Inteligência artificial pode ajudar a conter avanço de pítons nos Everglades
Novo estudo usa aprendizado de máquina e dados sobre idade, tamanho, sexo e reprodução para identificar as pítons birmanesas que podem ter maior impacto sobre o crescimento da população invasora nos pântanos da Flórida

Nos Everglades, na Flórida (EUA), pesquisadores estão usando inteligência artificial para tentar tornar mais eficiente o combate às pítons birmanesas, uma espécie invasora difícil de localizar e que ameaça animais nativos. A proposta é deixar de considerar apenas a quantidade de serpentes capturadas e identificar quais exemplares têm maior potencial de contribuir para o crescimento da população.
Conforme destaca o site argentino Infobae, a estratégia foi desenvolvida por pesquisadores do Instituto de Ciências Agrícolas e Alimentares da Universidade da Flórida, o UF/IFAS. O estudo combina informações sobre idade, tamanho, sexo e potencial reprodutivo das serpentes com modelos de aprendizado de máquina.
A ideia parte de uma constatação de que nem todas as pítons retiradas dos Everglades representam o mesmo impacto para a população.
Uma serpente jovem e pequena, por exemplo, pode ter menor capacidade de sobreviver e se reproduzir do que uma fêmea adulta de grande porte. Por isso, capturar uma única fêmea reprodutora pode representar um efeito diferente de retirar vários exemplares menores.
"Remover a maior fêmea que já capturamos é muito diferente de remover uma serpente pequena que talvez nem sobreviva até o próximo ano", explicou Alex Romer, ecólogo quantitativo e autor principal do estudo.
Índice muda a forma de avaliar as capturas
Para levar essas diferenças em consideração, os pesquisadores desenvolveram o chamado Índice de Remoção Ponderado. O sistema atribui um valor relativo aos exemplares capturados de acordo com características que influenciam sua capacidade de sobreviver e gerar descendentes.
Segundo o estudo, uma fêmea grande poderia receber, por exemplo, 100 pontos ecológicos arbitrários, enquanto uma serpente pequena poderia receber cinco. Dessa forma, os pesquisadores conseguem comparar o impacto potencial de diferentes capturas.
O método também pode mudar a interpretação dos resultados dos programas de controle. Em vez de simplesmente informar que determinado período teve muitas ou poucas serpentes removidas, seria possível avaliar a importância dos animais retirados para o crescimento futuro da população.
Janeiro e fevereiro chamaram atenção
Os dados analisados pelos pesquisadores mostraram como essa diferença pode alterar a avaliação dos períodos de captura.
Quando apenas o número total de serpentes retiradas era considerado, janeiro e fevereiro não pareciam meses especialmente importantes. A quantidade de pítons capturadas era relativamente baixa.
Porém, quando os pesquisadores levaram em conta as características demográficas dos animais, esses meses ganharam maior relevância devido à proporção de serpentes sexualmente maduras entre os exemplares encontrados.
"Se simplesmente contamos quantas pítons os contratados capturam em um mês, janeiro e fevereiro não parecem tão importantes, pois é capturado um número relativamente baixo de serpentes", afirmou Romer.
Segundo o pesquisador, a situação muda quando a análise considera as características dos animais. "Ao incorporar a ponderação demográfica, de repente esses meses ganham muito mais importância."
Inteligência artificial tenta indicar onde procurar
Além do índice, a equipe utilizou três modelos de aprendizado de máquina para tentar prever quando e em quais condições seria mais provável encontrar pítons com maior importância para o crescimento da população.
Um dos modelos apresentou melhores resultados na identificação de condições associadas à captura de serpentes consideradas mais relevantes do ponto de vista demográfico.
Entre os fatores observados estavam temperaturas mais elevadas, maior umidade e determinadas fases da Lua. Esses elementos não significam que uma captura será garantida, mas podem ajudar a direcionar o planejamento das equipes responsáveis pela remoção.
"Entender quais variáveis são mais relevantes para o manejo de espécies invasoras é fundamental, pois permite utilizar os recursos de maneira mais consciente", explicou Sergio Balaguera Reina, coautor da pesquisa.
O pesquisador destacou ainda a possibilidade de utilizar os modelos para localizar especificamente as serpentes com maior potencial reprodutivo.
"Integrar esse conhecimento a modelos que nos permitam prever onde poderiam estar as pítons de maior impacto, ou seja, as fêmeas reprodutoras, pode representar um ponto de virada", afirmou.
Por que as pítons preocupam nos Everglades
A píton birmanesa é uma espécie invasora já estabelecida no sul da Flórida. Ela é difícil de encontrar porque apresenta comportamento discreto, consegue permanecer escondida entre a vegetação e também pode ficar submersa durante períodos prolongados.
A serpente se alimenta de diferentes animais, incluindo mamíferos, aves e répteis nativos. O Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos afirma que a presença da espécie está associada a fortes reduções de mamíferos em áreas onde as pítons estão estabelecidas.
Estimativas do Serviço Geológico dos Estados Unidos indicam que a população de pítons no estado pode estar na casa das dezenas de milhares de animais. A espécie também apresenta elevada capacidade reprodutiva, com ninhadas que podem chegar a dezenas de ovos.
Diante desse cenário, os pesquisadores acreditam que combinar dados biológicos com inteligência artificial pode ajudar a direcionar melhor os recursos disponíveis para o controle da espécie.
"Cada píton birmanesa removida representa uma vitória para os Everglades", afirmou Melissa Miller, coautora do estudo e professora de ecologia de fauna invasora. Segundo ela, o método pode ser especialmente útil em novas áreas de invasão e nas regiões onde a espécie continua avançando.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



