Mancha preta no olho dos gatos: ciência revela possível explicação
Pesquisa com tecido ocular de gatos identificou ferro e bromo em lesões escuras na córnea e pode ajudar a entender uma condição que intriga veterinários há décadas

Uma mancha preta na córnea pode ser mais do que uma alteração na aparência dos olhos de um gato. Um novo estudo identificou dois elementos químicos presentes no tecido afetado por uma doença conhecida como sequestro corneano felino. A descoberta pode ajudar a explicar como esse problema ocular se desenvolve, embora os pesquisadores ressaltem que ainda não é possível afirmar que esses elementos sejam a causa da doença.
O sequestro corneano felino provoca uma lesão escura na superfície da córnea, a camada transparente que protege a parte frontal do olho. A condição pode causar desconforto prolongado e, em casos mais avançados, levar à necessidade de cirurgia.
A doença é observada com maior frequência em algumas raças, entre elas Sphynx, Persa e British Shorthair. Durante décadas, pesquisadores tentaram descobrir por que a lesão adquire uma coloração tão escura, mas as explicações encontradas até agora eram contraditórias.
Entre as hipóteses estudadas estavam o acúmulo de melanina e ferro, além da possibilidade de a doença estar relacionada à irritação contínua da córnea, infecções virais ou alterações na película de lágrimas que protege o olho.
Estudo encontrou ferro e bromo nas lesões
A nova pesquisa foi realizada por investigadores da Universidade Hebraica de Jerusalém e publicada na revista científica Veterinary Ophthalmology. O trabalho analisou amostras de tecido ocular de gatos utilizando uma técnica capaz de identificar elementos químicos presentes em quantidades muito pequenas.
Foram analisados tecidos retirados de 11 olhos de nove gatos com sequestro corneano. Os resultados foram comparados com amostras de córneas de quatro gatos clinicamente saudáveis.
A diferença chamou a atenção dos pesquisadores: ferro e bromo estavam presentes nas áreas afetadas pela doença, mas não foram encontrados nas amostras consideradas saudáveis. Outros elementos avaliados, como cálcio, fósforo, sódio, potássio, magnésio, cloro, enxofre e zinco, não apresentaram diferenças significativas entre os grupos.
Segundo os pesquisadores, a importância do trabalho está justamente na possibilidade de observar o problema por uma perspectiva diferente. Eles explicaram que já existiam diversas teorias para tentar entender a coloração preta, incluindo a participação de pigmentos e do ferro.
"Este estudo é singular porque observa um fenômeno que vemos nos gatos, tecido morto sobre a córnea, por um ângulo diferente. Houve várias teorias sobre o que causa a cor preta, incluindo pigmentação, ferro ou outras alterações. Com uma técnica de alta sensibilidade para análise elementar, identificamos dois elementos que diferenciaram claramente o tecido afetado das córneas saudáveis", afirmaram os investigadores.
O que o ferro pode ter a ver com a doença?
A presença de ferro no tecido afetado despertou uma hipótese importante. Esse elemento pode participar de reações que produzem moléculas capazes de provocar danos às células e aos tecidos, em um processo conhecido como estresse oxidativo.
O ferro também está relacionado à ferroptose, um tipo de morte celular associado à oxidação das gorduras presentes nas membranas das células. Esse mecanismo já foi relacionado a doenças degenerativas e inflamatórias.
Diante disso, os pesquisadores levantam a possibilidade de que processos relacionados à oxidação contribuam para a morte das células da córnea e para a deterioração do tecido.
O bromo, por sua vez, abre outra possibilidade. Sua presença pode estar relacionada a processos inflamatórios envolvendo determinados glóbulos brancos, o que levanta a hipótese de que a inflamação na superfície do olho também participe do desenvolvimento da doença.
Descoberta ainda não explica completamente a mancha preta
Apesar dos resultados, os pesquisadores fazem uma ressalva importante: a presença de ferro e bromo não significa que esses elementos sejam responsáveis pelo surgimento do sequestro corneano felino.
Existe a possibilidade de que eles se acumulem na córnea somente depois que o processo de deterioração já tenha começado. Nesse cenário, seriam uma consequência da doença, e não o fator que desencadeia o problema.
O próprio estudo também apresenta limitações. O número de animais analisados foi pequeno e a técnica utilizada permite identificar os elementos presentes nas amostras, mas não mostra exatamente em qual forma química eles estão nem sua localização precisa dentro da córnea.
Por isso, novas pesquisas serão necessárias para descobrir de onde vêm o ferro e o bromo, como eles se acumulam no tecido e se realmente desempenham algum papel ativo na evolução do sequestro corneano.
"Essas descobertas abrem uma nova linha de investigação sobre como a doença se desenvolve e podem, no futuro, ajudar a identificar novos alvos para diagnóstico ou tratamento", afirmaram os pesquisadores.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



