associam o contato com animais a menores níveis de estresse e a mais oportunidades de interação social, mas especialistas alertam que esse vínculo não substitui o acompanhamento psicológico

A presença de um cachorro em casa pode representar muito mais do que ter um animal de estimação. Para quem enfrenta momentos de solidão, o convívio diário com um cão pode ajudar a organizar a rotina, estimular hábitos saudáveis e proporcionar uma sensação maior de companhia e bem-estar emocional.
Esses possíveis benefícios são apontados por diferentes pesquisas sobre a relação entre seres humanos e animais. Uma revisão de estudos reunida pela pesquisadora e autora Diane Dreher, publicada na revista Psychology Today, analisou evidências relacionadas aos efeitos físicos e emocionais dessa convivência, incluindo aspectos como estresse, ansiedade, depressão e vínculos afetivos.
Os resultados indicam que a presença de um cachorro pode contribuir positivamente para a vida cotidiana, especialmente entre pessoas que vivem sozinhas ou têm poucas oportunidades de interação social. No entanto, os pesquisadores ressaltam que os benefícios variam de acordo com cada pessoa e não significam que o animal seja capaz de resolver problemas de saúde mental.
Como um cachorro pode ajudar quem vive sozinho
Cuidar de um cão envolve uma série de responsabilidades diárias, como oferecer alimentação, manter a higiene, reservar momentos para brincadeiras e realizar passeios. Embora essas tarefas exijam dedicação, elas também podem ajudar a estabelecer uma rotina mais previsível.
Para quem enfrenta períodos de isolamento, ter compromissos relacionados ao bem-estar do animal pode representar um incentivo para manter hábitos cotidianos e sair de casa com maior frequência.
Os passeios também criam oportunidades para interagir com outras pessoas em ruas, praças e parques. Mesmo conversas rápidas com outros tutores podem favorecer o contato social e diminuir a percepção de isolamento.
Esse aspecto pode ser especialmente importante para pessoas idosas, que nem sempre contam com uma rede ampla de apoio ou têm as mesmas oportunidades de convivência social de outras fases da vida.
Segundo os estudos reunidos por Dreher, tutores de cães frequentemente relatam uma maior sensação de companhia, propósito e organização no dia a dia. Isso não significa que o animal elimine as causas da solidão, mas sua presença pode tornar a experiência menos difícil para algumas pessoas.
Contato com cães pode estar relacionado à redução do estresse
Outro ponto investigado pela ciência é a relação entre o contato com animais e as respostas do organismo ao estresse. Uma revisão científica publicada em 2012 por Andrea Beetz, Kerstin Uvnäs-Moberg, Henri Julius e Kurt Kotrschal analisou possíveis mecanismos biológicos associados às interações entre seres humanos e animais.
Entre os aspectos estudados estão as mudanças nos níveis de cortisol, hormônio envolvido na resposta ao estresse, e de ocitocina, substância relacionada aos vínculos sociais e à confiança.
Pesquisas citadas na revisão de Dreher associam interações positivas com cães a alterações nesses indicadores. O contato físico e o olhar entre o animal e seu tutor, por exemplo, foram relacionados a mudanças nos níveis de ocitocina em alguns estudos.
Esses resultados ajudam a compreender por que a convivência com um cachorro pode proporcionar tranquilidade e conforto emocional. Ainda assim, os especialistas alertam que uma associação observada em pesquisas não comprova que o animal seja o único responsável por essas mudanças.
A saúde mental também depende de fatores como condições de vida, saúde física, relacionamentos pessoais e acesso a atendimento profissional.
Crianças e adolescentes também podem se beneficiar do vínculo
A relação com os cães pode ter importância durante a infância e a adolescência, períodos em que o desenvolvimento emocional e a construção de vínculos afetivos desempenham um papel relevante.
De acordo com pesquisas mencionadas por Dreher, os animais podem funcionar como fontes de proximidade e conforto para crianças e adolescentes. A convivência oferece oportunidades para brincar, cuidar e compartilhar momentos sem a preocupação com julgamentos.
Depois de uma situação estressante, por exemplo, permanecer ao lado do cachorro ou participar de uma atividade com ele pode ajudar algumas crianças a lidar com as próprias emoções.
Esse vínculo, porém, não substitui a presença de adultos responsáveis nem o atendimento especializado quando necessário. O animal pode fazer parte de uma rede de apoio mais ampla, mas não deve ser considerado a única fonte de suporte emocional.
O artigo também destaca o trabalho dos cães de serviço treinados para acompanhar pessoas com transtorno de estresse pós-traumático. Esses animais podem ser preparados para reconhecer determinados sinais de sofrimento e responder a mudanças no comportamento de seus tutores.
A atuação desses cães é diferente daquela de um animal de companhia comum, pois envolve treinamento específico para desempenhar funções de apoio.
Cães também são utilizados em ambientes terapêuticos
A presença de cães treinados já faz parte de algumas iniciativas de assistência em consultórios, hospitais e outros ambientes clínicos.
Nesses contextos, a terapia assistida por animais busca proporcionar uma experiência mais acolhedora e ajudar determinados pacientes a lidar com o estresse e a sensação de isolamento durante o atendimento ou a internação.
Um estudo publicado em 2018 por Danielle Brooks e colaboradores investigou a importância dos animais de estimação para pessoas com dificuldades relacionadas à saúde mental.
Os participantes descreveram seus cães como fontes de apoio para lidar com sintomas, manter hábitos cotidianos e sentir-se acompanhados.
Como o trabalho se baseou em experiências relatadas pelos próprios participantes, seus resultados não permitem concluir, isoladamente, que a convivência com cães produza um efeito clínico direto. Os benefícios também podem variar conforme o diagnóstico, a idade e as características de cada paciente.
Por isso, programas terapêuticos com animais exigem cuidados específicos, profissionais capacitados e medidas de higiene e segurança.
Adotar um cachorro exige planejamento e responsabilidade
Apesar dos possíveis benefícios emocionais, especialistas ressaltam que adotar um cachorro durante um período de tristeza ou solidão é uma decisão que precisa ser avaliada com cuidado.
O animal depende de alimentação adequada, acompanhamento veterinário, passeios, atenção e um ambiente compatível com suas necessidades. Também é necessário considerar os custos financeiros e o tempo disponível para os cuidados diários.
A idade, o temperamento e o nível de atividade do cão devem ser levados em conta antes da adoção. Além disso, mudanças na rotina do tutor podem afetar a capacidade de oferecer os cuidados necessários ao longo dos anos.
Portanto, a decisão não deve se basear apenas na expectativa de que o animal melhore o estado emocional de quem o adota. O bem-estar do cachorro também precisa ser uma prioridade.
Ter um cachorro substitui a terapia psicológica?
Não. Embora a convivência com cães possa contribuir para o bem-estar emocional de algumas pessoas, ela não substitui a psicoterapia, os medicamentos prescritos ou as consultas com profissionais de saúde mental.
Pessoas que apresentam sintomas persistentes de ansiedade, depressão, isolamento ou sofrimento emocional devem procurar orientação especializada.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



